Somos o que vestimos. Se vestir é um ato político - Diário de Santa Maria

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Coluna de Moda24/06/2017 | 14h01Atualizada em 24/06/2017 | 14h01

Somos o que vestimos. Se vestir é um ato político

Colunista fala sobre a relação da Moda como identidade, aborda a questão do consumo e propõe uma reflexão sobre nossas escolhas

Vocês lembram que na penúltima colunafalei sobre as relações entre moda e comunicação? Pois o texto de hoje pode ser visto como uma continuação daquele, já que a ideia é refletirmos um pouco sobre o papel central que o consumo desempenha nas sociedades atuais como estruturador de valores que regulam relações sociais e conformam identidades.

No livro O Mundo dos Bens: para uma antropologia do consumo, de Isherwood e Douglas, os autores nos apresentam três visões clássicas dos estudos sobre consumo.

A primeira seria uma vertente hedonista, entendida como aquela que supre um desejo pessoal.

A segunda seria uma concepção moralista, na qual o tom que prevalece é o denunciatório, compreendendo o consumo como a grande mazela de nosso tempo.

A terceira seria uma abordagem naturalista, relacionando o consumo ao atendimento de necessidades físicas ou desejos subconscientes.

Eles propõem, então, uma quarta e nova forma de se refletir sobre as relações de consumo, entendendo-o como constituinte do próprio sistema e concebendo seu alicerce principalmente no processo interativo com os sujeitos. O que esses autores buscavam era o entendimento amplo das significações que objetos (incluindo os de moda) produzem depois do ato da compra, pois para eles, o consumo serve para pensar.

Sim, precisamos refletir e problematizar o modelo de consumo desenfreado a que estamos expostos _ principalmente na moda _ e que acabamos naturalizando, mas esse vai ser assunto para outra coluna.

O ponto importante que destaco para que a leitura da coluna de hoje siga sem mal entendidos é: para a vertente da antropologia do consumo que segue as noções de Douglas e Isherwood, o consumo não é necessariamente sinônimo de consumismo. A definição de García-Canclini para os atos de consumo como "algo mais do que simples exercícios de gostos, caprichos e compras irrefletidas, segundo os julgamentos moralistas, ou atitudes individuais, tal como costumam ser exploradas pelas pesquisas de mercado" parece servir como uma luva pra entendermos que os processos de consumo podem ser entendidos também como forma de sociabilidade, interação, representação, formação e comunicação de traços identirários.

Se somos aquilo que consumimos, a moda, o vestuário e a indumentária passam também por questões de afirmação pessoal, identificação de membros com seus determinados grupos e como forma de expressarmos sentimentos, ideias e ideais.

Lembram das rixas dos ternos zoot que falei na outra coluna? Um outro exemplo bem atual é a moda gender-bender, que vem pra problematizar a "moda sem gênero" - que já era uma tentativa de descosntruir padrões nas coleções de vestuário - e propõe a ruptura total dos estereótipos tradicionais e divisão das peças por seções masculinas e femininas.

 

Foto de Alessandri Michele para Gucci em 2015 Foto: Divulgação/ Gucci / Divulgação
Desfile coleção Ronaldo Fraga 2016 Foto: Ronaldo Fraga / Divulgação


Performance em desfile de Ronaldo Fraga onde os modelos tiravam e trocavam suas roupas Foto: Divulgação Ronaldo Fraga / Divulgação


Fernando Cozendey e a liberdade de estilos e gêneros na passarela Foto: Fernando Cozendey / Divulgação

Mas a gente nem precisa se afastar do nosso cotidiano pra perceber a moda como  afirmação identitária e resistência.

Basta se perguntar: você já deixou de vestir alguma vez o que queria por medo de sofrer algum tipo de preconceito?


Ou já acordou pensando: vou usar isso, sim, porque me sinto bem e não me importo com o que os outros vão achar?

Se você for mulher, então, você desafia o perigo - literalmente - todos os dias. Se usar saia curta, decote ou muita maquiagem vão chamar de puta. Se for assediada, vão dizer que é por culpa da roupa que escolheu. Se for mulher gorda, os olhares atravessados e julgamentos sobre o que deve ou não usar, multiplicam.

Fecho o texto na tentativa de, mais uma vez, ampliarmos a noção da moda e do vestuário como pudor, proteção ou apenas ornamento. Se vestir é um ato político!

E é isso que me fascina e me instiga a seguir investigando sobre as relações que se estabelecem entre pessoas e coisas e entre pessoas e pessoas, através das coisas, seja um alargador, um batom preto, um uniforme, uma camiseta de banda ou um salto 10.

O que realmente importa são os significados desses produtos, que dizem muito sobre quem os usa. Basta olharmos com mais atenção e menos julgamentos.


 

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