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01/04/2013 | 08h34

Avaliação no Ensino Médio gera polêmica

Estado implanta plano para dar nova chance a estudantes reprovados, para descontentamento de pais e mestres

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Avaliação no Ensino Médio gera polêmica Fernanda Ramos/especial
Na Escola Walter Jobim, alunos em recuéração tiveram cinco períodos a mais no mês de março Foto: Fernanda Ramos / especial
Eduardo Covalesky Dias

eduardo.dias@diariosm.com.br

Acompanhar os boletins dos filhos e ver notas baixas ou altas, em uma escala de 0 a 10, começa a ser coisa do passado no Ensino Médio da rede estadual. A avaliação emancipatória, que visa à redução dos índices de evasão e repetência, pegou os professores de surpresa, no fim do ano passado, trazendo a medição de desempenho por meio de conceitos. Além disso, trouxe a possibilidade de o aluno passar para a próxima série mesmo tendo sido reprovado em alguma disciplina (entenda a nova avaliação).

A urgência da mudança causou confusão entre professores, pais e alunos. As escolas se organizam para cumprir a exigência, mas enfrentaram dificuldades no entendimento do processo de transformação de notas para conceitos, dos critérios para reprovação e da recuperação de conteúdos para os alunos que não atingiram os objetivos.

Em vista de um possível prejuízo à avaliação de alguns alunos, a Secretaria Estadual da Educação determinou que todos os reprovados, em uma ou mais áreas do conhecimento, na 1ª série do Ensino Médio da rede estadual, tivessem uma nova chance. Exclusivo para 2013, o Plano Estratégico de Transformação da Avaliação Excludente permitirá a reavaliação de quem “rodou”.

– Esse plano é extraordinário e dá conta apenas deste ano, porque é uma fase de transição. A gente não pode imaginar a hipótese de que esses alunos sejam injustiçados por causa dessa transição – afirma o coordenador pedagógico da 8ª Coordenadoria Regional de Educação, Rogier Menezes, que admite que os índices de reprovação estão elevados e que, com a medida, tendem a cair sensivelmente.

Alunos apoiam, pais desconfiam
Na Escola Cícero Barreto, a alternativa encontrada foi reunir em uma turma da 1ª série cerca de 25 alunos reprovados, onde se concentram aulas de recuperação no turno da manhã, com o acompanhamento dos professores das áreas correspondentes. Eles tomaram conhecimento do novo método no primeiro dia letivo.

– Eu nunca tinha rodado. Seria um ano perdido, e eu fiquei abalado durante as férias. No primeiro dia de aula, fiquei sabendo que tinha uma nova chance. Está todo mundo se empenhando, pegando junto. Foi uma motivação a mais – afirma o estudante Neverton Abdalla, 15 anos.

O pai do jovem, Everton, 40 anos, não está satisfeito com o sistema.
– Sinceramente, acho que é um meio de se atingir uma meta (de aprovação). Eu acho que ele não merecia, porque não se dedicou durante o ano. Precisa ter merecimento – avalia Abdalla.

Faltou diálogo, dizem os professores
Assim como o estabelecimento do novo processo de avaliação, a implantação do Plano Estratégico de Transformação da Avaliação Excludente gera polêmica.

O diretor da Escola Margarida Lopes, professor Valmir Beltrame, decidiu não aplicá-lo, por entender que os alunos não foram prejudicados na avaliação do último trimestre de 2012. A presidente do Cpers em Santa Maria, professora Sandra Regio, afirma que os professores foram pegos de surpresa com a determinação:

– Essa é uma proposta que veio de cima para baixo. Como teve uma alta reprovação no Ensino Médio, eles vão aplicar um provão. Pela Lei de Diretrizes e Bases da Educação, até o início do ano letivo, existe a chance de se fazer uma prova para passar para a 2ª série. Agora, fizeram para todos.

O assessor de planejamento estratégico do setor pedagógico da 8ª CRE, Cícero Santiago, discorda.

– A reforma do Ensino Médio estava no calendário de 2012. Foi feita uma conferência em nível estadual, e, no segundo semestre, houve uma série de formações sobre a avaliação. Em três momentos, a rede inteira foi mobilizada para discutir – diz.

‘As escolas públicas não estão preparadas’
Professora Kizzy Morejón, doutora em Psicologia e Educação
A implementação da avaliação emancipatória exige mudanças na concepção do ensino público, já que cria um novo formato que privilegia a autonomia do aluno: ele poderá se autoavaliar e participar da construção do próprio aprendizado. No entanto, o processo de adaptação ao novo sistema requer, também, mudanças culturais por parte de alunos, professores e pais.

A professora Kizzy Morejón, doutora em Psicologia e Educação pela Universidade de São Paulo (USP), avalia o impacto das mudanças no Ensino Médio gaúcho. Segundo ela, as escolas públicas não estão preparadas para uma concepção de ensino que dá autonomia aos alunos e descontrói a avaliação instituída.

A pesquisadora critica a rapidez da implantação do modelo, ao mesmo tempo em que não acredita que ele trará impacto imediato nos números de evasão e repetência. Porém, acredita que o sistema pode motivar alunos com baixo desempenho. Confira trechos da entrevista:

Diário de Santa Maria – A avaliação emancipatória pode resolver o problema da evasão e da repetência escolar com qualidade?

Kizzy Morejón – Em curto prazo, será muito difícil. As maiores mudanças que vêm com a avaliação emancipatória são a mudança para conceitos e a autoavaliação por parte dos alunos. As escolas públicas não estão preparadas ainda para esta nova concepção. Com a avaliação emancipatória, o aluno pode se autoavaliar e deve fazer parte deste processo de avaliação. Qual é a dificuldade dos professores: aplicar a autoavaliação e não alterá-la, respeitando uma maior autonomia dos alunos. Essa avaliação prevê a autonomia do aluno e a possibilidade de emancipar os alunos. É isso que dificulta o processo, porque não estamos acostumados a isso. Fazer a desconstrução de algo já instituído (o sistema de notas e a autonomia dos professores) é bem complicado.

Diário – Quais são os efeitos da avaliação emancipatória para a formação escolar a longo prazo?

Kizzy – A intenção é melhorar a qualidade do ensino via processo avaliativo, e não somente a questão dos números, minimizando a reprovação e a evasão, mas também possibilitar a participação dos envolvidos nesse processo. A expectativa que se tem é que se qualifique o ensino. Minha preocupação é a de que não adianta se mudar o tipo de avaliação sem mudar a prática e a concepção dos professores quanto a isso.

Diário – Reprovar em uma área compromete a aprendizagem futura?

Kizzy – Ao contrário. O aluno não vai precisar repetir conteúdos já trabalhados, vai trabalhar alimentando o que de fato precisa aprender. Se tiver de repetir o ano todo, vai deixar de ser significativo. O Brasil é um dos poucos países que ainda têm essa organização curricular extremamente conteudista, com hierarquia de áreas do conhecimento, inclusive. Em outros países da América Latina, o que equivale ao 2º e 3º anos do Ensino Médio, já se direciona o ensino para as preferências dos alunos e áreas que eles pretendem atuar no futuro.

Diário – Um desempenho insatisfatório em Matemática e suas Tecnologias, por exemplo, pode comprometer o aprendizado em outras áreas?

Kizzy – Não diria que compromete. A gente deveria levar em conta os diferentes tipos de aprendizagem que o aluno tem. Não precisa ter destaque acadêmico em várias áreas, mas é possível que tenha inteligência para uma área em específico, e isso, na escola, muitas vezes, não é levado em conta. Existe uma hierarquia desses conteúdos. Disciplinas exatas têm um valor maior embutido no currículo, num patamar acima de educação física e geografia, por exemplo. A hierarquização pode comprometer o aprendizado.

Diário – Mudanças pedagógicas costumam exigir capacitações aos professores, mas alunos também precisam se adaptar, e pais podem não entender o novo formato. Quem terá maior dificuldade de adaptação ao novo sistema?

Acredito que alunos e professores tenham mais dificuldade. A família pode ver as progressões como algo positivo porque tira aquele peso da reprovação. Os professores têm tido formações, instruções de como proceder. Para o aluno, isso não está ficando bem claro, o que pode causar alguma dificuldade tanto para ele quanto para os professores. A emancipação acaba sendo difícil de ser absorvida. Já é difícil para o ser humano, imagina nas escolas públicas.

Diário – A rapidez na aplicação do processo prejudica o benefício que pode trazer o novo sistema?

Kizzy – É que o processo foi imposto, sem uma preparação prévia nas escolas. Não se prepara o sujeito antes, se joga isso para dentro da escola e diz para os professores: “se virem”. Isso acaba causando um grande mal-estar. A gente precisa lidar com os recursos que tem, e o maior recurso é o professor. Se o professor não quiser ou não souber se adaptar, não haverá mudança.

Diário – Muitos alunos reprovados parecem motivados em recuperar as disciplinas. Isto é uma reação geral?

Kizzy – Acredito que sim. O aluno está nessa fase de desenvolvimento, ansioso por mudanças. Os jovens querem as coisas para ontem. A possibilidade de o avanço se concretizar, para eles, é muito positiva. Para os pais, em alguns casos, talvez seja visto como se a escola estivesse empurrando com a barriga e não, efetivamente, ensinando o filho.

DIÁRIO DE SANTA MARIA

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