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Entrevista03/11/2012 | 13h04

"O Ensino Médio virou um limbo do ensino", afirma Marcelo Ricardo Pereira, professor da UFMG

Pesquisador defende o uso do diálogo na resolução de problemas na educação

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"O Ensino Médio virou um limbo do ensino", afirma Marcelo Ricardo Pereira, professor da UFMG Arquivo Pessoal/Arquivo Pessoal
Marcelo Pereira desenvolveu trabalhos em países como Chile, Bolívia, Uruguai, Angola, França e Argentina Foto: Arquivo Pessoal / Arquivo Pessoal
Diogo Figueiredo - Especial

Apontada por pesquisas, a falta de prestígio da profissão docente tem chamado a atenção da academia. O reflexo desta situação aparece no dia a dia e em momentos pontuais. No fim de semana em que cerca de 5,8 milhões de estudantes participam do Enem, a parcela que irá utilizar a prova para ingressar em um curso de Pedagogia ou Licenciatura deve ser mínima. Estudioso da autoridade dos educadores há mais de uma década, Marcelo Ricardo Pereira acumula a experiência de atividades teóricas e práticas desenvolvidas em universidades da América Latina, Europa e África, onde atuou como professor visitante e pesquisador.

Recentemente, o professor da Universidade Federal de Minas Gerais tem estudado a autoridade docente na Educação Básica, tema de seu livro Acabou a autoridade? Professor, subjetividade e sintoma (Fino Traço, R$ 30). Em recente passagem por Porto Alegre, Marcelo Pereira concedeu a seguinte entrevista, em que fala sobre os problemas da Educação Básica, a perda do respeito por parte dos professores e a desmotivação estudantil.

Que semelhanças e diferenças o senhor encontra na Educação Básica dos países em que realizou suas pesquisas?

Marcelo Ricardo Pereira — Na França, o que eles chamam de convulsão juvenil nas escolas é de longe o que acontece conosco. A desautorização é muito menor, mas eles se sentem desrespeitados. Em Angola, existe uma forte repressão e um extremo respeito às normas. Os adolescentes não podem ir de short assistir à aula, em um país que tem 35 graus de temperatura. Eles têm uma deferência para falar com o professor, mas eles se deprimem muito, há um alto abuso de álcool por parte de menores. Os professores se queixam que as salas têm 70 alunos e não podem falar que o sistema está ruim. A Argentina é muito próxima ao que a gente vive aqui. Existe um fortalecimento do ensino público, e eles trabalham muito com a inclusão. Os professores se queixam das mesmas coisas: escolas mal preparadas, infraestrutura problemática, má-formação docente.

Mesmo que a nossa educação esteja melhorando, ainda está longe do ideal. Por que um país que atingiu um nível tão alto de inclusão na escola ainda desvaloriza o ensino público?

Pereira — Foi a nossa constituição de 1988 que fez a universalização do Ensino Básico, cem anos depois da República e 200 anos depois da Revolução Francesa. Hoje há um grande esforço em colocar todo mundo na escola, a mentalidade tem sido alterada. Tem um problema midiático, ao se noticiar que os alunos estão chegando na 8ª série sem ler nem escrever. Se fosse há 30 anos, ele repetiria o ano e não continuaria os estudos, porque a escola não era para ele. O governo quis fazer todo mundo chegar, e ir dando condições. No sentido macrofísico, nós temos um Brasil que historicamente não investiu na educação para todos. No nível microfísico, uma tentativa de reversão disso. Talvez o mérito da nossa geração seja ver isso acontecer, e ao mesmo tempo ser um ator que ajuda na reconfiguração.

Ainda que SC e RS sejam considerados Estados com um bom ensino, o RS é o que mais reprova no Ensino Médio no país. Isso pode ser fator de desmotivação, gerando desautorização do professor?

Pereira — O Ensino Médio virou um limbo do ensino. Nós temos um Ensino Infantil e Fundamental com uma política mais ou menos clara e um Ensino Superior valorizado. No Ensino Médio não se sabe o que fazer com esses jovens, porque nós não fazemos uma educação para eles. Mas há de se perguntar se não temos de trabalhar conteúdos muito específicos: sexualidade, ética e moral, temas urgentes para uma juventude que solicita uma referência dos adultos. O jovem sai de uma condição infantil, socializa-se, encontra um mundo chocante, e não tem onde falar. É o que a psicanálise chama de pane adolescente. Na adolescência, ele tem que se afirmar sexualmente, socialmente, se desligar dos pais, fazer laços sociais. Isso não é uma coisa que se faça tranquilamente. E o nosso Ensino Médio não os ajuda a fazer essa transição.

O ensino é considerado muito teórico, pouco voltado à prática. Isso é um fator de desmotivação dos adolescentes?

Pereira — É provável. Os professores vão inventando coisas. Uma professora de Matemática, para ter atenção, dá metade da aula de matemática e metade de sexualidade. Outro, de Língua Portuguesa, inventa a cada aula uma novela, tipo Harry Potter, para capturar a atenção dos meninos. Microfisicamente, a gente vê que vão nascendo muitas formas de o professor lidar com esses alunos. O risco disso é o professor adolescentizar-se, chegando em um ponto em que deixa de ser referência. Uma professora me disse: "O aluno disse que eu não mandava nele, porque quem mandava em mim era o prefeito". Eu perguntei o que ela tinha respondido. Ela disse: "Prefeito nenhum manda em mim". Ela perdeu a oportunidade de dizer: "O prefeito manda na diretora, a diretora manda na coordenadora pedagógica, a coordenadora manda em mim, e eu mando em você". O que ela fez foi se nivelar com o aluno. Já que ninguém manda, ele inventa a tirania.

Apenas dois por cento dos estudantes querem prestar vestibular para Pedagogia ou outro curso de Licenciatura, de acordo com a pesquisa A Atratividade da Carreira Docente no Brasil. Como seria possível tornar a profissão de professor atraente?

Pereira — Com esses professores, o jovem não tem em quem se espelhar. Mas também é importante interrogar as estatísticas. Os cursos de Licenciatura nunca estiveram tão cheios, nunca tivemos tanta sala de aula cheia com pessoas que, desejosas ou não, estão cursando licenciatura. O que eles vão fazer com isso, é um dilema. Pode ser uma carta na manga para trabalhar como professor, caso não surja outro emprego. Do ponto de vista das políticas públicas, da academia, dos pesquisadores, precisamos verificar que, dando melhores condições para os professores, fazemos com que a profissão seja represtigiada ou prestigiada. Porque essa profissão nunca foi valorizada na história recente. Desde que foi instituída, sempre foi problemática.

Independentemente do país?

Pereira — É generalizadamente um problema, sem contar o Ensino Superior. No Brasil, as professorinhas do século 19 iam buscar os meninos de carroça porque eles fugiam da escola. Rui Barbosa já tinha projeto de lei para valorizar o professor no século 20. A profissão de professor sempre passou por uma inquietude muito grande. Mas algo da nossa memória ancestral acha que nós vivemos algo muito bom recentemente. Nós precisamos qualificar os professores e dar melhores condições, inclusive de salário. Isso significa também dar lugares para trabalhar, fazê-los conversar entre si. Ele precisa se interrogar, e não veicular uma imagem que ele cria de si, muito vitimizada. Por ter uma profissão que o desprestigiou, ele anuncia que ela não vale a pena. Ele se tornou ressentido, e na psicanálise o ressentido é aquele que não quer sair do lugar de vítima.

Os professores precisariam ter um acompanhamento psicológico, tal como é oferecido aos alunos?

Pereira — Esse era o sonho freudiano. Ele falou que um professor só vai ser bom se deitar no divã. Mas quem vai para uma psicanálise precisa ter uma questão muito íntima. Então, é um sonho freudiano, mas não uma realidade prática. Um professor merece uma política pública em que ele tenha uma forma de apoio que não precisa ser um acompanhamento psicológico. Poderia ser uma instância pedagógica que instigue os professores a falar coletivamente sobre o trabalho. Podem ser grupos de apoio, instâncias de formação sobre determinado fator. Uma formação que vise situações circunstanciais, em que as pessoas possam falar para gerar debate sobre a coisa, e não se escondam atrás de cursos macrotemáticos. Isso requer um pedagogo mais antenado, mais ligado ao seu entorno.

Isso tem a ver com problemas como a diversidade em sala de aula?

Pereira — Um professor me disse assim: "Estão colocando meninos autistas em minha aula, e eu não tenho preparação para isso". A resposta do professorado é ressentida. Não é chamar a escola para conversar sobre a condição desse menino. Eu preciso de um curso específico para isso? Talvez precise. Eu preciso de um profissional de apoio para auxiliar? Talvez precise. Precisa de uma reconfiguração da classe, de modo que algumas aulas sejam inclusivas. É preciso pensar propositivamente alternativas. Por exemplo, uma mulher está grávida e vai nascer um filho com retardo mental. Nenhuma mãe está preparada, mas quando a criança nasce você vai ter que aprender. É um pouco isso na escola também: chegou o diferente. Vamos agora nos municiar, coletivizar, discutir o problema.

Essa aceitação vai ocorrendo aos poucos, conforme relata Diogo Mainardi no seu último livro, sobre seu filho com paralisia cerebral?

Pereira — Eu trabalhei por longos anos em uma clínica que atendia todo tipo de transtornos. No dia a dia com as crianças, eles não eram diferentes. Se respeita cada um com suas limitações, e você lida com isso cotidianamente. Eu vejo em muitas salas de aula alunos sendo solidários com aqueles que não têm condições de acompanhar os estudo. É óbvio que isso não esconde a dificuldade que é lidar com as diversas formas de inclusão que a sociedade exige. Mas temos de enfrentá-la.

A internet pode ser um fator de empoderamento do aluno e de desempoderamento do professor, como foi visto no caso da estudante Isadora Faber?

Pereira — O problema da internet é que denunciamos tudo, a todos, e perseguimos a tudo e a todos. A sociedade hitlerista se baseava nisso. O problema não é a menina fazer o site, que é uma iniciativa excelente. O problema é a escola não levar esse debate à condição política. Em vez de discutir o que isso significa, fazer uma plenária, verificar o que procede e o que não procede, colocar o próprio site no centro do debate, ela responde defensivamente. Qual o problema de assumir que a didática não é perfeita, que tem problemas físicos e que precisa melhorar? Se o fim último da escola é civilizá-los, era a hora de ela colocar o que foi feito, o que isso representa, trazer os pais para o debate. Mas não, ela antipedagogicamente fica na defensiva.

Falta muito para que as escolas e os professores saibam lidar com essas ferramentas?

Pereira — Sim. Quando eu digo que a sociedade adolescentizou-se, é porque até os procedimentos midiáticos se dão através da adolescência. A escola pode usar esses instrumentos todos, os recursos que a contemporaneidade oferece, pode trazer esse recursos para dentro dela, para os debates, para as formas de associação, de politização. Tem o caso de um professor que estava na frente do quadro ensinando o verbo to be, com apenas três alunos prestando atenção. Se ele fosse para a internet extrair os verbos dentro de textos que os alunos estão ávidos para aprender, ele poderia fazer muita coisa. Na internet, os alunos têm muito mais acesso à língua do que o professor estava fazendo. Esse é um que poderia ser vítima [do uso das redes sociais], se alguém filmasse aquela aula aturdida.

Qual é a saída para problemas de estresse enfrentados pelos professores?

Pereira — Como psicanalista, acredito que a saída é fazer o professor falar. Ele deve dialetizar sua experiência, ou seja, falar para que você consiga repetir e elaborar. Precisa de instâncias que façam valer isso, um pedagogo, um coordenador pedagógico. É preciso trabalhar os problemas no calor da hora, que esse coordenador traga outros professores, gerando um debate que sirva como reflexão. Por exemplo, acontece uma situação de violência na escola. O que a gente pede é que se convoque uma reunião com outros professores, faça descrever o problema para que o professor consiga revertê-lo. As reuniões pedagógicas, quando existem, debatem os problemas que aconteceram ao longo do mês no fim do mês. Uma pauta de emergência se torna uma entre as tantas.

Como as escolas conseguem resolver na prática esses problemas?

Pereira — Nas escolas particulares, vejo algumas iniciativas muito boas quando ela é dita alternativa, e não a escola massacre voltada para o vestibular. Umas privilegiam mais contato físico, atividades ecológicas, desenvolvem outros sistemas de aprendizagem, com pais conscientes, engajados, trabalham a criatividade e potencialidade artística. Na iniciativa pública, existem escolas que privilegiam esse debate coletivo. A Escola da Juventude fez um trabalho para intervir, saber onde eles fracassaram, sem varrer nada para debaixo do tapete. Nesse caso, se fez uma escola na favela, mas que não era para pessoas da favela. E isso só foi colocado porque discutimos e em um momento surgiu essa farsa social. A favela se chama Pedreira, e alguém virou e disse: "Mas aqui não se chama Escola da Pedreira?". Depois disso que a gente entendeu que o projeto desconsiderou a origem das pessoas. O projeto era muito mais assistencial do que inclusivo.

Além do aluno e das condições de trabalho, os pais também geram estresse para o professor?

Pereira — Cada caso é um caso mas, generalizando, a gente teria uma tendência nas escolas privadas de uma desresponsabilização dos pais, exigindo que a escola faça o papel deles. Eles passam a cobrar dos professores, que ficam acuados. Do ponto de vista da escola pública, a gente vê que eles não têm esse recurso dos pais mais ricos. Os pais das classes média e alta vão desconfiar da escola, e cobrar ela a dar limite, moral, a conduzir coletivamente. Os pais de escola pública acham que ela precisa fazer aquilo que eles não conseguem fazer. E aí eles deixam o professor à própria sorte.

É possível ser otimista em relação à condição docente?

Pereira — Sim, quando fui verificando invenções cotidianas, em que os professores inventam fórmulas para fugir do embaraço. Do ponto de vista macrofísico, existem políticas públicas, ainda que seja [um processo] lento. Nós nunca tivemos tanto dinheiro para pesquisa no Ensino Básico, tanto convênio entre escola e universidade, de forma que o nosso estagiário vá até a escola. Eu sou pessimista no diagnóstico, mas otimista no ato. Quando vou para a prática, tenho a esperança de que vá mudar.

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