Quem é o médico gabrielense cotado para o Nobel de Medicina - Diário de Santa Maria

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Entrevista14/11/2017 | 09h30Atualizada em 14/11/2017 | 09h30

Quem é o médico gabrielense cotado para o Nobel de Medicina

Cesar Victora, 65 anos, fala sobre sua pesquisa em amamentação infantil, a infância e o futuro 

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São Gabriel é uma cidade distinta pela quantidade de personalidades que se destacaram pelo Brasil e pelo mundo. Já foi conhecida como a Atenas Riograndense e é chamada de Terra dos Marechais, berço de Alcides Maya e Plácido de Castro. 

E a cidade não para de revelar personalidades mundo afora. O médico gabrielense Cesar Victora tornou-se um dos cientistas mais importantes da atualidade com sua pesquisa sobre amamentação e nutrição materno-infantil, sendo o primeiro brasileiro a vencer o prêmio Gairdner, no Canadá, entrando para a lista de possíveis indicados ao Prêmio Nobel em Medicina. Confira abaixo uma entrevista completa com o médico, de Felipe Oliveira, da Câmara de Vereadores de São Gabriel. 

Médico Cesar Victora, 65 anos, de São Gabriel, que recebeu o Prêmio da Fundação Gairdner de Saúde Global, no Canadá. Ele é cotado para o Nobel de Medicina. Nas fotos, no evento no Canadá, no trabalho e antigas fotos de família em São Gabriel.
Em outubro, o epidemiologista recebeu o Prêmio de Saúde Global do Canadá, uma distinção que abre portas ao NobelFoto: Arquivo Pessoal / Arquivo Pessoal

O epidemiologista foi o primeiro a mostrar que a amamentação exclusiva ajuda a reduzir a morte de bebês, descoberta que alterou a recomendação sobre alimentação infantil adotada pela ONU, Unicef e pela Organização Mundial de Saúde (OMS). Ao falar da expectativa para a indicação ao Nobel, Victora é comedido, mas não nega a possibilidade da indicação.

Com 65 anos, um de seus hobbies é aproveitar os ventos favoráveis da Lagoa dos Patos, em Pelotas, onde mora, para a prática de windsurf. A paixão por esportes, aliás, causou-lhe um transtorno. Na segunda-feira, precisou submeter-se a uma cirurgia no tornozelo devido a uma lesão causada por um excesso, o que lhe obriga a usar uma bengala.

É casado com a obstetra Mariângela Freitas Silveira e tem três filhos, Julia e Gabriel, que são médicos, e Isadora, sua enteada, que fez Relações Internacionais. 

CIENTISTA MANTÉM LIGAÇÃO COM A REGIÃO
Victora morou em São Gabriel até os 9 anos, quando seu pai, o coronel do Exército e veterinário Fernando Machado Victora, e sua mãe, Carmen Maria Gomes Victora, mudaram-se para o Rio de Janeiro. Formou-se em Medicina pela UFRGS em 1976 e, no ano seguinte, ingressou como professor da Universidade Federal de Pelotas (UFPel).

Victora possui uma forte ligação com a região e sua cidade natal. Seu pai serviu ao Exército e seu avô foi cônsul honorário do Uruguai em São Gabriel. Na última quinta-feira, o cientista visitou a terra natal para receber uma homenagem da Câmara de Vereadores em reconhecimento pelo conjunto de suas pesquisas.


Médico Cesar Victora, 65 anos, de São Gabriel, que recebeu o Prêmio da Fundação Gairdner de Saúde Global, no Canadá. Ele é cotado para o Nobel de Medicina. Nas fotos, no evento no Canadá, no trabalho e antigas fotos de família em São Gabriel. Na foto, com a mãe e irmãos (ele está à esquerda)
Victora (à esq.) quando criança em São Gabriel com a mãe, Carmen Maria Gomes Victora, e os irmãosFoto: Reprodução / Reprodução

ENTREVISTA

Como o senhor se sente recebendo o reconhecimento da sua cidade natal?
Cesar Victora –
Fico extremamente feliz, é sempre muito importante ser reconhecido no lugar em que você nasceu. Eu nasci na Santa Casa de Caridade em 1952. Tenho 65 anos e fiquei muito feliz em saber que a Câmara de Vereadores resolveu me homenagear. Moro em Pelotas há 30 anos, e também já recebi prêmios em outros lugares, mas ser reconhecido pela sua cidade é sempre muito especial.

O senhor deixou São Gabriel aos 9 anos. Conte-nos um pouco sobre essa época.
Victora –
Nós vivíamos na casa de esquina entre as ruas Coronel Cezefredo e a Celestino Cavalheiro. No andar de cima moravam os meus avós e, no andar de baixo, os meus pais. Então passei a minha infância toda aqui brincando na vizinhança. A casa tinha um pátio grande e eu brincava bastante, a cidade era muito segura naquela época. Quando atingi a idade escolar, aos 7 anos, eu já sabia ler e a professora do grupo escolar Menna Barreto me colocou direto no 2º ano. Eu fiz a 2ª e a 3ª séries aqui, e quando fui para a 4ª, meu pai foi transferido para o Rio. Mas eu vinha todos os verões para São Gabriel passar o Carnaval, que era bastante conhecido naquela época, com os meus primos, que ainda moram aqui. O meu avô, que foi cônsul aqui em São Gabriel, era uma pessoa muito interessante, tinha um espírito comunitário muito forte, fazia campanha de arborização na cidade. Foi o fundador do asilo para mendigos. Lembro de um bebedouro para cavalos que ele fez perto da Santa Casa para quem chegasse da campanha e que durou muitos anos. Nunca foi político, mas tinha esse espírito de melhorar a cidade.

Como começou o seu interesse pelo estudo em amamentação e a luta pela diminuição da mortalidade infantil?
Victora –
Sempre achei que faria engenharia, mas um pouco antes do vestibular eu comecei a pensar que preferia trabalhar mais com gente, alguma coisa para melhorar a vida das pessoas. Achava a engenharia muito técnica. Lembro de ter lido um livro de um suíço chamado Albert Schweitzer, que foi para a África e fundou um hospital.Aquele livro me influenciou bastante. E eu acabei trabalhando muito na África com pesquisas em saúde.

Médico Cesar Victora, 65 anos, de São Gabriel, que recebeu o Prêmio da Fundação Gairdner de Saúde Global, no Canadá. Ele é cotado para o Nobel de Medicina. Nas fotos, no evento no Canadá, no trabalho e antigas fotos de família em São Gabriel.
Na última quinta-feira, Victora foi homenageado na Câmara de Vereadores com um Voto de LouvorFoto: Felipe Oliveira / Divulgação

 O senhor tem filhos, é casado?
Victora –
 Eu sou casado com a Mariângela Silveira, que é obstetra, tenho dois filhos do meu primeiro casamento e uma enteada, que é filha da minha esposa, a Isadora, que faz mestrado em Relações Internacionais. O meu filho mais velho, Gabriel, é cientista também, imunologista, e a minha filha do meio é pediatra e trabalha com prematuros e neonatais.

Seus filhos tiveram a oportunidade de passar pelo processo indicado nas suas pesquisas sobre amamentação?
Victora –
Quando os meus filhos nasceram, a minha pesquisa não estava pronta ainda. Eles foram amamentados, mas não como as minhas pesquisas mostraram que seria o ideal, ou seja, receber o leite materno até os 6 meses e mais nada, nem água nem suco, e continuar mamando até os 2 anos. Mas o meu neto foi amamentado conforme a indicação.  

Quais os obstáculos a serem superados e as conquistas a serem alcançadas na prevenção da mortalidade infantil e amamentação, aqui no Brasil e no mundo?
Victora –
O Brasil está enfrentando, este ano, uma grande crise em termos de políticas para financiamento de pesquisas. Houve muitos cortes do governo e o número de bolsas para formar pesquisadores e verbas está muito inferior do que era há quatro, cinco anos. A própria Academia Brasileira de Ciências está realizando uma campanha alertando a população sobre o grande perigo que a ciência está enfrentando. O meu próprio filho está nos Estados Unidos, porque lá ele tem condições muito melhores de fazer pesquisa. Estamos tendo uma fuga de cérebros.   

 Como o senhor vê a importância de se valorizar a pesquisa em cidades menores da nossa região como Pelotas, São Gabriel e Santa Maria, que são mais afastadas dos grandes centros urbanos?
Victora - 
Eu acredito que é muito difícil realizar pesquisa fora de uma universidade. Na minha época, quando eu fui para Pelotas, não existia um centro de pesquisa, mas eu e meus colegas criamos do zero e hoje a Universidade Federal de Pelotas têm dois prédios voltados para a minha pesquisa. A pesquisa é muito cara, e nó tivemos a sorte de ter conseguido investimentos no Exterior e de entidades como a Unicef. Eu acredito que é muito difícil realizar pesquisa fora de uma universidade. 

Como está a expectativa para a indicação ao Nobel?
Victora –
Até hoje, 300 pessoas já receberam o prêmio Gaidner e, destas, 87 receberam o Nobel. Acho muito difícil que alguém da minha área de epidemiologia receba o Nobel, porque o Nobel prioriza muito mais a tecnologia, alguém que descobriu uma nova droga, inventou uma vacina ou uma nova técnica de diagnóstico, e o epidemiologista não faz isso. Eu gosto de brincar que se eu tivesse inventado o leite materno, eu ganhava o Nobel, mas eu não inventei, eu só descobri que faz bem. O último epidemiologista a ganhar o Nobel foi em 1902. Para mim, o Gairdner já está mais do que bom.

Mas o senhor esta cotado para esta indicação.
Victora
Você deve ter entrevistado algum amigo meu (risos). A expectativa existe, porque o Gairdner tem sido um precursor do Nobel, mas na minha área acho difícil.

O que acha que pode ser a seu favor e o que pode agir contra sua indicação ao Nobel? O fato de ser brasileiro "afeta"?
Victora
Acho que eles não têm nenhum tipo de critério de nacionalidade. Eu trabalho com ciência aplicada, tento fazer programas que trabalhem diretamente melhorando a vida das pessoas e o Nobel é muito mais um prêmio de ciência básica, alguém que descobre uma nova molécula, descobre uma nova técnica, o que é bastante distante da prática que é o que eu tenho.

Quais os obstáculos a serem superados e as conquistas a serem alcançadas na prevenção da mortalidade infantil e amamentação, aqui no Brasil e no mundo?
Victora - 
O Brasil está enfrentando, este ano, uma grande crise em termos de políticas para financiamento de pesquisas. Houve muitos cortes do governo e o número de bolsas para formar pesquisadores e verbas está muito inferior do que era a quatro, cinco anos atrás. A própria Academia Brasileira de Ciências está realizando uma campanha alertando a população sobre o grande perigo que a ciência está enfrentando. O meu próprio filho está nos Estados Unidos, porque lá ele tem condições muito melhores de fazer pesquisa. Nós estamos tendo uma fuga de cérebros. No ano passado, três alunos nossos que se formaram em doutorado foram para a Inglaterra contratados por universidades inglesas, são bons pesquisadores, mas não estão encontrando investimento aqui. Então, esta questão é muito séria e espero que não se prolongue.

Como o senhor avalia a atual situação da pesquisa no Brasil? Os investimentos estão cada vez mais minguados, o que prejudica estudos de grande porte, como é a sua pesquisa.
Victora - 
Eu tenho trabalhado menos no Brasil, os meus alunos estão tocando as minhas pesquisas adiante. Eu estou interessado naqueles países onde morrem muitas crianças. No Brasil ainda morre muita criança, mas de cada mil crianças que nascem, 15 entram em óbito, se você for para Angola este número sobe para 50. Então o meu interesse principal é aplicar as coisas que sabemos que funcionam. A ONU tem uma iniciativa que se chama “Contagem Regressiva para 2030”, onde nenhum país do mundo deve ter a mortalidade infantil maior do que 25 para cada mil que nascem. O Brasil já está bem, mas pode melhorar.

O que o senhor fará com o prêmio de US$ 100 mil dólares da fundação Gairdner? Vai para a pesquisa?
Victora - 
Eu ainda não sei, pois o cheque ainda não chegou (risos). Eu gostaria de ver alguma área específica em que eu não esteja conseguindo financiamento e que precise dessa verba especificamente.

 

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