O dia em que decidi ser professora - Diário de Santa Maria

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Coluna Sociedade04/10/2017 | 16h13Atualizada em 04/10/2017 | 16h13

O dia em que decidi ser professora

Em tempos de crise na educação e parcelamento de salários, colunista conta uma história que resgata o verdadeiro sentido da profissão: o amor pelo ofício

Faz muito tempo. Subia a Rua Sete de Setembro acompanhada da minha mãe e minha irmã, Zaida. Naquela época, a ladeira da Sete parecia maior, íngreme, desafiadora. Calçamento irregular, em vários momentos machucava meus pezinhos de criança que calçavam a tradicional "Alpargatas Roda", de cores múltiplas, que conforme a ocasião permitia que meu dedão fosse surgindo constrangido naquela boca de jacaré que teimava em sorrir, no canto esquerdo do pé direito.

Enquanto caminhávamos, minha mãe suspirava ofegante. Acho que em virtude do que carregávamos. Dona Lucília levava em cada braço uma trouxa de roupas, devidamente lavada e passada. Zaida, no braço direito, segurava outra trouxa e, no esquerdo, dois cabides, carregados no alto, onde vestidos e camisas engomados desfilavam como a se oferecerem para mais uma dança. E eu, pequena ainda, já conseguia levar as peças de banho, cuidadosamente ajeitadas.

Na altura da passagem de nível da Rede Ferroviária, próximo à Estação da Viação Férrea, aguardávamos eternamente a manobra de um trem de passageiros com nossas cargas. O maquinista sem pressa comandava o vai e vem da locomotiva e nós, pacientemente, aguardávamos - também não havia remédio. 

Continuávamos a peregrinação com mais ladeiras pela frente. A Avenida Rio Branco desafiava nossa paciência e força física, semanalmente. Não lembro o que pensava. Tinha vontade de chorar, de jogar aquelas roupas no chão. De me negar a seguir aquela procissão, mas rebelar-me, não conseguiria. Dona Lucília não entenderia! Continuava caminhando e conversando, fazendo planos. Na volta, passaria no Armazém dos Scott e me presentearia com aquele sorvete seco, que tanto eu apreciava. Só em pensar no sorvete, desencadeava minha salivação. 

Após uns quarenta minutos de peregrinação, a chegada na casa da patroa. Uma linda casa rosa, próxima ao Itaimbé. A entrega das roupas, a expectativa do pagamento gerava em nós euforia. Mas, naquele dia, a patroa deu falta de um lençol amarelo. Enlouqueceu! Passou a agredir verbalmente minha mãe, que humilhada chorava. Não sei por que não mirei uma cusparada no rosto daquela metida! Ai me Deus, que ódio! Foi tão forte, que sessenta anos depois, rememoro esse episódio.

Ao deixarmos a sala da patroa e ganharmos a rua, abracei minha mãe, que chorava. A Zaida também chorava. Dona Lucília rezava para Santo Antônio, pedindo que ele trouxesse o lençol perdido nas mãos da Dona Fulana. Como sabíamos que Santo Antônio era íntimo amigo da minha mãe, nos acalmamos. Ele não falharia!

Maria Rita Py Dutra em uma das tantas atividades que protagonizou em escolas infantisFoto: Loiva Teresinha Passos Marques / Arquivo pessoal

Abracei minha mãe dizendo-lhe que quando crescesse, não queria ser lavadeira, mas, sim, professora! Dona Lucília abraçou-me longamente, decidida a pegar mais alguns lavados, caso fosse preciso, para garantir que minha decisão fosse realizada. Arrepiei-me da cabeça aos pés, só em pensar na possibilidade de minha mãe começar a prestar serviço para outra patroa estressada. A título de informação, quatro semanas depois, a Dona Fulana encontrou o lençol amarelo esquecido no fundo de um sofá cama.

Em agosto deste ano, festejei com minhas colegas 50 anos de formada, dos quais exerci por 30, a função de professora. O fazer pedagógico agraciou-me com momentos de profunda felicidade e, hoje, ao acompanhar o embate e a resistência das/dos colegas grevistas frente a esse (des)governo, sinto-me orgulhosa de minha profissão, com a convicção de que fiz a escolha certa.
Avante Educadores de fé!

 

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