Vila Renascença - Diário de Santa Maria

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Coluna Sociedade06/09/2017 | 18h36Atualizada em 06/09/2017 | 18h36

Vila Renascença

Colunista aborda o futuro dos moradores da vila vizinha ao novo shopping de Santa Maria

Dia desses visitei a Escola Municipal Sergio Lopes, a convite da professora Edinara Leão, para conversar com os alunos sobre educação das relações raciais. Fui acolhida carinhosa e respeitosamente por colegas e alunos, oportunidade em que rememorei o quanto já estive vinculada àquela região.

Afinal a escola situa-se na Vila Renascença e lá por volta do ano 1991, atuei naquela região, acompanhando o DEJU, um grupo de jovens espíritas, na época, coordenados pelo Dr. Binato (o José Otávio).

Minha função era merendeira: preparava leite com chocolate e um pãozinho para a criançada. No decorrer da semana, voltava ao local mais duas vezes, promovendo diálogos com as mulheres que aguardavam consulta com o Binato. 

Ponte sobre o Arroio Cadena, que liga a Vila Renascença ao novo shopping Foto: Ronald Mendes / Agencia RBS

Várias vezes desci do ônibus no Patronato e fazia o percurso a pé: Avenida Maurício Sirotsky Sobrinho, passava pela Empresa Medianeira, atravessava a BR 287, até começar a deixar minhas pegadas no calçamento de saibro e pedras da Rua Irmã Dulce. Passava pela ponte sobre o Arroio Cadena, a Escola São Luíz (mais tarde Sergio Lopes) e continuava, até chegar ao meu destino.

Narro isso pra mostrar o quanto eu conhecia aquele território. Só que no dia da minha visita, se eu não tivesse ido de táxi, teria me perdido. Um espaço totalmente desconhecido, novo acesso e, ao atravessar a BR 287, deparei com o imponente novo shopping Praça Nova Santa Maria, em ritmo de conclusão.

_ Moço, volte, por favor! Fico aqui na escola! _ disse ao taxista

_ Já estava passando!

A sensação que tive é que o shopping engolia a vila, uma vila que nasceu do deslocamento de famílias residentes na Vila da Lata (próximo ao Cemitério Municipal)! Não posso ser ingênua em acreditar que a catedral do consumo erguida numa região de famílias de baixa renda tenha por finalidade beneficiar a população residente nas suas proximidades.

É evidente que já se instalou ali um processo de gentrificação, isto é, famílias/empresas de alto poder aquisitivo e do campo da especulação imobiliária, devem estar atentas aquele espaço, o que resultará na expulsão das famílias nativas, para lugares mais distantes.

Gentrificação tem origem no termo inglês gentry que remete a nobreza, pessoa nobre ou rica. Afinal, quem são as famílias que melhor desfrutariam da presença de um shopping próximo a suas residências? Representantes da classe assalariada ou famílias com alto poder aquisitivo? A hipótese é que ocorrerá um processo de elitização daquele território, forçando os moradores a venderem seus modestos imóveis.

Gentrificação é o processo de revitalização de áreas urbanas, até então consideradas periféricas, modificadas em espaços nobres ou de exploração comercial. São guetos, favelas, barracos que cedem lugar a zonas nobres constituídas de condomínios e prédios de alto padrão. É um processo de especulação imobiliária em que, quase sempre, predominam os interesses privados, os interesses do mercado.

Em virtude do crescimento urbano, ocorre uma saturação dos espaços centrais, resultando na descentralização de serviços e migração para regiões, até então desvalorizados ou sem estruturas. Tais espaços ressignificam-se, passando a ser revitalizados, com alto investimento imobiliário e modernização geográfica, acarretando supervalorização do território, forçando o deslocamento da população residente, numa perene segregação urbana, para ceder lugar a grupos economicamente privilegiados, como o que ocorre no Morro do Vidigal, verdadeiro cartão postal, do Rio de Janeiro, onde ricos estão construindo mansões, mudando gradativamente o perfil dos moradores do Vidigal.

Uma das questões a ser respondida é: para onde estão se transferindo os antigos moradores? Ao lado dos festejos pela inauguração de um novo shopping na cidade, a comunidade da Renascença e o gestor público devem acionar o sinal de alerta, afinal políticas públicas de habitação e saneamento básico são de responsabilidade do município. 

 

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