Deslocar-se - Diário de Santa Maria

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Coluna Cultura11/08/2017 | 14h06Atualizada em 11/08/2017 | 14h21

Deslocar-se

Colunista relata sua experiência de conviver com a arte de rua e com grafiteiros que fizeram o muro ao lado da igreja Dores

O Deslocar-se.
O trabalho em equipe.
O julgamento errado de todas as formas; ora feito por mim, ora feito por outros. Às vezes por muitos, outras por poucos, obrigou-me a caminhar por paisagens que desconhecia e, talvez, em outros tempos me intimidassem.

Mas a arte e o trabalho na cultura feito em equipe me ensinaram que na construção é constante deslocar-se. A rua me lembrou novamente de muitas coisas, a principal: o trabalho é sempre com o outro e para o outro.
Permitir-se.

A equipe de produção do audiovisual: Paulinho Teixeira (em pé, da esquerda à direita), o colunista Leonardo Roat e Bruno Andrade. Os grafiteiros Juliana Tessele  e Estevan Garcia (em pé, da esquerda à direita); Lucas Camargo (sentado, da esquerda à direita), Robson Santos, Bruna Abelin e Arthur Medina Foto: Evandro Rigon / Arquivo Pessoal

Foi assim que adentrei novos caminhos junto com um grupo de artistas (na foto acima).
Projeto diferente pra mim, talvez não tanto pra eles.
Admiro e preciso da arte de rua, intervenções urbanas, aprendo muito com sua visão política, sua residência e seu modo de estar no mundo.
Foi assim que conheci outros mundos. Quando acompanhei bem de perto parte desse universo.

E tudo bem que eu ainda era o responsável pela amarra de várias pontas do projeto depois da arte no muro. Mas foram eles que criaram, eles que conceberam e colocaram ali sua energia e visão de mundo.

Durante um final de semana inteiro, ouvi, conversei, e principalmente observei artistas criando, ao vivo, para si, para as pessoas e para a cidade.
Fui aprendiz. E aprendi, como aprendi.

Artistas honestos consigo e suas convicções. Artistas abertos ao diálogo com o mundo, mesmo que ele seja diferente deles. Eles me reafirmaram que existentes verdades (isso mesmo, verdades com v minúsculo e "s" no fim). Esqueça definições absolutas. Fique na rua, dialogue e seu mundo mudará.

Conhecer esses artistas e aprofundar-me em seus processos de criação, foi por consequência ganhar novos modos de ver o mundo.

(Re)aprender a falar com as pessoas, com a cidade e todos que a circundam.
Estar na rua foi buscar uma conexão, com a vida por meio da arte. Afinal, como sempre me relembra Rubens Velloso: "A arte é a imitação de algo essencial do qual a vida nos separou."

A arte sempre veio me ensinando que há de transfigurar-se para viver. Leiam bem, VIVER e não apenas, sobreviver.
E acompanhar esses artistas, seu trabalho, suas ideias, seu modo de se portar e interagir pela arte, foi viver.


Foto: Leonardo Roat / Arquivo Pessoal

Aprendi que existem momentos em que se tornar semelhante ao feno de trigo, que sem escolhas, presta reverência à pesada e gentil mão do vento é a melhor escolha para evoluir.
E foi assim que o cheiro do spray virou perfume.
Assim, que vi linhas, criarem deuses e seres inimaginados.
Cores invadirem a mente e mudarem sentidos.
Traços, mudarem perspectivas, não apensas do desenho, mas do mundo.

Aprendi a perguntar e responder sem medo, porque esses artistas faziam isso com quem passou ali e conversou com eles.
Pessoas que sem hesitação (diferente de mim em diversas situações) paravam ao lado dos artistas para conversar e sugeriam, opinavam e trocavam ideias, sobre o grafite, sobre arte, sobre a vida, sobre o mundo.

Queria que todos vocês pudessem ter participado desses momentos mágicos.
É por isso que a arte segue com sua magia, porque abre espaços. E com esses outros espaços temos novos encontros. E a rua, sempre esse espaço maravilhoso.

Foi assim, na rua, na lata que vi artistas expostos, abertos, defendendo sua visão de mundo, na fala, no jeito, no olho, no traço.
Foi assim, que em tempos tão polarizados, que vi artistas abertos, ouvindo e falando. Que vi pessoas ouvindo e propondo, mesmo com ideias muito diferentes do que viam.
Quase todos se abriram ao diálogo, trocaram ideias, conversaram, sem medo de ceder ou defender suas opiniões. Quase todos saíram transformados. Dava quase para pegar a energia que circulava no ar, de tão forte que era.

Foto: Leonardo Roat / Arquivo Pessoal

Tensões iniciais viravam falas, que viravam diálogos, que se transformavam em traços, que as cores colocavam mais sentido.
Talvez pelo longo tempo de exposição na rua para dar conta de tudo que tinha que ser feito, (foram mais de 20 horas na rua) produzindo arte, entramos em contato com muitas pessoas, e muitos mundos novos, e outras "Santas Marias" surgiram pra mim.

Levamos muito de todos nesse final de semana inesquecível.
Espero que tenhamos deixado mais que um apenas "arte" no muro.
Pra nós, não é apenas um muro, é um pulsar.
Deixamos uma vibração, que pode ser sentida em uma das veias da cidade.
Que ela se espalhe!

Obrigado a todos pelos momentos de vida.
Saudade. Saudade. Já pulsa em meu coração.
Pelo Arte de ontem, de hoje, de sempre.
Vida longa aos artistas que se expõem à flor da pele pelas ruas de todas as cidades.

Até o próximo encontro.

Foto: Leonardo Roat / Arquivo Pessoal


 

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