OPINIÃO: Tiradentes, São José del Rey - Diário de Santa Maria

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Artigo18/06/2017 | 21h27Atualizada em 18/06/2017 | 21h27

OPINIÃO: Tiradentes, São José del Rey

Articulista fala sobre o local turístico onde costuma ficar em casa

OPINIÃO: Tiradentes, São José del Rey Ilustração Elias Monteiro / DSM/DSM
Foto: Ilustração Elias Monteiro / DSM / DSM
Eros Roberto Grau
Eros Roberto Grau

Escrevendo a respeito de um amigo que já se foi, o Washington, contei aqui mesmo ter sido ele quem nos deu Tiradentes, a antiga São José del Rey, vizinha a São João – tambem dele. São José del Rey e do Washington, na dubiedade deliberada das palavras na frase aí em cima! Lá passamos, Tania e eu, quase a metade de cada ano, fugindo de quando em quando para São Paulo e Lutèce, a antiga Paris. 

Na velha São José del Rey, onde não saio de casa, fico a escrever e a nadar entre meus livros, escapando apenas, de quando em quando, para fotografar. 

Tenho muito a falar, mil histórias e estórias a contar dos lugares da minha vida. Desde Santa Maria, Natal – onde vivemos cinco ou seis anos, o pai, a mãe e eu, quando eu era bem guri –, São Paulo, Paris e Honfleur, as Europas. Contudo, curiosamente, é como se de dentro de mim uma voz determinasse que devo ser discreto a respeito de mim mesmo. E esta cidade se compõe na minha intimidade. Não, ao contrário, minha intimidade é conformada por ela. Silêncio! muita discrição a respeito da tua intimidade – me diz essa voz – aos outros, ela pouco importa. 

Daí a dificuldade que quase me impede de escrever a respeito de Tiradentes. Lá chegamos (agora, estamos em São Paulo) no início dos anos 70. Não havia turistas, a cidade era isolada. A casa que compramos era pequena, pequenina, e o Tempo – com T maiúsculo – permitiu que ela e o terreno em torno dela se estendessem. Não saio de casa. Os turistas que a invadiram, apenas os vejo pela janela. Hoje, um centro de gastronomia. Quando alguém comenta de seus restaurantes, eu sorrio dizendo que o melhor de todos, na cidade, é minha casa. Tania passeia, me traz notícias, mas eu permaneço no interior de mim mesmo. É isso aí, no interior de mim mesmo, já que é como se São José del Rey, a antiga Tiradentes, existisse dentro de mim, e eu não existisse fora dela. Não sou conhecido pelo meu nome, quando alguém deseja referir-se a mim, menciona ¿o marido da dona Tania¿. Maravilha! 

Da janela e do fundo do terreno da nossa casa, desfruto do horizonte da Serra de São José. O eu mais jovem que há em mim volta e meia diz ao eu que hoje sou algo assim como ¿velho burguês, tu vais ver, terás de dividir tudo isto quando vier a Revolução!¿. Então, lhe respondo, com uma ponta de ironia, que, quando ela vier, já estarei no céu! 

Ponho-me a ler, a escrever e a fotografar. É incrível. De repente, dou-me conta de que apenas saio de casa para fazer fotografias. Então, circulo pelos seus arredores. Nunca nos feriados e finais de semana, quando inúmeros chatos de galocha – como diz meu pai – invadem minha intimidade. 

Saio de carro, já que minha perna dói às pampas – às pampas, como se diz na minha terra, sempre a minha terra – e capturo na minha hassel o horizonte, as pedras do chão, uma borboleta azul, o crepúsculo que me abraça. Percebo, então, que a única foto que o fotógrafo de verdade não fará é um autorretrato depois que se foi desta pra melhor, depois que subir aos céus... 

 
 

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