Daniel quer ser o primeiro refugiado aluno da UFSM - Diário de Santa Maria

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Educação e inclusão11/02/2017 | 12h00Atualizada em 12/02/2017 | 20h15

Daniel quer ser o primeiro refugiado aluno da UFSM

Colombiano quer voltar a estudar e cursar um técnico na Federal

Daniel quer ser o primeiro refugiado aluno da UFSM Lucas Amorelli/DSM
Foto: Lucas Amorelli / DSM
Pâmela Rubin Matge
Pâmela Rubin Matge

pamela.matge@diariosm.com.br

Barreiras linguísticas, sociais e econômicas impediram o colombiano Daniel Moreno Jaramillo, 49 anos, de prosseguir os estudos. Ele é refugiado e vive em Santa Maria desde 2004. Mas, na última semana, vislumbrou a possibilidade de realizar o sonho de voltar à sala de aula. Jaramillo é o primeiro candidato a procurar Pró-Reitoria de Graduação (Prograd) da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) para tentar uma vaga.

Imigrantes e refugiados têm acesso na UFSM

O edital que regulamenta o Programa de Acesso à Educação Técnica e Superior para Refugiados e Imigrantes em situação de vulnerabilidade foi publicado na quinta-feira. E ele já encaminhou parte documentação e aguarda por análise.

– Fico feliz que ele tenha vindo até aqui. Isso se soma ao trabalho de inclusão que já temos feito. As ações afirmativas devem ser uma luta contínua. Além do ingresso, é preciso garantir o acesso aos benefícios sócio-econômicos, pois trabalhamos em três pilares: acesso, permanência e diploma – avalia o coordenador de Planejamento Acadêmico da Pró-Reitoria de Graduação (Prograd), Jerônimo Tybusch.

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Se aprovado, Jaramillo, cursará um curso técnico com Ensino Médio, já que ele não concluiu o Ensino de Jovens e Adultos (EJA). Mas a educação sempre foi uma bandeira para ele, que chegou a se eleger vereador em seu país, mas não pode assumir e fugiu após ser ameaçado de morte. Hoje, ele trabalha na construção civil. Após anos em empregos informais, ele ainda mantém vivo o sonho um dia ser advogado da Organização das Nações Unidas (ONU) e atuar na área de Direito Internacional.

Foto: Pâmela Rubin Matge / Diário de Santa MAria

Mudanças
Já faz 17 anos que Jaramillo deixou a cidade-natal, Buenaventura. Impedido de estudar, aos 14 anos saiu de casa para trabalhar em lavouras de café em condições, segundo ele, insalubres. Eram 12 horas de trabalho ao sol, com pouquíssima comida e remuneração irrisória. Ao questionar os patrões, acabou demitido. Começava a nascer a veia política. Aos 18, no serviço militar, não compactuou com o que ditavam as lideranças e chocou-se ao descobrir a existência de grupos de extermínio no Exército.

Foto: Lucas Amorelli / DSM

Adulto, candidatou-se a vereador pelo partido Aliança Democrática. Foi eleito. Mas, ao denunciar suspeitas de corrupção de adversários, sua vida passou a correr risco e ele teve de sair do país. A Cruz Vermelha o levou até o Equador. Quatro anos depois, veio para Santa Maria por intermédio da ONU. Casado e pai de dois filhos, ele mora na Vila Maringá. E não se arrepende de ter vindo morar aqui.

– Cheguei com um balde com pratos e talheres e uma sacola de roupas. Passei fome, enfrentei preconceito, mas conheci muita gente boa. Ganhei minha casa que ampliei com meu trabalho. Agora, entrar na UFSM e voltar a fazer o que eu sempre sonhei está mais perto do que nunca.

Novo programa amplia acesso à instituição

Foto: Lucas Amorelli / DSM

No mesmo ano em que, o presidente americano recém-eleito, Donald Trump, ganhou os holofotes e as críticas ao propor o veto à entrada de refugiados e pessoas de sete países nos Estados Unidos, a instituição santa-mariense optou por seguir o caminho do acolhimento.

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O professor e coordenador da Prograd, Jerônimo Tybusch, defende que o programa que possibilita o acesso de refugiados e imigrantes em situação de vulnerabilidade tem grande impacto histórico e cultural:

– O objetivo é buscar uma sociedade mais igualitária, não apenas em igualdades formais e jurídicas, mas concordando com a perspectiva dos Direitos Humanos. Não podemos pensar como na Idade Média. A UFSM não pode se negar a adotar uma carteira social, por exemplo, a refletir questões de raça, sexismo e imigração. O próprio nome dá a ideia de que ser "universidade" é universalizar, ampliar o acesso à cidadania e às diferenças.

Segundo o registro no sistema da Polícia Federal, atualmente, há 105.061 estrangeiros no Rio Grande do Sul. Só em Santa Maria, são 3.465. O candidato Daniel Moreno Jaramillo diz que ações afirmativas como essas colaboram, também, para diminuir o preconceito, aumentar chances no mercado de trabalho e assegurar a socialização de pessoas de outros países que vivem por aqui:

– Acompanho a questão dos refugiados não só do meu país, mas da Síria e do Afeganistão. É triste ver pessoas com trauma de terem deixado suas casas. Muitas não conseguem nem falar sobre o assunto, acabam ficando reclusas pelo sotaque ou por não ter o que fazer. Essa chance da UFSM é uma oportunidade para entender que, se escondendo, não se resolve nada. É, também, uma forma de o mundo enxergar o refugiado de maneira diferente.

Foto: DSM


 
 

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