Um a cada três professores da rede privada sofre de depressão - Diário de Santa Maria

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Estatística07/01/2017 | 08h30Atualizada em 08/01/2017 | 10h01

Um a cada três professores da rede privada sofre de depressão

Pesquisa do Sinpro e Unisinos, que incluiu docentes de Santa Maria, revela as causas que levam à doença psíquica. Diário ouviu alguns deles.

Um a cada três professores da rede privada sofre de depressão Diogo Sallaberry/Agencia RBS
Foto: Diogo Sallaberry / Agencia RBS

Há sete anos lecionando em uma instituição de ensino privada em Santa Maria, um professor* teve que conviver com a perspectiva de demissão depois de ter entrado em conflito com os pais de um aluno na metade deste ano, o que acabou se concretizando.

Em 2012, depois de ter sido procurada insistentemente – para não dizer perseguida – pela mãe de um aluno que foi retirado da sala de aula três dias seguidos por indisciplina, uma professora de outra escola privada precisou entrar em laudo médico devido ao estresse, licença que se estende até hoje.

Ainda empregado, um professor de outro colégio, também privado, se vê sem perspectiva, tendo como esperança deixar de uma vez por todas a profissão e encontrar algum conforto como servidor público – desde que não seja para lecionar.

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Histórias como essas motivaram uma equipe de pesquisadores da Universidade Vale do Rio dos Sinos (Unisinos), em parceria com o Sindicato dos Professores do Ensino Privado do Rio Grande do Sul (Sinpro/RS), a buscar as causas e apontar caminhos para mudanças.

A pesquisa "Saúde/adoecimento mental dos professores da rede privada de ensino do Rio Grande do Sul", feita com 755 docentes de todo o Rio Grande do Sul, inclusive de Santa Maria (veja dados completos no quadro abaixo).

Com base em dados de afastamentos de educadores do ensino privado pelo INSS, de 2009 a 2013, observa-se que a depressão é responsável por 12% dos casos.Professores que já tiveram experiência em escolas públicas contam que a dificuldade, nesse caso, inverte-se. Na iniciativa privada, há estrutura e pagamento de salário em dia. Já na rede pública, a falta de estrutura e os salários atrasados acabam causando doenças.

Foto: Arte / DSM

O dinheiro rege e relação
A busca por aprovação, em vez de formação intelectual, vem transformando os colégios particulares em um grande mercado, o que contribui decisivamente para que os professores se sintam desmotivados de acordo com a coordenadora do Programa de Pós-Graduação em Psicologia da Unisinos, Janine Monteiro.

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– Os professores tem cada vez mais atividades para desenvolver, não costumam ganhar bem e enfrentam relações ruins com alunos e pais. Eles precisam fazer parte da gestão do ensino. Mas não só para ouvir, mas para serem ouvidos – diz.

Um dos professores ouvidos pelo Diário se identifica com o que descreve a pesquisadora. Pela experiência dele, o diretor é um gestor de recursos, que vê os professores como funcionários e os pais e filhos como clientes, e aí se estabelece e relação.

– No período de fim de ano há o fechamento das notas. É o momento em que eu e meus colegas ficamos sem saber se permaneceremos empregados – desabafa.

Ele conta isso justamente por conta da pressão que sofre ao longo dos anos, seja da direção da escola, seja de pais dos alunos.

– O dinheiro rege a relação. A escola é uma empresa e há uma descrença no professor por parte de alguns pais, que pagam – e não é pouco – e por isso ditam as regras. Na perspectiva de perder um aluno, a direção vai tender para o lado do professor, ou acatar a exigência dos pais? As reuniões pedagógicas que existem são para cumprir tabela – conta.

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O professor é desacreditado
Conforme a doutora em psicologia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Janine Ribeiro, a sobrecarga de trabalho dentro e fora do ambiente acadêmico, os prazos e as cobranças, as dificuldades de relacionamento com a chefia e com os alunos e os prejuízos na saúde são os principais fatores de estresse em professores do ensino privado no Estado.

A professora que está em laudo contou ao Diário que devido ao mau-comportamento de um aluno, precisou retirá-lo da sala de aula. Uma, duas, três vezes. Em três dias. O aluno reclamou com os pais, e a mãe dele foi tirar satisfações – direto com o professor.

– Não adiantou explicar. O problema, para ela, era eu. Ela reclamou com a direção, e ficou mais difícil trabalhar. O aluno não estava tendo um bom desempenho, e ela voltou para conversar comigo. O mesmo se repetiu. Ela conseguiu meu telefone, e passou a me ligar. Mais a pressão da direção, eu não consegui lidar – relata.

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Ela precisou buscar ajuda médica, e recebeu a orientação de se afastar. Conta que tinha a felicidade de poder ganhar a vida com o que amava fazer, perspectiva que foi frustrada.

– Não pretendo voltar a trabalhar na área. Fui professora na rede pública, e lá é difícil. Sempre foi, mas mais agora, por conta de parcelamento de salário e por aí vai. A gente se vê sem alternativa, né? Não tem o que fazer – diz.

Ela conta que não teria conseguido levar por tanto tempo se não fosse o apoio dos colegas, que "se já não enfrentam situação semelhante, irão enfrentar".

"O professor é visto como vagabundo"
Mais de 50% dos entrevistados na pesquisa confessaram enfrentar sintomas de adoecimento mental como irritabilidade, insônia e dificuldades de memória que, se vão forem tratados, vão evoluir um quadro depressivo.

Com experiência tanto na rede pública quanto na iniciativa privada, um dos professores faz um comparativo das duas.

Na rede pública, o professor é contratado para lecionar durante 20h ou 40h semanais, e recebe por isso, tempo que deve ser usado para horas em sala de aula, planejamento, elaboração de provas e correção. Já na privada, o contrato de trabalho depende da necessidade da instituição, ou seja, pode ser por qualquer quantidade de horas desde que respeite a legislação – só que o pagamento é feito por horas em sala de aula.

– Então não há nenhuma janela de tempo remunerado para planejamento das aulas e correção de provas, por exemplo. É preciso levar trabalho para casa. Nós (professores) temos um grupo de WhatsApp, e eu vejo às vezes colegas às 4h, 5h debatendo sobre plano de aula – diz.

Ele conta que há casos em que professores precisam trabalhar "três turnos a fio" para conseguir uma remuneração razoável.

– E nós estamos trabalhando com crianças e adolescentes. Precisamos ter condições. Na rede pública, quando há greve, a categoria é vista como vagabunda, que não quer trabalhar. É incrível – relata.

A especialista em clínica cognitivo-comportamental e professora adjunta de psicologia na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), Clarissa Tochetto de Oliveira, conta que quando o profissional vê a profissão como obrigação, dedicando mais tempo a isso do que o bem-estar, é comum que desenvolva sintomas de depressão.

– É uma questão de saúde mental, que afeta a qualidade de vida do profissional e, consequentemente, o desempenho na sala de aula – diz.

Dados preocupam sindicato
Presidente do Sindicato do Ensino Privado, Bruno Eizerik, diz que os dados da pesquisa preocupam:

– O trabalho já é estressante. E é do interesse das escolas que eles estejam em boas condições, já que isso se reflete no aluno.

Eizerik diz que o sindicato não tem ingerência nas escolas, mas há convenções onde são apresentadas propostas para melhorar a qualidade do serviço. Uma delas é contratar profissionais para prestar apoio aos professores, como psicólogos.

Caminhos para soluções
Os pesquisadores recomendam que o professor, ao passar por dificuldades no trabalho, procure conversar com os colegas ou gestores. Para eles, buscar manter o diálogo, o apoio e a cooperação no contexto de trabalho auxilia na promoção da sua saúde. Caso não seja possível o diálogo, ou já tenha sido tentado e não houve mudança na situação, a ajuda de pessoas de fora do trabalho pode ser uma saída.

– O apoio de familiares e amigos pode ser essencial para o enfrentamento das dificuldades do dia a dia no trabalho. Além disso, se você tem um sofrimento psíquico com o qual não está conseguindo lidar ou se identificou com algum tipo de adoecimento mental, procure a ajuda de profissionais da saúde mental – diz Janine.

A pesquisa também apela aos gestores das organizações de ensino para que procurem promover ações sistemáticas, visando o reconhecimento do esforço e do valor do docente e o bom relacionamento de trabalho entre os profissionais da organização escolar. A conclusão é que a cooperação e o cuidado mútuo devem ser incentivados por meio de ações da gestão. Os espaços e o tempo para o diálogo e o encontro são considerados fundamentais para a manutenção da saúde mental e, por consequência, dos resultados financeiros.

– Busque conhecer as necessidades dos seus docentes, elas mudam periodicamente e não são comuns a todos. Ao cuidar da saúde mental dos seus professores, este cuidado será entregue também aos alunos e à comunidade – diz.

Serviços que ajudam
O Núcleo de Estudo e Preservação da Saúde do Professor (Nesp) foi criado pelo Sinpro/RS para acompanhar as condições de saúde dos professores do ensino privado gaúcho.

Núcleo de Apoio ao Professor Contra a Violência (NAP) é um serviço oferecido aos associados do Sinpro/RS com o objetivo de acolher os professores que procuram o sindicato por estar em sofrimento por situações de constrangimento e violência física ou psicológica no ambiente de trabalho ou pela internet. Essa violência pode ser proveniente de alunos, de pais, de relações de trabalho (gestores ou colegas).

Telefone para contato: (51) 4009-2900.

Os Relatos:
"Você estuda e se prepara para ser um bom profissional. Chega em sala e aula sabendo que não é simplesmente jogar conteúdo no quadro e explicar. Existem de 20 a 30 pessoas na sala de aula, e cada uma é diferente da outra. No primeiro ano você já ganha a experiência de que não é só fazer bem o seu trabalho. Você não pode colocar um aluno problemático para fora da sala, pois sabe que vai se incomodar com os pais, com a direção. Não importa que você esteja certo. Eu não posso afirmar que foi isso que aconteceu comigo, mas é a minha suspeita".

"Somos contratados por horas em sala de aula, mas precisamos dedicar tempo para planejá-las, e não somos pagos para isso. É preciso também elaborar e corrigir provas. A questão pedagógica fica em segundo plano no momento de lidar com o aluno. Eu tive problemas com o aluno. A mãe dele não gostou e foi até a escola entender o motivo. Eu expliquei. Ela conseguiu o meu número e ficou ligando diversas vezes. Ela chegou a ir até a minha casa. Não tive apoio da direção da escola. Foi realmente difícil. A alta carga de trabalho, mais esse estresse fez com que eu buscasse ajuda médica. E fui orientada a me afastar. É difícil".

"Não tem perspectiva. Era a profissão que eu idealizava. Ganhar a vida com aquilo que eu gosto de fazer. Fui frustrado. Não pretendo continuar. E não vejo saída, seja na rede privada ou pública. Os dois lados não dão condições. A única vantagem é você se sentir como educador. Saber continua ali, na sala de aula, o processo de formação da criança ou do adolescente. Mas até esse objetivo, tão nobre, não é suficiente por conta das várias barreiras que a gente tem que superar. Quando falam que o professor não é valorizado, não é só da boca para fora. É uma verdade triste, terrível. Não dá para entender".

*Os professores falaram ao Diário sob a condição do anonimato

 
 

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