Colóquio sobre os 4 anos da tragédia na Kiss abordou aspectos da memória e da compaixão - Diário de Santa Maria

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Conversa28/01/2017 | 18h07Atualizada em 28/01/2017 | 18h15

Colóquio sobre os 4 anos da tragédia na Kiss abordou aspectos da memória e da compaixão

Especialistas, sobreviventes e familiares de vítimas falaram para mais de 200 pessoas na praça Saldanha Marinho

Colóquio sobre os 4 anos da tragédia na Kiss abordou aspectos da memória e da compaixão Maiara Bersch/Agencia RBS
Foto: Maiara Bersch / Agencia RBS
Dandara Flores Aranguiz
Dandara Flores Aranguiz

dandara.aranguiz@diariosm.com.br

Pouco mais de 200 pessoas acompanharam, na tarde da última sexta-feira, data em que o incêndio na boate Kiss completou quatro anos, o colóquio sobre Memória, Trauma e Reconstrução. O evento foi organizado pela Associação dos Familiares de Vítimas e Sobreviventes da Tragédia de Santa Maria (AVTSM), Secretaria de Saúde de Santa Maria, TV OVO, UFSM e Unifra, e tinha a proposta de debater os impactos da tragédia nos traumas da cidade. 

''Nem tudo que gera indenização gera responsabilidade criminal''

Rosana D'orio Bohrer, psicóloga e especialista em Emergências e Desastres, Gestão de Crise e Programas de Family Assistance foi a primeira a falar para o público. Ela contou sobre a experiência de atuar diretamente com os familiares de vítimas e com os sobreviventes da tragédia em Santa Maria e sobre a relação dos santa-marienses e da comunidade, de forma geral, com os afetados diretamente com o incêndio, que matou 242 pessoas e deixou mais de 600 feridas. 

Sentenças para indenizações no caso Kiss reforçam dúvidas sobre impunidade de gestores públicos 

– O que me preocupa é se as pessoas compreendem quais as consequências resultantes dessa tragédia e qual a dimensão que ela teve na vida de todos os envolvidos. A vida se despedaça diante de uma tragédia. Não é em um ano que a dor pela perda de uma pessoa amada termina. Não serão em dez anos, tampouco. Talvez ela nunca seja superada, mas podemos conviver com ela conforme somos acolhidos ou respeitados – afirmou. 

Emoção e beleza na homenagem às 242 vidas levadas pela tragédia

A especialista falou ainda sobre a importância da proximidade e solidariedade da sociedade com as pessoas envolvidas diretamente na tragédia. 

Toque de clarim emocionou e abraços confortaram em homenagens da Kiss

– Desde o primeiro dia o que se viu foi muita solidariedade. Mas aí, talvez pelo despreparo e o descuido, a maioria dessas pessoas se afastou e se distanciou da dor do outro. Mas a dor de quem está vivendo tudo isso não passa. O não reconhecimento e o luto que passa a não ser mais autorizado publicamente passa, aos familiares e sobreviventes, a sensação de privação do direito de sentir a dor e de expressá-la – alertou, ao comentar sobre a tenda da vigília, instalada na praça. 

Memorial às vítimas foi o principal tema de roda de conversa sobre a Kiss

Segundo ela, o local se tornou um espaço de significado sócio-político, com sentido de luta e resistência, para que o que aconteceu não seja esquecido:

O que Santa Maria quer que seja feito com o prédio da Kiss

– Precisamos nos humanizar mais com a dor do outro. É preciso andar até o outro lado e nos colocarmos no lugar do outro.

Familiares e amigos fazem vigília em frente a boate Kiss

Gustavo Cadore, um dos sobreviventes do incêndio de 27 de janeiro, também deu seu testemunho:

– Muita gente pergunta o motivo da dor continuar. Quem não vive isso proximamente, é fácil julgar. Tem dias que não lembro mais da Kiss. Tenho uma vida quase normal, mas não posso ser egoísta a ponto de não me solidarizar com o sentimento dos pais que perderam seus filhos. Não posso ser hipócrita em pensar somente em mim e fechar os olhos para o que acontece muito próximo a mim.

Vanda Dacorso, mãe de uma das vítimas, a Vitória Dacorso, também falou sobre memória e reconstrução diária. 

– Nós também somos sobreviventes. Nós sobrevivemos todos os dias, e essa é uma luta constante. A memória é uma forma de reconstrução. E hoje nós vivemos dessa memória, dessa lembrança. Quando vemos a impunidade e o descaso das autoridades, a dor aumenta. Quem devia nos dar respostas, virou as costas. E se não fosse o acolhimento, mesmo que falho em algumas vezes, a gente ia sucumbir – relatou. 

O professor da Unicamp, tradutor e crítico literário Márcio Seligmann, foi um dos convidados a abordar o tema publicamente e o último no palco a falar. Segundo ele, os momentos de memória são fundamentais para o fortalecimento do diálogo. 

– A esfera pública tem que aceitar esse encontro. A falta de compaixão é incompreensível. Temos que aprender a nos colocar no lugar dos outros. O reencontro com a esfera pública é fundamental. Todos têm de estar envolvidos. Devemos viver um renascimento a partir das cinzas, da memória. Construir a cultura da solidariedade e da compaixão. Que tipo de sociedade nós queremos? – questionou ao afirmar que os santamarienses devem, coletivamente, construir uma nova cultura da memória contra a imposição do esquecimento. 

– A desautorização da dor não pode mais acontecer. Tem de haver um local que permita portar essa verdade – afirmou. 

O Diário de Santa Maria transmitiu ao vivo a conversa na Praça Saldanha Marinho. Veja, abaixo, o vídeo completo:


 
 

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