Familiares lembram das vítimas de chacina em Pinhal Grande - Diário de Santa Maria

Vidas interrompidas01/12/2016 | 08h41Atualizada em 02/12/2016 | 14h10

Familiares lembram das vítimas de chacina em Pinhal Grande

Os sonhos interrompidos de  Bianca, Alex, Iran e Afonso

Além de tirar a vida de Bianca, Alex, Iran e Afonso, Ariosto da Rosa, 41 anos, suspeito de ser o autor da chacina que chocou os moradores de Pinhal Grande na terça-feira, ele interrompeu muitos sonhos e expectativas. Mais do que isso, ceifou das famílias a alegria de Iran, a tranquilidade de Afonso, e a responsabilidade de Alex. 

O Diário conversou com familiares de três vítimas e você confere como era a rotina diária de cada um deles, e os sonhos e expectativas de vida que eles tinham.

Fabiana mostra uma lembrança do irmão, uma garrafinha com seu nome. Ela seria o chaveiro de seu carro Foto: Germano Rorato / Agencia RBS

Alex era um "adolescente adulto"

Desde que a irmã mais velha, Fabiana Leal Pereira saiu da casa dos pais, há cerca de cinco anos, Alex passou a ser o homem da casa. Ele nunca deixou de ouvir os pais, muito menos de obedece-los, mas era o adolescente quem ditava o ritmo das tarefas diárias. Ele aprendeu a dirigir aos 10 anos e era quem fazia o transporte dos pais em pequenos deslocamentos. Desde essa época, também já começou a plantar por conta própria, para ter o seu próprio dinheiro.Foi assim que comprou seu primeiro carro. Atualmente, em um hectare de terra, produzia cerca de 10 mil pés de fumo. Quando completasse 18 anos, em 11 de outubro do ano que vem, tiraria a carteira de habilitação e compraria uma moto.

– Ele tinha esses objetivos traçados para curto prazo. Há poucos dias, ele tinha ido com uma excursão para a Coca-Cola, em Santa Maria, e comprou um chaveiro para o carrinho dele. Ele cuidava muito desse carro. Ele era muito maduro, era um homem já – conta a irmã.

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Responsável, trabalhador e com objetivos traçado, Alex planejava se estabilizar financeiramente para, aos 29 anos, casa, ter uma namorada.

– Ele queria comprar todas as coisas que quisesse para, depois, casar. Era um cara muito dedicado, gostava trabalhar para ter as coisas dele. Era muito vaidoso, gostava de se arrumar bem. O cabelo era impecável. O tempo que ele viveu, aproveitou bem a vida dele. Acho que ele fez mais que um homem de 40 anos possa ter feito – relata a tia, Claudete.

Alex era muito querido pelos amigos na escola. Ele estudava na turma de aceleração do 9º ano da Escola Municipal José Rubim Filho. A irmã conta que alguns colegas iam à casa dele e chegavam a ficar cinco dias no local, e faziam diversas atividades, como pescar, entre outras.

Amante de futebol, jogava em um time do interior do município, e todos os sábados em uma quadra de futsal perto da casa da irmã. Gremista, tinha combinado com a irmã de ontem, ir ver o jogo da segunda final da Copa do Brasil, entre Grêmio e Atlético-MG, que foi cancelado por conta da tragédia com a delegação da Chapecoense.

Nelson mostra a foto do pai, Afonso Gonçalves. O agricultor tinha acabado de se aposentar e planejava a festa de Ano Novo Foto: Germano Rorato / Agencia RBS

O descanso que não chegou

Pai de cinco filhos, avô de seis netos e apaixonado por crianças, Afonso Gonçalves, 60 anos ajudou a criar os filhos de amigos, de parentes e dos próprios filhos. Era casado há quase 50 anos com Florentina – que presenciou o crime – na casa onde criou os filhos, em Rincão dos Basílio. Era também vizinho do suspeito, Ariosto da Rosa.

De acordo com Nelson, um dos filhos de Afonso, não havia quem passasse pela casa dele que não parasse para tomar um chimarrão e bater um papo. O filho conta também que o idoso era inquieto. Mesmo com uma certa limitação em uma das pernas, subia morro acima, próximo de casa, para cuidar das suas plantações. A maioria milho, usado na alimentação das criações de frango e suíno. Na maior parte da vida foi fumicultor, cultura que serviu para sustentar a família durante todo esse tempo.

– O meu pai não tinha inimizade. Todo mundo passava por aqui e gritava: ¿Ô seu Afonso¿. Paravam aqui, tomavam um mate. Ele mesmo (o suspeito), vinha aqui, conversava. Pode perguntar para qualquer um, ele era um cara de bem com a vida, trabalhador. Ele fazia de tudo, era meio deficiente de uma perna, mas não parava. Plantava as coisas dele, criava os bichos. E a mãe o esperava com um mate – lembra o filho.

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Nelson conta que o pai havia conseguido se aposentar há poucos dias, e estava feliz que daqui cerca de 20 dias receberia o primeiro salário.

– Trabalhou a vida inteira, e agora, quando chegou a fora de descansar, aconteceu isso – lamenta o filho.

Outros planos simples de Afonso, foram interrompidos. Há uma semana, ele ganhou alguns gatinhos, que tinha desejo de criar. A presença do filho Nelson na festa de fim do ano também já estava acertada.

– Ele queria muito os gatos. De tanto que insistiu, semana passado uns amigos trouxeram uma ninhada para ele. Infelizmente, não pode brincar com eles. E eu ia tirar férias no dia 22 e vir fazer uma festa com o pai e a mãe, tocar violão. No fim, tive de vir antes – lastimou.

Como o suspeito ainda está solto, os filhos, com medo, vão tirar dona Florentina, a mãe deles, da casa onde moravam. Ela se diz perplexa:

– Coitadinho, morreu sem saber o motivo. Aquele monte de tiro, se ele quisesse, tinha me matado também.

 Giovane (à esq.), testemunhou a morte do irmão, Iran.O pai, Novembrino, lembra que o filho de 10 anos com alegria Foto: Germano Rorato / Agencia RBS

Iran queria ser professor

Às 11h de ontem, Novembrino dos Santos, pai de Iran, estava reunido junto com outros familiares em um salão da comunidade de Rincão dos Basílio, perto do cemitério onde, cerca de uma hora antes, enterrara seu filho. Por orientação da polícia, não foram para casa, que fica bem próximo da propriedade do suspeito. No local, mesmo que abalado e emocionado, o agricultor relembrava da alegria contagiante do caçula.

– Ele era muito faceiro. Tava sempre rindo, feliz. Lidar com os bichos era o que ele mais gostava. Estava sempre com os terneirinhos, brincando. Ano passado comprei uma ¿petiça¿ para ele, porque ele gostava muito de andar a cavalo – recorda o pai.

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As lágrimas que não chegavam a escorrer dos seus olhos e a fala indignada de Novembrino quando falava sobre o acontecido davam lugar a um sorriso e ao orgulho quando falava sobre o pequeno Iran. O empenho do menino na escola, cursando o 4º ano, era o que deixava os pais mais felizes.

– O guri tava num estudo bom, ele tinha muita vontade. As professoras estavam muito faceiras com ele, porque ele terminava as coisas dele e ia ajudar os colegas a fazer. As professoras estavam muito felizes porque ele ensinava os outros. Ele gostava muito de estudar. Ele dizia que queria estudar para professor – relembra o pai enlutado.

Ontem, a família da adolescente não quis falar com a reportagem Foto: Germano Rorato / Agencia RBS

Bianca relatou o abuso do padrasto

Com certeza, Bianca Moraes de Salles, 16 anos, a primeira vítima da chacina, também tinha sonhos para a vida que achava que poderia ter. Ontem, a família da adolescente não quis falar com a reportagem sobre os planos que Bianca tinha para o futuro interrompido pela violência do padrasto. Na terça-feira, em entrevista ao Diário e à RBS TV, a mãe da adolescente falou sobre a parte triste da história da filha.

Enteada de Ariosto, Bianca morava com ele, a mãe dela e as irmãs, até que no ano passado denunciou que havia sofrido tentativa de abuso por parte do padrasto.

 O caso foi registrado na Polícia Civil e a adolescente foi morar com a avó materna em Júlio de Castilhos. Porém, tempo depois, a adolescente retirou a queixa e disse à mãe que tinha inventado o fato, voltando a morar com a família, inclusive com Ariosto, em Pinhal Grande. 

Bianca estudava na Escola Estadual de Educação Básica Rui Barbosa, no 7° ano. Recentemente, havia relatado nova tentativa de abuso e estava em atendimento psicológico e sendo acompanhada pelo Conselho Tutelar. Ela estaria apresentando comportamento agressivo com as irmãs, que têm deficiência.


 
 

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