A matéria mais relevante a ser ensinada nas escolas - Diário de Santa Maria

Coluna Tecnologia18/10/2017 | 14h08Atualizada em 18/10/2017 | 14h08

A matéria mais relevante a ser ensinada nas escolas

Colunista fala sobre a importância da pesquisa na internet para o sucesso ou fracasso da população

 

Se você tivesse o poder de escolher um componente curricular (popularmente chamado de "matéria" ou "disciplina") para ser inserido nos currículos escolares do Ensino Fundamental, que componente você escolheria?

Antes de fazer a sua escolha, reflita: o mundo mudou radicalmente na última década e deverá mudar de maneira ainda mais radical nos próximos dez anos. A sua escolha deverá impactar na forma como os jovens viverão neste mundo radicalmente transformado.

A sua decisão poderá ser determinante para o sucesso ou o fracasso dos futuros cidadãos brasileiros. A matéria escolhida por você poderá manter tudo como está ou poderá estabelecer uma nova sociedade, um novo país.

E então, qual seria sua escolha? Seria algo mais tecnicista, como "programação de computadores" ou "robótica"? Ou algo mais na linha humanística, como "ética" e "direitos humanos"? Talvez, uma matéria que esclareça o funcionamento da sociedade, que explique como é o sistema político ou o sistema de leis no Brasil? Qual dessas matérias impactaria mais nas vidas dos próximos adultos do país?

A minha resposta é que todos esses componentes seriam essenciais, ou até fundamentais para a formação dos brasileiros. E justamente por todas serem tão fundamentais que nenhum deveria ser escolhido em detrimento de outros. Todos estes conteúdos deveriam ser ensinados.

Porém, não posso escolher todos. O trato no início do texto era escolher só um. Então, chega de enrolação e vamos à parte opinativa do texto: o que eu escolheria?

Foto: Pixabay

Nos últimos dez anos, venho estudando os impactos das tecnologias digitais na sociedade e as transformações que elas provocaram no mundo. Ao refletir sobre essas mudanças, concluo que, definitivamente, a competência que mais urgentemente deveria ser desenvolvida nas escolas básicas é a de saber pesquisar.

O poder da pesquisa é, hoje, comparável ao poder da leitura há cem anos atrás. Se você pudesse voltar ao tempo, numa época em que eram raros os leitores na nossa população e que as famílias mais modestas não enxergavam a necessidade da leitura para seus filhos, que habilidade você acha que deveria ser desenvolvida nas crianças por meio do investimento público? Eu indicaria a leitura. Sem a capacidade da leitura, as outras habilidades seriam inúteis para o mundo moderno que estava prestes a emergir.

Já no mundo de hoje, saber pesquisar concede um enorme poder, desenvolve a autonomia e independência, abre portas para caminhos riquíssimos e esclarecedores. A internet criou a maior biblioteca da história humana, tanto de conhecimentos nobres quanto de bobagens e inutilidades, e a competência da pesquisa avançada e bem-feita é a chave para acessar as melhores informações já criadas pela humanidade.

A falta de habilidade em pesquisa na internet faz com que os jovens não saibam encontrar as informações de qualidade e, como consequência, empobrece suas referências, suas inferências, suas opiniões, suas visões de mundo, suas decisões do dia a dia. A falta de informações de qualidade impede a evolução de ideias, evita o desenvolvimento de possibilidades e aborta projetos de vida.

Como exemplo de conteúdo a ser ensinado, posso citar algumas técnicas de pesquisa muito simples em sites de busca, que já melhorariam muito na qualidade das informações. Como exemplo, temos os operadores: quando escrevemos as palavras a serem buscadas na caixinha de pesquisa do Google, podemos usar (e combinar) alguns símbolos ou palavras para refinar nossa busca, tais como as aspas, o asterisco, o sinal de menos, as palavras "OR" e "site:", entre outras dezenas de possibilidades. Além dos operadores, ainda é possível refinar ainda mais os resultados por meio das ferramentas de busca, como os filtros por data e região.

Esse foi só um exemplo simples. Poderíamos, ainda, ensinar uma infinidade de poderosas técnicas, tais como buscar e combinar diferentes fontes de informação, fazer varreduras por bancos de dados disponíveis na internet, armazenar e organizar os resultados encontrados, recuperar conteúdos já apagados da internet, filtrar e categorizar as conversas das pessoas nas redes sociais, pesquisar por algo usando arquivos de imagens, encontrar livros ou outros materiais de qualidade que sejam abertos e gratuitos, acessar trabalhos científicos das mais avançadas universidades e centros de pesquisa do mundo.

"Saber pesquisar" não é apenas uma habilidade técnica: é uma competência complexa, que envolve senso crítico e atitude. Em outras palavras: é muito mais do que saber usar ferramentas para buscar e filtrar informações. "Saber pesquisar" também implica em ter a noção e a sensibilidade necessária para identificar quando uma fonte de informação não merece credibilidade e não deve ser considerada.

A revolução das tecnologias digitais em rede possibilitou enormes facilidades na produção e na distribuição de conteúdo. Hoje, qualquer pessoa minimamente capacitada consegue criar um website parecido com os websites dos maiores jornais e revistas do mundo. Mais do que isso: conseguem criar conteúdo multimídia com qualidade técnica impecável e, por meio das ferramentas de marketing digital, conseguem angariar milhares de seguidores para repassarem seus conteúdos à frente, independentemente da qualidade ou veracidade das informações que produzem e distribuem.

Como exemplo, cito os websites de notícias falsas. Muitos deles projetam seus layouts e suas identidades visuais para se parecerem com o layout e a identidade visual de jornais sérios. Já é fato notório entre profissionais e pesquisadores da área de comunicação que a qualidade da identidade visual é um fator que influencia no senso de credibilidade sobre as instituições. Além da semelhança no layout e na marca, muitos desses sites utilizam nomes que remetem a organizações jornalísticas tradicionais, com uso de termos como "Folha", "Política", "Diário" ou "Brasil". O leitor, desavisado e muitas vezes desinformado sobre os jornais existentes no país, cai na armadilha e pensa que o site é de algum jornal sério com profissionais responsáveis.

Aliás, não é preciso ser tão desinformado para cair nestas armadilhas. Um artigo científico recém publicado por dois pesquisadores da Universidade de Stanford testou alguns destes websites de baixa qualidade com alguns voluntários altamente capacitados: foram dez historiadores com doutorado, dez profissionais especialistas em checagem de fatos e 25 estudantes de graduação de Stanford, considerada a universidade mais competitiva dos EUA. A pesquisa descobriu que os dez professores com PhD e os 25 estudantes de Stanford tiveram resultados muito ruins: a maioria deles não conseguiu identificar e diferenciar os sites com melhor ou pior qualidade. Já os especialistas em checagem de fatos tiveram ótimos resultados, provavelmente devido a suas competências em pesquisa avançada.

Se os websites de notícias falsas já enganam até doutores e estudantes de Stanford, o que é que sobra para a enorme maioria da população mundial, que não tem a prática rotineira de usar recursos de pesquisa?

No mundo da informação online e abundante, "saber pesquisar" é a chave mestra da aprendizagem autônoma e do autodesenvolvimento. Saber pesquisar é tão importante que ela deveria ser ensinada por profissionais especializados, formados em áreas correlatas à ciência dos dados. 

Se falta dinheiro público para contratar novos professores especializados, então que se aumente os impostos, que se invente novas contribuições, que se ressuscite a famigerada CPMF, não me importo: quando tratamos de educação de jovens para a construção do futuro, não devemos poupar esforços e recursos financeiros. Afinal, nossos maiores recursos são eles, os jovens, que infelizmente não sabem diferenciar um site jornalístico de um site criado há poucas semanas por um criminoso qualquer.

 

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