Em nome da Justiça - Diário de Santa Maria

Coluna Sociedade13/06/2017 | 14h04Atualizada em 13/06/2017 | 16h21

Em nome da Justiça

Colunista analisa a repercussão do vídeo de um jovem sendo tatuado na testa e os "juízes" de dentro e fora da internet

Na semana passada foi compartilhado um vídeo na internet em que um tatuador, 27 anos, e seu vizinho, 29 anos, residentes no centro da cidade de São Bernardo do Campo, em São Paulo, indignados com a tentativa de furto de uma bicicleta praticada por um adolescente, decidiram tatuar em sua testa a frase "Eu sou ladrão e vacilão". Enquanto um tatuava, o outro gravava no celular, para logo depois compartilhar no Whatsapp. O vídeo viralizou rapidamente. 

Nesse fato, destacamos dois pontos: o primeiro está na ordem das contradições experimentadas entre civilização e barbárie. Vivemos em uma sociedade civilizada e somos desafiados a conviver com práticas anteriores ao contrato social, em que inexistiam regras estabelecidas que garantam uma convivência humana.

Chacinas, desaparecimentos, torturas, julgamentos sumários e outros crimes bárbaros fazem parte do nosso cotidiano. Tatuador e vizinho agiram como júri, juiz e carrasco. Depois da aprovação de muitos internautas, que expressaram apoio aos torturadores via redes sociais, soube-se que o rapaz tem problemas mentais e sofre de dependência química. 

Foto: Pixabay / Divulgação

A questão instigante é compreender como alguém decide julgar e condenar outrem? 
O que está acontecendo com a humanidade?
O que leva o ser humano a se comportar como bárbaro?
E o mais grave, o que leva as pessoas a compactuarem com atitudes desse nível?

A temática referente à violência tem sido analisada desde 1865, quando Gustave Le Bon desenvolveu a tese de que em grupos, pessoas podem praticar atos perversos. Mais tarde, em 1918, Melcken teorizava que o comportamento de grupos seria influenciado pelo estilo de liderança exercido. Líderes violentos estimulariam no grupo ações nesse mesmo viés, despertando o bárbaro que dormita em cada indivíduo.

Freud, em 1921, no seu tratado sobre a Psicologia das Massas afirmava que em determinadas circunstâncias os humanos poderiam ter impulsos de morte latentes, escapando ao controle da consciência ou das regras sociais. Por fim, encontramos a filósofa Hannah Arendt, em 1963, cunhando a expressão "banalização do mal", após acompanhar o julgamento do criminoso de guerra Adolf Eichmann.

Arendt constata que Eichmann se vê como uma pessoa dedicada, metódica, que executou exemplarmente as ordens recebidas. Em momento algum demonstrou qualquer sinal de arrependimento por ter encaminhado milhões de judeus para as câmaras de gás, pelo contrário, estava com a consciência tranquila, sem qualquer tipo de incidente ou até mesmo, de congestionamento de pessoas – cumpria ordens.

O segundo ponto que destacamos diz respeito ao compartilhamento do vídeo em rede social, visto que não é a primeira vez que pessoas mostram cenas em que violam direitos de outras.

Se tivessem consciência de que estavam produzindo a prova do crime, tatuador e vizinho postariam o vídeo no Whatsapp?
Ou foram as contingências da "sociedade do espetáculo", tão bem definidas por Guy Debord (1967) que impuseram a eles se colocarem na vitrine, como produto?
Será que passou pela cabeça do tatuador que com o vídeo ele conseguiria novos clientes? Ou foi apenas o sonho de se tornar herói, ganhando projeção nacional ao fazer justiça com as próprias mãos? 

Vivemos tempos de exibicionismo digital, precisamos ser notados, precisamos nos autoafirmar, tirar selfies, vender a imagem de pessoas bem sucedidas e felizes. O caso acima exposto nos remete a lei de talião: olho por olho, dente por dente. O que houve foi um ato de vingança, mas jamais de justiça. Infelizmente, cada vez mais vamos comprovando a insanidade da sociedade brasileira. 

 
 

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