A história nos ensina: precisamos debater mais sobre tecnologia - Diário de Santa Maria

Opinião21/02/2017 | 15h35Atualizada em 21/02/2017 | 17h15

A história nos ensina: precisamos debater mais sobre tecnologia

Colunista de Tecnologia, Iuri Lammel volta ao século III a.C para lembrar da influência das invenções tecnológicas na evolução da humanidade 

Caros leitores,
Estreio na coluna sobre Tecnologia tratando justamente sobre a importância de debatermos mais sobre tecnologia.

Sabemos que as sociedades são moldadas por diversos fatores elementares, como as classes sociais, as religiões, os sistemas políticos e econômicos. Poucos se dão conta de que a tecnologia também é um desses fatores elementares. Ao contrário do ditado popular, religião e política podem ser discutidas, sim, da mesma forma como pode ser discutido o papel da tecnologia na sociedade e a maneira como lidamos com seus efeitos.

Foto: Reprodução

As inovações tecnológicas da última década transformaram os modos como socializamos e trabalhamos, revolucionaram os meios de informação e comunicação, multiplicaram as opções de aprendizagem e entretenimento e perturbaram a qualidade do nosso sono diário.

Os próximos lançamentos da indústria da tecnologia digital podem determinar a extinção da sua atual profissão, podem apresentar seu futuro cônjuge, podem abrir uma grande oportunidade de vida ao seu filho. Não sabemos muito bem o que de novo virá por aí e como isso afetará nossas vidas. Mas temos certeza que virá e que vai nos afetar de alguma maneira. Nossa única defesa é estarmos atentos e críticos ao que nos é oferecido. Para que isso seja possível, é preciso falar, debater, conversar mais sobre tecnologia. E é preciso abrir o assunto a todos, independentemente de classe social, sexo e idade. (no vídeo abaixo, uma visão do que seria o nosso futuro)


Lições do século III a.C

Não pensem que esse é um tema de importância recente! A tecnologia foi um fator determinante tanto para a ascensão quanto para a derrocada de diversas civilizações e já provocava fascínio e apreensão desde a antiguidade. Pego como exemplo a grandiosa civilização romana: entre os fatores que a levaram ao domínio do continente europeu, está um fato que envolve, vejam só, roubo de tecnologia.

Em meados do século III a.C., a pequena República Romana buscava expandir suas fronteiras restritas à península itálica e aumentar seu poder no Velho Continente, mas para isso seria necessário conquistar o Mar Mediterrâneo, que até então era dominado por uma superpotência marítima: a civilização cartaginesa.

Uma missão até então impossível, já que Roma não tinha tradição marítima e, muito menos, poder naval para lidar com as possantes embarcações cartaginesas. No entanto, se você é craque em história, deve saber que Roma conseguiu vencer Cartago nas três Guerras Púnicas. Como foi possível? Segundo o historiador grego Políbio, Roma recuperou embarcações cartaginesas naufragadas e capturou as que ficaram à deriva no litoral, estudou cada uma das peças utilizadas nestes navios e copiou a tecnologia marítima dos rivais. E foram ainda mais espertos: como os romanos tinham a supremacia técnica da luta corpo a corpo, desenvolveram uma espécie de ponte móvel dentro das embarcações, que descia e se prendia às embarcações cartaginesas, permitindo a passagem dos seus legionários com suas espadas curtas (o documentário abaixo trata da conquista do império Cartago).

Após o fim desta "guerra tecnológica" e do respectivo domínio do Mediterrâneo, Roma passou a se expandir aceleradamente até se tornar na maior civilização da sua época, com mais de 20% da população mundial e uma capital com mais de um milhão de habitantes.

Para conseguirem manter tanto território e tantos moradores, tiveram que desenvolver muita tecnologia: suas estradas e pontes foram tão bem construídas que muitas delas continuam sendo usadas até hoje; seus aquedutos criaram redes de distribuição de água, banhos públicos e esgoto tão bem elaborados que nem a Europa medieval conseguiu repetir nos mil anos seguintes; seus engenheiros criaram equipamentos relativamente complexos, com sistemas de engrenagens e manivelas.

Roma foi um exemplo de sociedade que soube explorar muito bem as vantagens da tecnologia para o bem público e social, mas também foi uma das primeiras sociedades a experimentar a aplicação equivocada da tecnologia em larga escala.
Não satisfeitos em criarem uma grande rede de aquedutos, os engenheiros romanos desenvolveram um sistema ainda mais requintado de distribuição de água, com o uso de encanamento de metal em seus aquedutos. O grande problema é que os canos eram produzidos com chumbo, um metal altamente tóxico para o corpo humano.

Ou seja: a tecnologia do encanamento parecia ter resolvido um problema, mas por falta de pesquisa sobre seus efeitos, se transformou num perigo de altíssimo risco para a população. Há historiados que chegaram a cogitar que uma das razões para a queda de Roma foi a intoxicação por chumbo de suas elites, já que eram estas famílias que recebiam a água encanada e era a elite romana quem articulava a política e financiava as campanhas militares.

Quando observo a maneira como nossa atual sociedade explora a tecnologia, me pergunto: quais seriam os nossos aquedutos de chumbo contemporâneos? Quais são as tecnologias que julgamos estar contribuindo com a nossa evolução, mas que, no final, estão envenenando nossas mentes ou nossas liberdades e nem nos damos conta? A forma como lidamos com a tecnologia afeta a todos nós, mesmo àqueles que são avessos aos apetrechos tecnológicos, e é por isso que precisamos conversar mais sobre o tema.

Sou um grande entusiasta da tecnologia digital, utilizo ela todos os dias e confio que ela ainda resolverá muitos de nossos problemas humanos e sociais, mas também sou um crítico de suas possíveis implicações, pois é preciso refletir e debater mais sobre os seus impactos em nossas vidas, nas nossas relações interpessoais e nos jogos de poder exercidos na sociedade.

É o que pretendo fazer nas próximas colunas.


 
 

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