Empreendedor do Vale do Silício fala sobre como serão os empregos e os hábitos de consumo no futuro - Diário de Santa Maria

Inovação27/10/2016 | 16h30Atualizada em 27/10/2016 | 17h41

Empreendedor do Vale do Silício fala sobre como serão os empregos e os hábitos de consumo no futuro

Maurício Benvenutti é também palestrante e escritor e aborda mudanças que chegarão em breve, como os carros autônomos, sem motorista

Empreendedor do Vale do Silício fala sobre como serão os empregos e os hábitos de consumo no futuro Deni Zolin/Agencia RBS
Foto: Deni Zolin / Agencia RBS

A revolução tecnológica e do conhecimento está provocando grande transformação em todos os setores da economia e gerando incertezas e oportunidades. Os empregos tradicionais de hoje seguirão existindo no futuro? Como transformar boas ideias em negócios rentáveis? Quem respondeu a essas e outras perguntas é o palestrante Maurício Benvenutti, que vive na capital da inovação do mundo, o Vale do Silício, nos EUA, e esteve recentemente em Santa Maria para um evento promovido pela Agência de Inovação e Transferência de Tecnologia (Agittec) e pela Pulsar Incubadora da UFSM.

Benvenutti é um empresário que largou uma bem-sucedida carreira na IBM para ingressar numa então desconhecida corretora de valores, a XP Investimentos, hoje a maior corretora do Brasil e uma das maiores instituições financeiras da Américas Latina. Atualmente, é sócio da StartSe, maior plataforma brasileira de conexão entre empreendedores, investidores e mentores. É formado pela PUCRS, com pós graduação por UC Berkeley e especialização pela Universidade de Stanford. Ele está lançando o livro ¿Incansáveis¿, onde escreve sobre a nova geração de empreendedores.

Diário – Como funciona o portal StartSe?

Maurício Benvenutti – O StartSe, a empresa da qual eu sou sócio, conecta os players que fazem parte do ecossistema de empreendedorismo do Brasil. Não só aqui, mas no mundo inteiro, o ecossistema empreendedor tem três fatores. O primeiro é rebeldia, o rebelde no bom sentido, o visionário que quer transformar o planeta, que não aguenta mais a mesmice das coisas. Segundo item: conhecimento. Ou seja, se você tem um rebelde sozinho, você tem um rebelde sem causa. Mas quando você coloca conhecimento perto dele, as ideias visionárias se transformam em realidade. Terceiro fator: o capital. Você tem que ter um investidor, que vai estar ali para pagar para ver, que tem dinheiro para apostar em boas ideias. Então, o StartSe conecta esses três players. 

Diário – O que é uma boa ideia, empreendedora?

Benvenutti – A ideia só tem valor quando ela vira prática. Então, uma boa ideia na cabeça de uma pessoa não tem valor algum. Eu digo para o empreendedor, que ele tem de responder a quatro perguntas para saber se a sua ideia tem boas possibilidades de se tornar um bom negócio. Primeiro: a sua ideia parece estranha? Porque todas as boas ideias, no início, parecem estranhas. O Google foi o 13º buscador do mundo. Os outros tinham um portal com notícias, e o Google era uma página em branco com um campo de busca e um botão. Era estranho. Só que depois esse estranho passou a ser o ponto de atração da empresa. Segunda pergunta: sua ideia pode se tornar um monopólio num pequeno mercado. É que muita gente cria um negócio e quer dominar a cidade ou dominar o Estado. Não dá. Porque no início, você é pequeno. Quando você está começando, você tem de pensar de se tornar um monopólio num mercado pequeno. Pode ser a esquina, o quarteirão da sua casa, o bairro. 

O Arbnb, que hoje é a maior rede de hotéis do mundo, começou sendo um monopólio ao redor do Centro de Convenções de São Francisco (EUA), e em seis meses, ele se tornou o monopólio e ninguém fazia aquilo melhor do que ele. Depois de conseguir consolidar sua presença em seis ou sete quadras de São Francisco, ele começou a se expandir. Terceiro: sua ideia está inserida num mercado crescente? Muita gente, porque muita gente, quando começa um negócio, olha só o tamanho do mercado. Mas é muito melhor eu estar presente num mercado pequeno, mas crescente, do que grande mas estagnado. E a última pergunta é o time. O time (tempo) atual é o correto? Por que dois anos atrás era muito cedo e dois anos para frente vai ser muito tarde? Se você, empreendedor, responder "sim" a essas quatro perguntas, a sua ideia tem boas chances de se transformar num bom negócio.

Diário – A gente vê uma geração que nasceu na era da internet e é ligada nas tecnologias e criativa. Como você vê o potencial dessa nova geração e como ela pode ter sucesso?

Benvenutti – Imagina quando essa geração que nasceu no final da década de 1990 e 2000, que hoje tem 15, 16, 17 anos, tiver 25 anos, daqui a oito anos, e se tornarem maioria, força consumidora. A gente está falando de um mundo, daqui a oito ou nove anos, completamente diferente. De consumo e de relação. Então, hoje em dia, o que esses jovens querem é muito mais do que um salário, é deixar uma marca. É construir um legado. Eu vejo cada vez mais jovens saindo de grandes empresas para empreender o seu sonho, porque hoje em dia, na cabeça do empresário que tem uma grande corporação, se você quer reter talentos na sua empresa, o emprego das 8h às 18h não atrai mais. Então, o jovem, essa geração, eles querem embarcar num foguete e ir para a Lua. E se o empreendedor que hoje tem uma empresa, quiser reter esses talentos, ele vai ter de dizer, "amigo, aqui está o cartão de embarque e aqui está o foguete para mandar você para a Lua". 

Se o empregador não fizer isso, essas pessoas vão deixar a sua empresa e vão estar montando os seus negócios. Há uma mudança radical no mercado do trabalho. Por exemplo. O processo de entrevista de emprego no Vale do Silício é totalmente ao contrário. O que é o processo normal. O candidato senta em frente ao empregador e começa a se vender: "Meu nome é tal, eu sou formado nisso, eu fiz isso e minha experiência é essa". Lá, é o contrário, pois são as empresas que se oferecem para os candidatos, porque elas já se deram conta de que para reter talentos, você tem de mostrar o foguete e mostrar que eu vou para a Lua. Então, eu tenho colegas no Vale que estão fazendo seleção para o Google e Facebook, em que as empresas chamam os candidatos e mostram: "Aqui está o nosso plano, onde a gente quer chegar, o que a gente quer ser". Totalmente ao contrário. Não é o candidato, é a empresa se vendendo para atrair os talentos. É uma mudança radical na maneira de se tratar da questão trabalhista, pois isso muda completamente o jogo.

Diário – Por outro lado, existe o mundo de empresas tradicionais, que por mal ou por bem, não vão conseguir mudar radicalmente. Como os jovens estarão inserido nesse mercado mais conservador?

Benvenutti – Todos os setores da economia estão se transformando. Você pega a indústria metal-metalúrgica. Hoje em dia já tem empresas no mundo inteiro usando empresas 3D para fazer uma série de coisas, placas e chapas que antes eram feitas na indústria no formato tradicional. Outro exemplo: você pega a indústria automobilística. Extremamente tradicional. Há 100 anos, ela praticamente não mudou. GM, Ford são empresas que inovam muito. Só que precisou vir uma empresa chamada Tesla para dizer para toda essa indústria tradicional, que funciona há 100 anos da mesma forma e dizer: "Amigo, eu posso vender meu carro sem concessionário". "Eu posso começar a fabricar o meu carro só depois que o cliente compra, eu não preciso mais fabricar, colocar no estacionamento da concessionária, contratar vendedor, colocar na vitrine¿. Eu inverto o processo. "Meu amigo, eu posso criar carros open-source", em que se eu e você quisermos montar um Tesla, a gente pode, pois a gente baixa no site e monta um Tesla. 

A Tesla deixa a tecnologia aberta, carro open-source, para o mundo inteiro poder contribuir. Os melhores cientistas do planeta podem, todo dia, entrar na ferramenta da Tesla e contribuir um pouquinho. Então, o jovem se insere na indústria tradicional desta forma, e essas empresas estão vendo que isso está acontecendo e estão atraindo esses jovens visionários.

Diário – A empresa que quiser seguir no mundo tradicional corre mais risco de ficar para trás?

Benvenutti – O mundo que deu certo nos últimos 50 anos não vai dar certo nos próximos 10 anos. Eu recebo, no Vale do Silício, muitos empresários de vários setores. Por exemplo: telecom. Eu recebi um grupo de executivos de uma grande empresa. O setor de telecom emprega milhares de pessoas no Brasil. E eles perguntaram: "Maurício, como pode uma empresa como Whatsapp, que até pouco tempo atrás, tinha 40 funcionários, revolucionar esse mercado? Como é que pode?". Ou "Como pode chegar o Uber e revolucionar o mercado de táxis, que está aí há cem anos? É tradicional?" Mas que há cem anos funciona da mesma forma. "Como pode chegar o Airbnb e revolucionar o setor de hospedagens e hotéis da forma como revolucionou?" Hoje em dia é a maior rede de hotéis do mundo. Então, os setores tradicionais estão se revolucionado. E quando não acompanhar essa revolução, não importa o império que essa empresa tenha, ela vai ficar para trás.

 Exemplo clássico: o Blockbuster. Era intocável, era a grande empresa de aluguel de DVDs no mundo, com 150 mil funcionários, 9 mil lojas. Surgiu o Netflix, no final da década de 1990, vendendo o mesmo tipo de produto, mas por streaming, não mais por lojas físicas. E olha que interessante. Em 2000, o Netflix se oferece e diz: "Blockbuster, você quer me comprar por US$ 50 milhões?". Ele disse "Não, a gente não quer". Então, nove anos depois a Blockbuster acabou aniquilada justamente pela Netflix, que eles não quiseram comprar.

Outro exemplo: Nokia, o grande império dos celulares. Quem não teve um Nokia? Eu já tive dois. Então, veio iPhone 1, 2 e 3, e acabou com o mercado. Então, hoje em dia, todos os setores da economia sofrem transformações, e quem não acompanhar vai ficar para trás. 

Diário – A revolução industrial deixou muitos tipos de empresas e empregos para trás. Mas por outro lado, agora a revolução é bem mais rápida e com risco muito maior, o que gera uma incerteza muito grande. Como o empresário lida com isso?

Benvenutti – Isso acontece porque muita gente diz que a gente está vivendo a quarta revolução, porque todas as revoluções tecnológicas foram muito importantes. Big data, a internet das coisas, realidade virtual, realidade aumentada, tudo foi muito importante. Só que hoje em dia, você consegue convergir todas essas diferentes tecnologias num único produto. E isso tem provocado essas transformações em série. O que eu vejo nos próximos 10 anos, os empregos que poderão fazer parte da nossa sociedade, talvez nem existem hoje. Eu fui numa palestra sobre o futuro do entregador da UPS, que seria o futuro do carteiro. O pessoal estava discutindo que, talvez, daqui cinco a 10 anos, talvez o carteiro vai ser o profissional que ficará pilotando um drone, entregando encomendas na cidade, pois hoje isso já está tão desenvolvido. Então, assim como a revolução industrial fez com que vários empregos desaparecessem, mas com que vários outros tantos surgissem. Agora, essa quarta revolução vai gerar a mesma coisa. Gera uma incerteza, porque o que vai ser da gente, o que vai acontecer? Então, daqui a 10 ou 15 anos, nossos filhos vão estar trabalhando em algo que hoje a gente nem faz ideia. 

Diário – Para quem é mais antigo, como se adaptar a esse novo mercado de trabalho?

Benvenutti – É um desafio muito grande, mas o que eu vejo é que se aproximar disso que está acontecendo. Estar perto de onde a inovação está acontecendo e de centros de start-ups é uma grande estratégia. Eu estou falando aqui de setores supertradicionais, como supermercados. Hoje em dia, nos EUA, as pessoas estão deixando de ir no supermercado. Eles estão ficando cada vez menores. O setor de varejo está ficando cada vez mais enxuto, com margens cada vez menores, trabalhando com menos estoque. A gente pode imaginar. Mas isso vai demorar para chegar no Brasil. Mas isso não vai demorar. E isso vai atingir a nossa economia brasileira. 

Tudo está reduzindo. O conceito de shopping center nos EUA. Hoje em dia, basicamente só tem outlet, tem alguns shoppings em cidades. Porque as pessoas não vão mais em shopping center. E quem tem uma loja não coloca mais porque tem um custo, tem estoque, então é um modelo que, nos últimos 50 anos imperou e hoje a gente vê uma aversão a isso.

 Isso acontece, por exemplo, no mercado de automóveis. Eu fiz 18 anos e corri lá para fazer a carteira. Mas faz desde a década de 1980 que os índices de emissão de novas carteiras de motoristas nos EUA vêm diminuindo drasticamente. Na década de 1980, 95% dos jovens de 20 a 24 anos nos EUA tinham carteira de motorista. E hoje, 70% dos jovens até 24 anos têm carteira, porque o jovem lá não tem mais essa vontade. Ter um carro para mim hoje é um problema. Então, o automóvel é cada vez mais visto como um serviço do que como um bem ou uma posse. Isso transforma a indústria de automóveis, a indústria de seguros, de estacionamentos. Isso vai transformando uma cadeia de indústrias. Então, os supermercados, o varejo, isso vem mudando drasticamente nos últimos anos, e muita gente não enxergou, e muita gente já enxergou e finge que não vê, que é o pior cenário, mas algumas poucas pessoas já perceberam isso e estão se tornando competitivas. 

Diário – Ter automóvel está virando um problema e um custo alto nas grandes cidades.

Benvenutti – O valor do automóvel passa a ser muito mais no uso do que na posse. E tem outra realidade que está vindo, que é a seguinte. Hoje em dia, GM investe em carro autônomo, que não tem motorista. Ford investe, Tesla também, Google, Apple. O Uber, em Pitsburg, já tem carros autônomos circulando nas ruas. Tem 40 carros autônomos do Google andando pelas ruas do Vale do Silício. Eu fui numa palestra esses dias e escutei a seguinte frase do palestrante: Possivelmente, nos EUA, nos próximos cinco anos, vai ser a última vez que um americano vai comprar um carro, porque depois desse período, vai ser tanto carro autônomo que você vai ver nas ruas, que as pessoas não vão mais ser motivadas a ter um carro. O que acontece? Existe uma lei nos EUA que diz que até 2020, você não pode ter carros sem motorista andando pelas ruas. É uma lei federal. 

Fala-se muito que 2020 vai ser o ano que vai mudar radicalmente o modelo de transporte urbano nos EUA, porque a tecnologia já está quase pronta. Eu vejo os carros autônomos andando nas ruas. Está muito próximo do nível de disponibilizar os carros nas ruas. E o Google tem 400 bilhões de dólares, a Apple tem outro tanto. Então, quando isso chegar na maturidade, eles vão despejar carros autônomos nas ruas. E quando você não tem motorista dentro do táxi ou do Uber para dirigir, o carro passa a ser uma commoditie, muito barato e cômodo para você se deslocar. Você chama um carro e ele vem. Na realidade, isso está mais próximo do que as pessoas imaginam. E paralelo ao desenvolvimento tecnológico, já começaram a tramitar algumas leis, como em São Francisco. Eles querem proibir o uso de carros normais no Centro da cidade. Existe também uma lei que está em trâmite para que em 270 km de uma rodovia, de Seattle a Oregon, só serem permitidos carros autônomos. Por quê? Porque acidente acontece em todo o lugar. E se for comprovado que os carros autônomos provocam menos acidentes e menos mortes no trânsito, esse é o argumento que o governo vai usar para proibir humanos de dirigir. O governo vai usar esse argumento de que, se hoje 100 mil pessoas morrem no trânsito, se isso cair para 1 mil ou para 10 mil mortes, naturalmente isso vai ser aprovado. Então, isso vai mudar radicalmente o mercado automobilístico e o transporte urbano nos próximos anos.


 
 

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