Papel do cabo eleitoral ganha evidência nas eleições de 2016 - Diário de Santa Maria

Atores da campanha08/09/2016 | 05h50Atualizada em 08/09/2016 | 11h35

Papel do cabo eleitoral ganha evidência nas eleições de 2016

Sejam engajados ou contratados, eles mudaram a estratégia para angariar votos para seus candidatos

Papel do cabo eleitoral ganha evidência nas eleições de 2016 Maiara Bersch/Agência RBS
Foto: Maiara Bersch / Agência RBS

Mais entusiasmados ou mais discretos, bastou dar a largada na campanha, em 16 de agosto, para os cabos eleitorais ocuparem a área central da cidade. Com pouco mais de três semanas de campanha na rua, muita gente percebeu, e de fato houve, uma mudança significativa de comportamento deles. Em comparação com pleitos anteriores, o serviço perdeu um pouco o caráter mecânico de ser mero distribuidor panfletos e ganhou um caráter observador.

A partir de agora, José Haidar Farret é o prefeito de Santa Maria 


Os motivos são diversos, mas estão relacionados a duas situações bem específicas: à mudança nas regras do processo eleitoral e ao momento vivido no cenário político no país.

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A escassez de recursos, causada pela proibição de doações por parte de empresas, fez com que os candidatos segurassem os gastos com adesivos, panfletos e folderes. Ou seja, há menos material para distribuir. Além disso, os limites impostos pelas novas regras de propaganda, quanto ao uso de mídias como cavaletes, outdoors e pinturas em muros deram ao cabo eleitoral papel importante na conquista de votos.

Somado a esse cenário, o comportamento dos eleitores também mudou. De forma geral, as pessoas estão decepcionadas com a forma com os que os homens públicos andam fazendo política no Brasil. Daí, segundo os próprios cabos eleitorais, os eleitores terem adotado uma postura menos receptiva à abordagem nas ruas.

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– Da última (eleição) para cá, mudou completamente. Mudou no aspecto financeiro e no visual. Antes, podia-se explorar mais os espaços públicos com banners e cavaletes. Mas, principalmente, o eleitor mudou. É unânime, na vila ou no Centro, as pessoas não querem mais ouvir falar em política. Estão desacreditadas – explanou Daniela Dalla Lana, 40 anos, advogada que há mais de 12 anos atua em campanhas eleitorais.

Sutileza com os eleitores
Como em tudo na política, o novo contexto exigiu novas estratégias. O Diário foi ao centro de Santa Maria e observou a atuação de cabos eleitorais de diferentes candidatos e partidos em um sábado de manhã e em um dia de semana à tarde.

A reportagem também ouviu os jornaleiros, que observam a rotina no Centro, e cinco cabos eleitorais. Todos corroboraram a tese de mudança de comportamento. Disseram que a abordagem está mais sutil, é preciso ser simpático e apresentar o candidato e as propostas dele. E que é preciso ser ético e respeitar a opinião do eleitor. Não vale tentar tirar voto de outro candidato. A dica é observar.

– Não adianta abordar uma pessoa que já vem desviando o olhar. Tem de ir ao encontro de quem demonstra interesse pelo candidato – disse operador de cinema e militante José Luzardo Cruz Brum.

A internet também tem um protagonismo especial neste pleito. As redes sociais estão sendo muito exploradas por terem grande alcance e não sujarem a cidade, mas especialistas recomendam o uso com bom senso.

Abordagem errada pode ser propaganda negativa

Para a Ângela Quintanilha Gomes, doutora em Ciência Política pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e professora do curso de Ciências Sociais da Universidade Federal do Pampa, campus de São Borja, se o cabo eleitoral tiver uma postura superficial de tentar forçosamente distribuir material mesmo que a pessoa não queira, ao invés de provocar a empatia do eleitor, ele vai provocar rejeição ao candidato.

– Pelo fato de trabalhar pela remuneração, e não ter identificação com a plataforma política do candidato, ele faz de forma mecânica, cumpre tarefa. Pode distribuir todos os santinhos e não reverter isso em votos. É preferível alguém que conheça o que o candidato está propondo, estabeleça uma conversa e que a interlocução seja mais consistente, do que a simples distribuição de material aleatoriamente – afirma a cientista política.

Preferência pela militância
Apesar de a militância não ser maioria entre os cabos eleitorais, diante das restrições de financiamento e de propaganda, esse tipo de atividade ganha relevância, cada vez maior, nas eleições deste ano. Por isso, as candidaturas não abrem mão de contratar o cabo eleitoral. – Não se ganha uma eleição só com cabo eleitoral, mas, como não podemos usar os meios que tínhamos em outras campanhas, se tornou imprescindível – disse Daniela Dalla Lana.

VEJA O QUE PODE 

– Fazer propaganda em via pública, desde que não obstrua o trânsito tanto dos pedestres, quanto dos veículos
– É permitido até colocar mesas para distribuir materiais de campanha, como santinhos, panfletos, etc
– Andar segurando bandeiras também é permitido
– Os panfletos são permitidos e contratar pessoas para distribuí-los também. Só não vale distribuir panfletos que tentam difamar outros candidatos
– Pode contratar cabo eleitoral, mas há um limite. Ou seja, contratar 1% da população, além de um a mais para cada mil habitantes que excederem os 30 mil moradores)

E O QUE NÃO PODE

–  Fixar propaganda em bens públicos, postes, placas de trânsito, outdoors, viadutos, passarelas, pontes, paradas de ônibus, árvores, inclusive com pichação, tinta, placas, faixas, cavaletes e bonecos
– Fazer propaganda por meio de telemarketing. Pagar por propaganda na internet, inclusive, com impulsionamento de publicações em redes sociais ou anúncios patrocinados em buscadores

Quais são os motivos para se tornar um cabo eleitoral

Foto: Maiara Bersch / Agência RBS

Dezenas de cabos eleitorais jovens e adultos, homens e mulheres, ocupam seus postos diariamente na Praça Saldanha Marinho, no largo do Banrisul e ao longo do Calçadão Salvador Isaía. Mas o local considerado vip para a atividade é mesmo sobre o viaduto Evandro Behr, por ser o corredor de passagem entre a praça e o Calçadão. A atividade é desempenhada todos os dias da semana, porém, o ponto forte é aos sábados, no final da manhã, quando o fluxo de eleitores é maior e o trabalho dos cabos é mais intenso.

Mas o que leva essas pessoas a passarem calor, frio e chuva? A passarem horas e horas em pé, abordando eleitores, muitas vezes, desinteressados e alguns até mal educados? Uma forma de ganhar um dinheiro a mais ou a principal fonte de renda para desempregados; e para os engajados, a oportunidade de defender um candidato que conhece e acredita.

Daniela Dalla Lana, 40 anos, está na sexta campanha, é praticamente uma profissional na arte de buscar votos. Mas ela não ganha nada pelo trabalho, faz ¿por amor¿, para familiares que são ou foram candidatos e também já fez de forma voluntária para conhecidos. Para ela, esse é o cabo eleitoral que mais tem resultado, porque é engajado.

Mas para outros tantos, como Mara Lied, a atividade é uma oportunidade de emprego temporário. Ela trabalhou, nas últimas duas campanhas, dentro de comitês. Este é o primeiro ano que ela foi para o corpo a corpo. A atividade é remunerada, feita em meio turno e serve como reforço na renda mensal da professora:

– Estou gostando. Interagimos mais com as pessoas. E não atrapalha meu emprego.

A remuneração é negociada entre a organização da campanha e o cabo eleitoral. A reportagem apurou que o valor pode variar de R$ 19 a R$ 25 por turno trabalhado. A atividade é informal, e segundo a Lei Eleitoral, não gera vínculo empregatício com o candidato ou partido. É feito um contrato e o pagamento realizado mediante recibo para posterior prestação de contas do candidato.

Gratidão e apoio futuro
Ainda há os que pedem votos por gratidão ou por apoio futuro. O operador de cinema José Luzardo Cruz Brum vê o apoio à candidatura de um dos prefeituráveis da cidade como uma forma de retribuir a ajuda recebida para o projeto social que coordena.

– Não recebo nada por isso. Faço porque conheço o candidato desde pequeno e porque ,quando precisamos, ele ajuda o projeto – declarou.

 
 

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