Com preço atrativo, produtor voltará a aumentar a área do milho no Estado - Diário de Santa Maria

A volta por cima09/08/2016 | 07h04Atualizada em 09/08/2016 | 07h04

Com preço atrativo, produtor voltará a aumentar a área do milho no Estado

Agricultores, que há um ano pensaram duas vezes antes de plantar o cereal, neste ciclo investe na cultura estimulado pela valorização do grão

Com preço atrativo, produtor voltará a aumentar a área do milho no Estado Gelson Waier/Especial
Semeadura da safra 2016/2017 já começou na região Noroeste do Rio Grande do Sul, que costuma plantar mais cedo Foto: Gelson Waier / Especial

Preterido pelos agricultores gaúchos nos últimos anos, o milho voltou a ser um negócio atrativo. A razão é o aumento expressivo do preço da saca paga ao produtor, de pouco mais de R$ 20, há um ano, está hoje acima dos R$ 40. Entre os fatores que contribuíram para a valorização, está a escassez na oferta do grão — motivada pela redução da safrinha no país e aumento das exportações.

Especialistas avaliam que as cotações permanecerão estáveis, mesmo com a previsão de aumento de área. O presidente da Associação dos Produtores de Milho do Rio Grande do Sul (Apromilho), Cláudio de Jesus, e o consultor da Safras & Mercados, Paulo Molinari, apostam em uma cotação próxima a R$ 40.

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No estudo de rentabilidade da safra de milho 2016/2017, elaborado pela Céleres Consultoria, também são estimadas margens elevadas para o grão.

— Os valores comercializados hoje devem se manter até 2017 e isso faz com que a cultura volte a atrair o produtor — prevê o analista de mercado da Céleres, Enilson Nogueira.

Mas a área técnica do Ministério da Agricultura alerta que se o estoque de passagem do cereal ficar em 4,47 milhões de toneladas em 31 de janeiro de 2017 — época da colheita no Rio Grande do Sul —, a tendência é que o valor da saca volte a baixar.

Para este ciclo, a Céleres Consultoria estima área plantada de 960 mil hectares de milho no Rio Grande do Sul, aumento de pelo menos 10% sobre 2015/2016, mas ainda abaixo das três safras anteriores, quando a extensão passava de 1 milhão de hectares. No país, deve chegar a 15,75 milhões de hectares, alta de 10,03% sobre o período anterior.

Não é apenas a área destinada à produção do grão que deve aumentar. O valor cobrado pelas sementes de milho de alta tecnologia teve alta de 30% em um ano, segundo a Apromilho. As demais sementes do grão, com menor tecnologia, mantiveram certa estabilidade de preço. Para se ter uma ideia, o investimento médio para aquisição de sementes de alta tecnologia é de R$ 600 por hectare.

— As sementes de alta tecnologia podem ser mais caras, mas também garantem uma produtividade maior — comenta Cláudio de Jesus da Apromilho.

Ampliação de área plantada

Motivados pela possibilidade de ter duas safras de verão — milho e soja — e pelo preço da saca, agricultores de algumas regiões do Estado, como Missões e Noroeste, já começaram a semear a cultura. A decisão faz com que o produtor tenha tempo de investir primeiro no cereal e depois em uma safrinha de soja — na mesma área.

— Os produtores plantam mais cedo, colhem antes e têm possibilidade de investir em mais de uma cultura — diz Lino Moura, diretor técnico da Emater.

O agricultor Dorlei Balsan, de 36 anos, que tem propriedade de 200 hectares no interior de Tucunduva, no Noroeste, realizou o plantio no período do zoneamento climático, que iniciou em julho. E cuida para que a umidade do solo e a temperatura sejam ideais, sempre acima de 10 graus para garantir a germinação da semente.

Na safra passada, ele manteve 50 hectares com o cereal, desestimulado pelos preços. Neste ano, com possibilidade de maior renda, ampliou a área em mais 25 hectares, totalizando 75 hectares. Só não aumentou mais porque o espaço restante é destinado ao painço, produto com clientes cativos.

Dorlei Balsan estima colher neste ciclo entre 160 e 180 sacas de milho por hectare Foto: Gelson Waier / Especial

O produtor estima colher neste ciclo entre 160 e 180 sacas de milho por hectare, o que dependerá do clima, já que neste ano é esperado o La Niña, que costuma causar períodos de estiagem. Esse rendimento está acima da média do Estado, que ficou em 119,3 sacas por hectare no ciclo 2015/2016.

— Este é um momento peculiar e positivo, pois o valor entregue pela saca quase dobrou em relação à safra passada e ainda consigo plantar soja — comemora Balsan.

Rotação mais rentável neste ciclo

Os agricultores têm neste ano um estímulo para executar a rotação da soja com o milho. Mesmo assim, ainda não dá para competir com o grão de ouro no quesito valor. Enquanto a saca do milho fica em torno de R$ 40, a saca da soja passa de R$ 70.

— Apesar de ser um momento bom para o milho, o mercado da soja continua sendo mais atrativo, se analisarmos apenas o valor da saca — relata Lino Moura, da Emater.

O diferencial do milho em relação à oleaginosa está na rentabilidade da produção. Enquanto o produtor obtém no máximo 80 sacas por hectares de soja, na mesma área é possível conseguir mais do que o dobro do volume nas lavouras de milho. Segundo Cláudio de Jesus, da Apromilho, se o produtor adquirir sementes de qualidade, adotar o manejo correto e o clima ajudar — pode colher uma média de 170 sacas por hectare.

Exportações e importações em alta

A redução na área e na produção de milho da safra no Rio Grande do Sul impactou diretamente na indústria de carnes, já que o Estado consome 6,5 milhões de toneladas e produz volume abaixo do necessário. Além de não contemplar a necessidade do mercado doméstico, outro fator reduziu ainda mais a oferta: os produtores ampliaram signifitivamente as exportações, que somaram 12,25 milhões de toneladas no primeiro semestre deste ano, expansão de mais de 100% em relação ao mesmo período de 2015.

Rogério Kerber, diretor executivo do Sindicato da Indústria de Produtos Suínos (Sips), lembra que a redução na oferta do grão e o preço elevado traz prejuízos para o setor de carnes, já que o milho é o principal ingrediente da ração de suínos e aves.

— A demanda, mais a valorização do dólar frente ao real, mostra que esta é a hora de investir — analisa Kerber, referindo-se aos agricultores. A falta do produto no país levou o Rio Grande do Sul a importar 86 mil toneladas somente neste ano — do total de 542 mil toneladas adquiridas no exterior pelo Brasil, sendo quase a totalidade oriunda da Argentina.

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