Quem faz uma coisa, só faz uma coisa? - Cultura e Lazer - Diário

Versão mobile

Coluna Cultura03/11/2017 | 15h06Atualizada em 03/11/2017 | 15h06

Quem faz uma coisa, só faz uma coisa?

Colunista fala sobre a possibilidade de sermos multi

Quem faz teatro, só faz teatro?
Músico, só música?
Quem escreve, só pensa em livros?
Quem tem uma só profissão, só faz uma coisa?

Quando ingressei na faculdade de teatro tinha uma ideia muito restrita do que era teatro, seja pela pequena quantidade de espetáculos que já havia assistido (afinal, imaginem o pouco de teatro que chegava ao interior de Santa Catarina e do Rio Grande do Sul no início dos anos 80), seja pela quase inexistente leitura de teatro ao qual tive acesso.

Esse choque entre as possibilidades cênicas, muito distintas do meu pequeno imaginário e o universo gigantesco de formas, textos, cenários, história com o qual eu deparava na UFSM, fez com que eu me apaixonasse pelo teatro, mas não somente pelo teatro, e sim, pela arte. O teatro foi a porta de entrada para uma aproximação com a arte de modo mais profundo, foi ele quem me aproximou de distintas formas de expressão humana.

Mas agora, depois de 20 anos de estrada, minha visão e prática sobre essas perguntas já são um pouco distintas. Quando tenho alguma ideia ou qualquer centelha que possa me inspirar um trabalho, me mover em direção a algo, não penso mais necessariamente que ela seja traduzida por meio cênico.

Hoje, para mim, esse pensar que algo pode ser produzido em mais de um suporte, ou misturando vários, já é natural (especialmente trabalhando com audiovisual, tecnologia, escrevendo, etc.)

Mas, esse pensar (acima descrito), que hoje vem naturalmente, não foi tão fácil assim tempos atrás.

Demorei para perceber que uma ideia poderia ser melhor concebida, realizada em determinado meio ou suporte, do que em outro.  Meu primeiro pensamento sempre havia sido de que tal coisa daria um ótimo espetáculo de teatro. Hoje, pode ser que seja um bom texto, uma música, um poema, um curta metragem, um desenho, uma perfomance.

Descobri que as ideias nos apresentam seus caminhos, conversam conosco de formas sutis, e nos apontam por onde devemos seguir. São pistas leves, que precisam de tempo e paciência para seguir, mas que recompensam a cada passo da jornada.

Como descobri isso?
Foi quando comecei a perceber que vários artistas faziam muitas coisas, de diversas expressões estéticas com muito rigor e habilidade. Resumindo, tem muito artista que faz de tudo e faz quase tudo muito bem. Por que temos que ficar limitados somente a um modo de agir e de ver o mundo?

Hoje no contemporâneo talvez seja mais fácil libertar-se das amarras de quem você só pode ser uma coisa e fazer uma coisa.

Foi o olhar para a prática poético-estética de hoje, para o fazer artístico do/no contemporâneo, que me atentou que existe de libertação de linguagens, de ações e fatos ordinários (da vida e da arte), e que perseguir essa chama de vida na arte (mesmo que somente em pequenos momentos) é dar chance a experiência de um encontro com o mundo, um mundo que talvez se encontre além de seu próprio, visto em primeiro momento de relance. Afinal, o mundo é composto de singularidades que desejam outras possibilidades sensíveis.

Foi olhando para a arte contemporânea e seus artistas que revistei meu passado e me dei conta de algo mais importante ainda, que os artistas não fazem apenas um tipo de arte. Mas mais que isso, que várias das artes (músicas, poemas, etc) que nos afetam ao longo do caminho, não foram necessariamente realizadas por aqueles que tem na arte sua ocupação principal, foram feitas por pessoas que têm outras profissões.

Meu primeiro contato com poesia, veio com a poesia de um colega de banco de meu pai (ele trabalhava no Banco do Brasil). Foi uma pequena coletânea de poesias desse colega que fez com que eu começasse a ler poesia sem parar. E depois, no dia a dia mais próximo de uma pessoa "comum", não a figura de um poeta distante e impossível de alcançar, que me levou a ter coragem de escrever.

Antes de entrar na faculdade de teatro, já tinha lido, escrito textos, visto muitos filmes, ouvido músicas (que depois descobri que seus autores não eram músicos de “profissão”), e tudo isso me formou, me incentivou, me ajudou a combinar pelo mundo.

A verdade é que nunca sabemos onde o que fizemos vai parar. Ainda mais em tempos de internet.

Hoje eu não faço só teatro, audiovisual, circo, poesia, e estou me arriscando em outros lugares artísticos também. Transito por inúmeras áreas, algumas com mais outras com menos desenvoltura (e provavelmente tudo o que eu faço seja ridiculamente inferior a quem domina/atua naquela área por anos a fio, ou seja especialista nela).

Agir assim, foi meu jeito de lidar com o mundo e perceber que a substância Arte, é maior que um meio, é maior que eu. Arte somos nós e todas as possibilidades.

Que por fazer teatro, eu não preciso estar restrito somente ao teatro. Artistas não precisam estar presos apenas a uma forma de expressão.

E mais que isso, pessoas não precisam estar presas as suas profissões como algo único e definitivo, como sua única faceta, seu único ponto de contato com o mundo.

Todos temos mais modos de interagir e nos expressar com as pessoas.

Então compartilhe seus textos, suas músicas, seus desenhos.
Façam suas performances, filmes, etc.

Vocês não sabem como poderão afetar positivamente a vida de alguém.

Aproveito a deixa para agradecer ao Kalunga, o poeta de quem falei anteriormente, e que conheci em Santo Ângelo. Gratidão por sua poesia. Quero compartilhar o poema escrito que sempre me recordo, e que é metáfora para mim para vários momentos de vida.

"Sei que pode dar em nada.
Mas vou insistir no nada.
Até que o nada se concretize”.
(Kalunga)

Até o próximo encontro.

 

Siga Diário SM no Twitter

  • diariosm

    diariosm

    DiárioSMRenato Mirailh: há mais de 30 anos nos palcos santa-marienses https://t.co/EJW8pNL2sF https://t.co/Gj4SKJPLNphá 1 diaRetweet
  • diariosm

    diariosm

    DiárioSMAssaltantes amarram casal de agricultores e fogem levando dinheiro e um carro https://t.co/bp0ydKBG8p https://t.co/A7KW3xj4gOhá 1 diaRetweet

Veja também

Diário de Santa Maria
Busca
clicRBS
Nova busca - outros