Contradição... - Cultura e Lazer - Diário

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Coluna Cultura22/09/2017 | 15h00Atualizada em 22/09/2017 | 16h17

Contradição...

Colunista faz uma reflexão sobre a cultura gaúcha e o "gauchismo tradicional"

Desde a infância, alguns hábitos relacionados à cultura gaúcha estiveram presentes em meu cotidiano. E não me refiro aos costumes que foram prescritos pelo MTG, nem nos livros de Paixão Cortes e Barbosa Lessa. Minhas vivências, mesmo que no interior de Sant'ana do Livramento, foram bastante urbanas.

Poucas coisas me eram tangíveis do universo gaúcho, porém o mínimo que vivi disso marcou… Foram as idas ao "Passo do Mingote" pastorear os cavalos que meu irmão tratava, as sombras dos plátanos pelos setembros em flor a ouvir a cordeona de botão do Fabiano Torres; os encontros sociais que uniam a comunidade do meu bairro para dias de comunhão em meio à cavalhada e dos cusquinhos de olhar pedinte esperando um osso, dos homens, mulheres e crianças a beira do fogo, da música, da carne assada e da dança em acolhedores galpões e CTGs, a exemplo do "Laçador" da Vila João Duarte e do "Rincão da Amizade" na Vila Santa Rosa.

Localidade de Cerro Chato, distrito de Santana do LivramentoFoto: Daniel Cavalheiro

 Posteriormente veio a adolescência, junto com ela a mudança para Santa Maria, o acesso aos estudos ("pero no mucho"), alguns livros, o trabalho, novos convívios sociais, a percepção da diversidade do mundo, a curiosidade, escolhas, renúncias, reflexões e etc…

"....Impossível sair com a mesma imagem estereotipada do Rio Grande do Sul após assistir os documentários feitos pelo Projeto Gema. Com uma qualidade admirável reconstroem as narrativas sobre as identidades marginalizadas no estado como a indígena e suas cosmovisões de mundo e música, a identidade sonoro-musical das bandinhas alemãs, sambistas e o movimento samba rock tão resistente no Rio Grande do Sul e reconhecido nacionalmente, os maçambiques de Osório já citados, a hibridização na musicalidade do guitarrista Bonitinho, os gaúchos negros no interior de Livramento, no Quilombo do Ibicuí, entre outras identidades¹… "

Hoje sem a inocência que a infância me ofertava, reconheço os excessos que a institucionalização "MTGzística" nos deixou e acompanho as discussões acerca do assunto.  Mesmo assim, ainda me incomodam os discursos de ódio e sem conhecimento de causa, que leio nas redes sociais e ouço pelas "bocas miúdas", aniquilando o que resta de positivo e real deste movimento.

O vinte de setembro é uma data meramente simbólica, que mesmo feita a sangue e suor de tantos e tantas, diz muito a respeito das características da nossa gente, afinal, ainda estamos humanos, possuímos DNA e ancestrais. Por isso entendo como um ímpeto de ignorância generalizarmos ou apontarmos o dedo para um movimento cultural que vive em constante processo de transformação...

"...Como não desconstruir o que é o "gauchismo tradicional" vendo a obra de Vitor Ramil e a forma que dialoga com a singeleza dos versos de João da Cunha Vargas? Como não compreender a significância de nossa localização geográfica e cultural após ler a "Estética do Frio (1997) defendida por Ramil? Como não perceber a ressignificação do gauchismo vendo a obra de artistas como Pirisca Grecco (e sua Comparsa Elétrica), os versos do Cabo Deco e do Pedro Ribas, entre outros, que com legitimidade e sabedoria sobre o campo, advindo do convívio direto com a cultura gauchesca, atualizam de forma criativa, subjetiva e até existencialista estas identidades?²..."

Sobre a festa em si é tudo tão caricato, festivo e fantasioso, assim como o carnaval… (afinal qual festividade cultural não é?)

É óbvio que não precisamos adorar a maneira das pessoas se identificarem com os seus antepassados e tão pouco decidir o que cada um faz com sua herança cultural.  Claro que a contestação e reflexão sobre as tradições que passamos de mão e mão, geração a geração, tem que acontecer e o questionamento é válido. Mas o que não podemos mais é travar embate e nos agredirmos pelas diferenças, se a cada gre-nal, festa típica, ou data comemorativa apedrejarmos alguém pela sua escolha, aí sim é que continuaremos cavando nosso precipício social. 

Afinal, uma pessoa realmente evoluída não precisa andar por aí mundo a fora, renegando a própria origem e tão pouco deslegitimizando a felicidade alheia...

Ainda sobre o gauchismo sugiro uma passada no Blog Gauchismo Líquido, do qual recolhi citações e tem várias pautas relevantes sobre a cultura gaúcha e por sinal bem escritas pela violinista e etnomusicóloga Clarissa Ferreira.

 ¹ ²  Gauchismo Líquido - Um F5 no gauchismo que você precisa

 

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