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Literatura13/08/2017 | 13h01Atualizada em 13/08/2017 | 13h01

Professor da UFSM escreve sobre nova biografia do eterno beatle

Em outubro, Paul McCartney desembarca em Porto Alegre para show. Confira possível set list da apresentação

Professor da UFSM escreve sobre nova biografia do eterno beatle Marcos Hermes/Banco de Dados
Foto: Marcos Hermes / Banco de Dados

Por Rogério Koff, professor da UFSM

"Podemos entrar e falar com vocês?", perguntou o jovem repórter de 22 anos para o não menos jovem beatle.

"Claro", respondeu gentilmente Paul McCartney. No camarim, 45 minutos antes da apresentação dos Beatles no City Hall de Newcastle, norte da Inglaterra, o músico apresentou ao repórter seu baixo Hofner em forma de violino e disse: "É bem leve. Custou 52 guinéus. Eu sou mão de vaca, sabe". Aqueles momentos na noite de 4 de dezembro de 1965 ficariam para sempre na memória do jornalista.

Cinquenta anos se passaram sem que os dois se encontrassem novamente. Na condição de crítico de rock de diversas publicações conceituadas, Philip Norman teve outras oportunidades de conversar com Paul, mas isso nunca aconteceu. Se o escritor tinha uma imagem a respeito do músico, a recíproca era verdadeira. 

Desde Shout, livro sobre os Beatles lançado em 1981, Norman recebeu o rótulo de biógrafo "anti-Paul" por suposta tendência de glorificação de John Lennon. Tenha o autor feito ou não por merecer, o próprio Paul detestou o livro, ao qual se referiu como "Shite" – um trocadilho também com "shit" (merda, em português).

Mas, no início de 2012, Norman (também autor de uma biografia de John Lennon) enviou um e-mail aos cuidados do relações públicas de McCartney dizendo que gostaria de escrever um livro sobre sua vida. Para sua surpresa, Paul concordou. O segundo encontro entre o jornalista e o músico ocorreu, finalmente, em 28 de maio de 2015, na Echo Arena de Liverpool – e, assim como naquela distante noite de 1965, momentos antes de um show. Desta vez, Paul não entraria no palco com os Beatles, mas com a banda que montou em 2002, a mesma que trará novamente ao Brasil este ano.

O desfecho feliz resultou no livro Paul McCartney – A Biografia (Companhia das Letras, 828págs, R$ 75, em média), lançado em junho passado no Brasil, no qual o leitor poderá conferir episódios como os descritos anteriormente.

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Apesar de algumas incorreções só percebidas pelo olhar de um entusiasta mais atento à história dos garotos de Liverpool, o trabalho de reconstrução de Norman é extraordinário. Ainda que Paul tenha dado seu aval e respondido por escrito a diversas indagações do pesquisador, não se pode dizer que este é um livro "frio", como geralmente são as biografias oficiais. 

Norman conserva sua independência ao ouvir tanto os amigos e admiradores de McCartney como também seus desafetos, presenteando os leitores com os óbvios e já conhecidos momentos de glória do ídolo, mas sem poupá-los de alguns de seus momentos mais sofridos ou mesmo constrangedores. Dentre os últimos está o difícil recomeço em carreira solo após a tumultuada separação da maior banda de todos os tempos, quando encarou as comparações com os primeiros trabalhos individuais de John Lennon e principalmente de George Harrison, com seu fantástico álbum triplo All Things Must Pass. 

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McCartney só voltaria a ser unanimidade de público e crítica com Band on the Run, no final de 1973. O disco foi o mais vendido na Inglaterra e arrancou elogios até de Lennon, seu fiel parceiro dos velhos tempos, mas cujas críticas no início dos anos 1970 mal conseguiam ocultar suas profundas mágoas em relação a Paul.

Escapando do lugar comum

Uma das virtudes do livro de Norman é sua capacidade de escapar dos lugares comuns nas manjadas narrativas sobre os Beatles. Paul é apresentado, com a devida justiça, como o baixista que "segurava a onda" no difícil começo da banda nos shows em inferninhos de Hamburgo e que não poupava críticas a seus companheiros. "Vocês são dois bostas", disse para Stuart Stutcliffe e Pete Best, pouco antes de assumir definitivamente o baixo naquela formação que ainda era um quinteto. 

Outro mito desmontado na biografia é o de que Paul teria traído seus amigos ao anunciar, em 10 de abril de 1970, que estava deixando os Beatles. Não foi apenas Yoko Ono, levada por John a contragosto dos demais Beatles para o estúdio de gravação, a gota d'água que decretou o fim da banda. A culpa também não recai sobre Linda, com quem Paul casou em março de 1969. Enfim, a história faz justiça para as duas mulheres.

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Quem paga a conta da desgraça é o empresário Allen Klein, praticamente imposto por John, contra a vontade de Paul, em 1969. Klein tentou adiar a data de estreia do primeiro disco solo de Paul para que este não concorresse com o tardio Let it Be (o último disco lançado, embora não o último a ser gravado pelos Beatles). Para maior desgosto de McCartney, Klein ainda chamou o produtor Phil Spector, que fez alterações nas versões originais de The Long and Winding Road e da música que deu nome ao álbum derradeiro. Paul reconheceu que, além de estar afastado do comando, era voto vencido no grupo. Só restava a ele sair.

Philip Norman também recusa os extremos. Sua narrativa sóbria não faz relações públicas para Paul, mas não cede à tentação de dobrar a esquina oposta, em direção ao sensacionalismo barato. Os momentos difíceis do ex-beatle são narrados de forma honesta, mas sem os "temperos" desnecessários que os tabloides britânicos adoram. Exemplo disso é o relato da prisão no aeroporto de Tóquio por porte de maconha, em janeiro de 1980. Paul ficou nove dias preso e a turnê no Japão acabou cancelada, apesar dos cerca de 100 mil ingressos vendidos por antecipação. O fato acelerou o colapso dos Wings.

Os anos 1980 não foram os mais brilhantes na carreira solo, embora o disco Tug of War, de 1982, tenha garantido os primeiros lugares nos Estados Unidos e na Inglaterra. Mas o final da década reservou Flowers in the Dirt, um álbum em que a parceria com Elvis Costello se revelou profícua e garantiu o gás necessário para o retorno triunfal aos palcos. A turnê que passou pelo Brasil em 1990 colocou Paul McCartney no livro dos recordes. Foram 183 mil pessoas no Maracanã, a maior multidão já registrada em um estádio.

Vida pessoal e superação

Foto: Banco de Dados / Banco de Dados

O dia 17 de abril de 1998 certamente foi o mais triste da vida de Paul. Linda, a mulher com quem esteve casado por 29 anos, morria de câncer. Mais tarde veio o casamento com Heather Mills, a modelo que havia perdido uma perna em um acidente e que se autodenominava "a celebridade beneficente mais famosa da Grã-Bretanha". Diferentemente dos dias de paz e amor com Linda, a união com Heather acabou em separação tumultuada e uma constrangedora e inédita lavagem de roupa suja nos tribunais, devidamente repercutida pela mídia.

Como sempre, Paul McCartney encontrou a superação dos dias difíceis na força de seu próprio talento. Continuou lançando trabalhos, em especial o belo Chaos and Creation in the Backyard, de 2005. De volta às apresentações ao vivo, reuniu multidões nos Estados Unidos e na Europa nos primeiros anos do novo milênio. A partir de 2010, retornou com novos concertos no Brasil.

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O livro de Philip Norman captura aquele que constitui o dilema fundamental de seu biografado. A cada novo desafio, o autor das imortais Penny Lane, Eleanor Rigby e Yesterday (a música mais executada de todos os tempos) parece estar competindo com ninguém menos do que ele próprio. É irônico que as críticas feitas a seus novos trabalhos dificilmente escapem das comparações com obras que ele mesmo realizou nos Beatles. 

Então, é Paul contra Paul. Qual deles é o melhor? O do passado ou o da atualidade? 

O menino criado em um bairro operário de Liverpool, o jovem de vinte e poucos anos cuja parceria com Lennon colocou o mundo da música a seus pés? Ou quem sabe o septuagenário que tem título de "Sir", que não se cansa dos shows e hoje é o embaixador mundial da música dos Beatles no século XXI?

Na estrada do sucesso, Paul McCartney hoje é sua própria medida. Ou sua própria sombra. Aos 75 anos (completados no último 18 de junho), está casado pela terceira vez e agora parece feliz. Um novo disco de inéditas está a caminho. Ao pisar nos palcos brasileiros outra vez, em outubro, Paul talvez possa alterar sutilmente a letra da música que imortalizou e finalmente cantar: "There¿s no shadow hanging over me". 

Em terras gaúchas, outra vez

Para alegria de todos, Paul McCartney está de volta aos shows. O "braço" brasileiro da turnê One on One tem início em Porto Alegre, no dia 13 de outubro. A banda é a mesma que o acompanha desde 2002: Rusty Anderson (guitarras), Brian Ray (guitarras e baixo), Paul "Wix" Wickens (teclados) e Abe Laboriel Jr. (bateria). Paul desfila os sucessos dos Beatles e de sua carreira solo, embora apresente diversas novidades em relação à turnê Up and Coming Tour, de 2010. A abertura, com A Hard Day¿s Night, é para não deixar dúvidas: é um Beatle que está no palco.Confira a seguir as músicas da apresentação mais recente de Paul, no Hollywood Casino em Tinley Park, em Illinois (EUA), no final do mês passado. É o provável set list do Brasil:

1) A Hard Day¿s Night
2) Junior¿s Farm
3) Can¿t Buy Me Love
4) Jet
5) Temporary Secretary
6) Let Me Roll It
7) I¿ve Got a Feeling
8) My Valentine
9) Nineteen Hundred and Eighty-Five
10) Maybe I¿m Amazed
11) We Can Work It Out 
12) In Spite of All Danger
13) You Won¿t See Me
14) Love Me Do 
15) And I Love Her
16) Blackbird
17) Here Today
18) Queenie Eye
19) New
20) The Fool on the Hill
21) Lady Madonna
22) FourFive Seconds
23) Eleanor Rigby
24) I Wanna Be Your Man
25) Being for the Benefit of Mr. Kite
26) Something
27) Ob-La-Di, Ob-La-Da
28) Band on the Run 
29) Back in the URSS 
30) Let it Be 
31) Live and Let Die 
32) Hey Jude 

BIS
33) Yesterday 
34) Sgt. Pepper¿s Lonely Hearts Club Band 
35) Hi, hi, hi 
36) Get Back 
37) Golden Slumbers 
38) Carry that Weight 
39) The End

 

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