Por que fazer teatro hoje em dia? - Cultura e Lazer - Diário

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Coluna Cultura14/07/2017 | 14h01Atualizada em 14/07/2017 | 14h01

Por que fazer teatro hoje em dia?

Com muitos ??? e algumas conclusões, colunista propõe pensarmos em questões como o teatro em tempos de vídeos no youtube. As respostas são lições para a vida


Foto: Arquivo Pessoal/ Leonardo Roat / Arquivo pessoal

Todos os anos, por sorte (e por um tanto de insistência) eu tenho feito teatro. Ao menos, um novo espetáculo e um bom punhado de apresentações de outros que estão no "repertório".

Já pensei, li, criei, encenei, apresentei teatro nos mais diversos lugares nos últimos 20 anos. Edifícios muito bem estruturados para receber um espetáculo; ruas e lugares inusitados e sem o mínimo de condições.

Tanta diversidade de espaços e experiências sempre levou meus amigos e conhecidos de profissão, e eu mesmo, na direção de alguns questionamentos. Desde coisas corriqueiras até questões mais amplas como, a vida dedicada à arte, a relação da arte (e nossa de artistas) com o público, os muitos aspectos que vivemos nos palcos e fora deles.

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Mas uma pergunta vai e vem à medida que se avança no tempo. Ela volta, e te invade, mesmo que sorrateiramente, os pensamentos. E ela é essencial de sempre ser feita e respondida com a maior sinceridade possível: Por que fazer teatro hoje?

A resposta já veio com paixão porque é o que amo e não vivo sem minha arte. Mas, também, já levou a momentos de parada e quase completo abandono, quando fiquei quase um ano inteiro sem fazer teatro, simplesmente porque não via mais sentido naquela ação naquele determinado momento.

E essa "simples" pergunta sempre vem acompanhada de seus desdobramentos. Qual a importância do artista cênico?
De verdade, qual a importância desse tipo de artista em um mundo cada vez mais medicado por tecnologia? (E olha que amo e trabalho com tecnologia também).

Que diferença pode fazer um espetáculo que impacta no máximo 400 pessoas por vez, enquanto um vídeo no Facebook, Youtube, Twitter ou Instagram impactam dezenas de milhares?

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Eu comecei fazendo teatro no colégio, como diversão, como fantasia e brincadeira. Como outra parte de mim que não cabia nem no esporte nem nos estudos ou na poesia. Comecei porque ali haviam mundos que quero conhecer, criar e viver. 

Quando escolhi o teatro para vida, via nele a possibilidade de comunicação e de diálogo com outros humanos. E, através desses, a possibilidade da mudança de pensamentos e atitudes na vida e na relação com os outros. E, quem sabe assim, a "construção de um mundo melhor?"

Não que ainda não enxergue todas essas possibilidades na arte dos palcos, e meus amigos de cena estão aí para reafirmar muitas dessas coisas. Mas, acho que como os tempos são outros, ou talvez pelo tempo e experiências que vivi entre coxias e refletores, as respostas ou impulsos para continuar sejam outras.

 Escrevo esse desabafo para que, sinceramente, abram-se os diálogos sobre o porquê de ainda fazer uma arte que, quase sempre, está a morrer, mas nunca some da face da Terra.

Minha tentativa de resposta pode não ser tão clara, mas preciso compartilhá-la com vocês, com tantas pessoas do ofício. Abrir novamente uma discussão que nos tire do lado raso e das ligeirezas da vida.

Leonardo Roat (à frente), em cena Foto: Leonardo Roat / Arquivo pessoal

Fazer teatro hoje em dia é acreditar que você (que no teatro: ator, dramaturgo, diretor, técnico) é um ser humano que deseja mudanças.

Fazer teatro hoje em dia é para poder escolher, decidir sobre o que te toca, quais discursos você quer pensar sobre, quais sentimentos e reflexões você quer fazer. Para que você (e não os outros) seja transformado.

É escolher em você mesmo lugares fundamentais para conhecer-se e trabalhar-se. É resistir, criar força, criar filtro e inteligência frente a quantidade de informações que nos consomem diariamente.

Fazer teatro hoje em dia é cultivar consciência de si e dos outros. É atentar que seu olhar é só mais um e nem sempre (e geralmente não é especial). É perceber que ainda é possível emocionar-se com o que descobrimos por meio do outro, visto que textos de 2 mil anos atrás, escritos em língua estranha, e do outro lado do planeta, ainda comovem e apaixonam.

Fazer teatro hoje em dia é reconhecer que só ao percorrer esse caminho é que, quem sabe, poderemos ser mais ativos e conscientes para buscar uma relação sincera com o outro.

Fazer teatro é encontro, consigo e com o outro. Sim, esse espectador, ativo, que tanto nos olha e tanto nos fala, quando olhamos e falamos com ele.

Fazer teatro hoje em dia é criar possibilidades.

É se expor, é aprender a dizer "não sei".

Fazer teatro hoje em dia é alimentar almas e ser alimentado por e com elas.

É sonhar. Às vezes muito desejar, pouco conseguir e ainda assim almejar que, quem sabe alguém (algum daqueles poucos que te viram) consiga fazer coisas melhores para o mundo que você e seus amigos conseguiram fazer.

Fazer teatro hoje em dia é mais perguntar que responder.

Pois isso, peço a quem desejar ou conseguir, releia o texto transformando as "respostas" que escrevi em perguntas. Coloque interrogação quando lhe parecer conveniente ou ao final de cada frase. Acredito que elas farão mais sentido como perguntas.


Foto: Arquivo Pessoal/ Leonardo Roat / Arquivo pessoal

Esse texto foi minha pequena tentativa, como avisei, de responder a uma pergunta que sempre seguirá. Tenham a certeza que ela sempre acompanhou e acompanhará quem escolher pra vida a ação de acionar forças imaginárias para se conectar com o outro e contar histórias.

Acredito que talvez até Shakespeare tenha se feito essa pergunta em seus tempos de "nobre ofício". E como diria o bardo inglês: 

"Perdoem os mesquinhos espíritos que ousaram neste humilde tablado apresentar tema tão grande".
(Trecho do prólogo de Henrique V, de Shakespeare)


Sigamos! Até o próximo encontro.


 

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