8 devaneios de um artista na estrada... mais uma vez - Cultura e Lazer - Diário

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Coluna de Cultura15/06/2017 | 15h09Atualizada em 18/06/2017 | 14h22

8 devaneios de um artista na estrada... mais uma vez

texto remixado de pensamentos, escritas antigas e novas, e coisas que li nesse entremeio

Foto: Leonardo Roat / Arquivo pessoal

1. O que irei falar talvez não desperte muitas curiosidades. Afinal, há coisas que não são para se perceberem. Essa é uma delas. Tenho coisas para dizer e não sei como hei de dizê-las. Muito do que se segue pode ser, por isso, incompreensível. A culpa é minha. O que for incompreensível não é mesmo para se perceber.
Não é por falta de clareza. Tentarei ser muito claro. Às vezes, clareza e objetividade são primas distantes. Eu próprio (por várias vezes) percebo pouco do que tenho para dizer. Mas tenho de dizê-lo.
O que quero é fazer o elogio das finitudes da vida. Pois, a vida não é uma linha reta, e o material nas linhas que seguem voltam à memória a todo momento; somente a ordem é embaralhada, e o equilíbrio desloca-se.
E os escritos de hoje foram arquitetados dentro do carro. Entre curvas na estrada, camas de hotéis, restaurantes estranhos, risadas e momentos de silêncio. 
PAUSA NO TEXTO PARA UMA REFLEXÃO SIMPLES, MAS NÃO TÃO ÓBVIA.
É muito satisfatório quando um grupo de pessoas consegue viajar em silêncio juntas, sem som e sem ter nenhum clima de tensão no ar. Simplesmente juntas, em silêncio, viajando, entre asfalto e pensamentos. Tentem, não se arrependerão. 


Foto: Leonardo Roat / Arquivo pessoal

2. Voltando¿
Escrevo na estrada, em mais um início de turnê.
Escrevo por causa de mais um início de turnê.
Ou talvez por saudades.
Saudades de muitas coisas.
A estrada tem disso, te faz pensar, te faz dar valor, ao novo e, principalmente, ao que você tem.
Ano passado, viajei mais ou menos 150 dias. Inúmeras apresentações, gravações, em cidades diferentes, conheci pessoas, e passei por inúmeras experiências. Ri. Chorei. Cantei. Fui ombro amigo e desabafei.
Me despedi de minha avó de forma tão próxima estando tão distante. 



Foto: Leonardo Roat / Arquivo pessoal

3. Nunca nos falaram na faculdade como era a vida de artista que vive na estrada.
É monta e desmonta cenário todo dia. É um não dorme direito. É um viver entre organizar outros projetos enquanto tenta tocar um.
Nunca nos falaram que faria tão mal e tão bem repetir inúmeras vezes em alto e bom som: "não aguento mais fazer a mesma coisa".
Nunca nos falaram que seria tão bom poder discordar e ouvir opiniões diversas, e discutir política, sair do comum, e brigar pra ter estrutura melhor para se apresentar. Porque não é somente o público das grandes cidades que merece respeito.
Nunca nos disseram que sempre iríamos desistir de desistir ao ouvir as risadas de crianças.
Ver a vida, os tempos dela e do amadurecimento da arte refletidos pela janela do carro que percorre os pampas e os rios, mudar vidas. Muda a sua vida, nem que você não queira.  ...    



Foto: Leonardo Roat / Arquivo pessoal

4. Na estrada você forma uma família com quem viaja contigo.
E fica muito sozinho, mesmo estando com mais de mil pessoas ao seu redor.
Você acredita que houve um tempo onde acreditar bastava.
Afinal, acreditar era mais do que suficiente para ser. (Ser o quê?)
Você acredita que, quem sabe, já houve um tempo em que você acreditava que acreditar era mais do que suficiente para ser, o que eu acreditava (ou esperava) ser.
Mas hoje¿ Não.
Desacreditar talvez seja o único jeito de ser aquilo que um dia acreditou que pudesse ser.
E sabe quem te diz isso? O reflexo dos espelhos, das janelas, dos elevadores.
Haverá um tempo (Hoje? Ou na próxima noite? Na próxima apresentação?) onde acreditar ou não acreditar sobre qualquer coisa façam diferença?
Talvez.
Mas, será preciso reaprender (De novo? Mas a vida não é assim?) e mudar o olhar.
Dar imagens a outros olhos.
Esses outros olhos verão o mundo diferente.
Outros olhos; nãos os meus, tentarão.
Outros olhos morrerão.
Outros olhos conseguirão. 



Foto: Leonardo Roat / Arquivo pessoal

5. A verdade é que a arte, a estrada, a vida, e os amigos das crenças e descrenças nesta loucura (aqueles mesmos que queriam se formar logo e meter o pé na estrada com você), também não estavam preparados para tudo o que acontece em tanta quilometragem.
Seriam necessários infinitos caminhos pra alcançar um "lá", seja "lá" o que for, minimamente satisfatório.
Mentira!!!
O senso comum da conversa no carro acabou prevalecendo e mostrou que ninguém é mais do que uma partícula transitória dentro de uma humanidade que luta, tateia, levanta-se e cai infinitamente, em busca de um "lá" que, mesmo em todo o curso futuro da história humana, pode nunca ser conhecido.
Sendo assim o dia em que me tornei eu aconteceu como um dia qualquer.
Não fiz coisa alguma, e apenas percebi que seria sempre um escravo cardíaco das estrelas.
E decidi seguir entre poemas póstumos e amores recém-nascidos.
E decidi seguir navegando rumo ao pórtico para o impossível.
Decidi seguir compartilhando sorrisos, colhendo lágrimas, trocando confidências, esbravejando sem sentido contra coisas que não posso controlar.
Decidi que seguirei me reconfortando nos poucos minutos de telefone ou Whatsapp, para tentar resistir à saudade, e para agradecer à compreensão de quem sabe que esse é o meu jeito de tentar transformar o mundo.
Desculpem, pelos transtornos das ausências. 



Camarim? sim, várias vezes é assim. ( heheheheeh) Foto: Leonardo Roat / Arquivo pessoal

6. E Obrigado, pelo amor.
Não é fácil estar longe de vocês.
Levo o amor de todos em cada momento de palco ou set de gravação.
Obrigado por entender que é difícil levantar-se e lutar pelo que é certo e ainda assim sobreviver.
É difícil definir certo e errado quando toda a objetividade se foi.
Afinal; do primeiro segundo à última nota,
do primeiro beijo à última tentação
nossa habilidade de viver está ligada ao real;
mas a de sobreviver...ao sonho.   



Foto: Leonardo Roat / Arquivo pessoal

7. Agora vou me organizar, já vai começar mais um monta e desmonta de cenário.Vou lá que agora, é hora de espetáculo infantil.
É hora de redescobrir na finitude da vida, a beleza do instante.
É hora de nos olhinhos vidrados nas novidades, e nos pezinhos que batem com a música, criar armadilhas inacabadas de aprisionar a eternidade.
Vou lá, que é hora de seguir nas tentativas de revelar fragmentos de mistério da existência humana.
E tanto faz se vou conseguir ou não, sei que vou sorrir junto com um monte de crianças.
E isso basta.
Os pensamentos na viagem me ensinaram isso. 



Foto: Leonardo Roat / Arquivo pessoal

8. Faço sempre um mesmo ritual, mesmo que timidamente (sem que quase ninguém veja).
Acredito que exista alguma força ou algo de valor nele, mesmo sem saber o porquê.
E desejo compartilhar com vocês o que aprendi em um livro, de um artista pelas suas andanças da vida.
"Em um vilarejo africano, quando um contador de histórias chega ao fim de sua fábula, ele coloca a palma da sua mão no chão e diz: Eu coloco a minha história aqui".
Então acrescenta: "Para que uma outra pessoa possa continuá-la em um outro dia".  

Sigamos. Ainda temos muito a compartilhar.

 

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