Negra Essência VIVA! Não está na hora de Santa Maria ter mais espaço? - Cultura e Lazer - Diário

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Coluna Cultura12/05/2017 | 13h37Atualizada em 15/05/2017 | 08h29

Negra Essência VIVA! Não está na hora de Santa Maria ter mais espaço?

Colunista conta experiência da Casa de Cultura Mário Quintana, que destinou uma data fixa para espetáculos da cultura negra. E mais: fala sobre a produção local e novidades que vêm por aí

No último dia 19 de abril, fui conferir  o espetáculo Aláfia - Caminhos e Encruzilhadas, na Casa de Cultura Mário Quintana, em Porto Alegre. Teatro Bruno Kiefer lotado para receber o espetáculo músical/performance.

FOTO: Mauro Bruno Ourique/ Cenas do Aláfia - Caminhos e Encruzilhadas Foto: Deborah Rosa / Divulgação

Achei muito interessante a ação do Quilombo Quintana. Criada pelo Coletivo Montigente, que tem como objetivo apresentar todo mês um espetáculo protagonizado por artistas negros nos teatros da Casa de Cultura Mário Quintana. 

Cenas do Aláfia - Caminhos e Encruzilhadas Foto: Deborah Rosa / Divulgação

Com direção de John Conceição, a peça utiliza a dramaturgia musico-poética autoral para falar de negritude, resistência e ancestralidade, abrindo possibilidade de debate, construção e transformação. Vendo através de Bará, a encruzilhada como lugar de possibilidade e não de indecisão. O dono dos caminhos refletindo a vida e suas transformações.

Falando de um Brasil negro, que luta pra sobreviver ao genocídio diário e à invisibilidade, a luta contra o desrespeito. Caminhos e encruzilhada é uma obra que anuncia e denuncia o racismo, evidência a reexistência negra e a descolonização do pensamento.

Um espetáculo  vivo, forte em músicalidade e atuação rica de John Conceição, Bruno Amaral, Lucas Carvalho e Dhii Neques.

FOTO: Mauro Bruno Ourique/ Cenas do Aláfia - Caminhos e Encruzilhadas Foto: Deborah Rosa / Divulgação

Confere um momento aí: 


Encantada e imersa no espetáculo cheio de questionamentos pensei em Santa Maria? Nossa produção de arte e cultura negra, como está?

Com certeza, atuante e representada por nossos coletivos; como o Negressencia.  De pronto troquei uma ideia com a linda Jaíne Barcellos (sim, merece o adjetivo!)

Espetáculo do coletivo Negressencia Foto: Divulgação / Divulgação

Coletivo que se iniciou através de uma bolsa para artistas e produtores negros da Funarte, em dezembro de 2015, com a intenção de produzir um espetáculo que falasse sobre as mulheres negras gaúchas. Após o termino do período vigente da bolsa os artistas envolvidos abriram uma articulação para manter o coletivo e expandir o seu trabalho.

Hoje, com 4 espetáculos:

1) O sob a pele, direção da Lenora Gonsales
2) O negressencia: mulheres cujos filhos são peixes e Peixes Urbanos e suas encruzilhadas, ambos com direção do Manoel Luthiere
3) O espetáculo A coisa Tá Preta, com direção de Jaíne Barcellos. 

Além dos espetáculos de arte os membros do coletivos estão em constante estudo sobre a cultura negra gerando: aulas de danças, oficinas de expressão e emponderamento, e palestras sobre a temática negra, e vivências sobre arte de maneira geral.

_ Com o objetivo de fomentar o (nosso) protagonismo nas áreas das artes da cena. Queremos montar iluminação,colocar linóleo, limpar o chão e em seguida dançar nele, encenar nossas histórias, ocupar esse lugar que sempre nos foi negado, mas que só existe em detrimento do nosso trabalho. Queremos compartilhar um pouco de nós, que é sem dúvida é um pouco de outros tantos que vieram antes de nós _  diz Jaine.

"Nosso objetivo não é só um, são vários. Também queremos escrever sobre Dança, teatro e Performance negra! Não queremos apenas ser objeto de estudo de ninguém, somos artistas, professores, pesquisadores, estudantes (de diversas áreas, farmácia, dança-licenciatura, teatro) somos muitos, entre isso também somos produtores do nosso próprio trabalho", reafirma.

O coletivo trabalha com o conceito ODARA (palavra Yorubá) que define uma ideia de estética para o povo Nagô. Odara significa recorrer a diversos códigos e linguagens para organizar o ritual/performance onde o corpo é o centro.

É o que acontece no Carnaval (música, fantasia, corpo negro, poesia no samba enredo...), roda de capoeira (canto, dança?,luta?, mandinga? trajes? códigos corporais)
 
_ No nosso caso, no momento da criação, não nos limitamos a ser apenas bailarinos, exploramos nossas potencias sonoro-vocais, ou nossa poeticidade, ou mesmo nossa possibilidade de criar e recriar nossas histórias e movimentos. Não nos rotulamos como coletivo de dança, ou de teatro, ou de dança-teatro, somos um coletivo de artistas negros. Produzimos cenários, vestimentas, músicas, poesias, expressões  visuais _ diz Jaine.

Que reconhecem no contexto do povo preto, afro-brasileiro, recursos suficientes que dão conta do entendimento de arte preta. Muitas, dona de muitas identidades e possibilidades, entre-lugar de nós!

Uma loucura, queridos leitores!


NOVOS ESPETÁCULOS

Neste mês, em Santa Cruz do Sul, a convite da Sociedade Cultural e Beneficente União (clube negro quase centenário), estreou o espetáculo A COISA TA PRETA! dirigida por Jaíne Barcellos, que trás como tema central a arte periférica, é a segunda vez que o coletivo vai a esse clube, e a energia é sempre renovadora!

_ Sempre o calor do abraço nos deixa muito feliz. O simples fato de estar circulando fora de Santa Maria nos deixa muito feliz por estar conseguindo caminhar com nossas produções _ afirma Jaíne.

Um grande diferencial do coletivo negressencia é esse papel de também apoiar as pesquisas e produções individuais daqueles que o integram. 

Quem quiser conferir, no próximo dia 25 de junho, estreia o espetáculo PEIXES URBANOS E SUAS ENCRUZILHADAS no Palco 13, também no Theatro Treze de Maio.

Aí tem um pouco dessa gente linda: 


REFLEXÕES

Surgem outros questionamentos a mente. Que maravilha um espaço público na Capital disponibilizar em sua agenda uma data "obrigatória" de visibilidade e fomento a produção de "arte negra". Com tanta qualidade e produção, não estaria na hora de Santa Maria pensar algo por esse caminho?

Ambos os projetos batem de frente com o preconceito, justamente, ao explorá-lo enquanto fonte de inspiração, ao levar aos palcos tanto requinte de concepção, apuro na produção e resultados magníficos de execução.

"Ih, isso é coisa de nego!"... e como o é!!! Forte, resistente, resiliente...ARTE na mais pura essencia!...

"ih, tu é tão branco pra ver essa negrice toda?"...

PENA! te convido a se despir de pré-conceitos, de orgulhos tolos e ver de perto essa produção toda  _ até mesmo para não curti-la na sequência, mas aí não por ser da "negrada", mas por questões estéticas que não encontram eco em tua alma!

Não está na hora da produção artística negra do interior (leia-se Santa Maria por exemplo) ganhar mais espaços?

...

Sem esquecer, o Treze de Maio...

ADOREI AS ALMAS, AS ALMAS ADOREI"! SALVE OS PRETOS DA CASA!

 

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