Jogo na poesia - Cultura e Lazer - Diário

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Coluna Cultura19/05/2017 | 13h38Atualizada em 22/05/2017 | 14h00

Jogo na poesia

Em texto emocionante, colunista conta como foi um (re)encontro de meninos na feira do livro

Sabe aquela distinção entre quente e frio? 
Doce e salgado? 
Exatas e Humanas? 
Teoria e prática? 
Poesia e futebol? 

Pois, eu conheci um garoto que não fazia a mínima separação entre essas coisas. Ele tinha aproximadamente 8 anos. Como ele não sabia, ou não se importava, com o que os outros diziam, de como as coisas deveriam ser, ele misturava tudo.           

Na comida, bolacha champagne era degustada com catchup, sorvete com salgadinho, salame com doce de leite, pepino em conserva com chocolate, e o sanduíche era de açúcar com pipoca salgada. 

No colégio, na aula de matemática, quando chamado ao quadro pelo professor, usava as letras da equação para criar frases. Respondendo aos cálculos com português, e bom humor. O professor ria, e resolviam a equação juntos após a brincadeira. Afinal, ele também se divertia com números.

Sua rotina me parecia interessante. Acordava e preparava a mochila. Livros e cadernos das aulas, um brinquedo, chuteira, calção, e mais os livros de poesia para devolver à biblioteca do colégio. Após o café da manhã, de suas misturebas gastronômicas, caminhava até a escola brincando pelas linhas das calçadas e com os objetos que encontrava no chão. Para ele, cada item espalhado pela rua era peça de um possível robô, que ele poderia montar. 

As coisas mais desconexas, em seu olhar, conectavam-se além do óbvio. Por vezes, neste caminho, pegava-se pensando em respostas para a pergunta: "O que você vai ser quando crescer?", sempre feita por uma de suas tias. As possibilidades eram diversas, desde astronauta, fazedor de robôs, jogador de futebol, escritor, aventureiro e até testador de coisas (entenda-se coisas por invenções). A tia, quando ouvia as ideias do pequeno, dizia que ele "não queria ficar preso" ou ter um trabalho muito limitado. E que com o tempo encontraria o que seria.

Foto: Divulgação / Pixabay

No turno inverso das aulas, o rapazinho também gastava seu tempo na escola, revezando entre treinos de futebol e horas na biblioteca. Foi pelas prateleiras do acervo que conheceu os mais variados tipos de poesia.

Ele, sim, julgava os livros pela capa, ou melhor, pela lateral das capas em exposição. Escolhia o que iria ler pelo o que o título da obra suscitava em sua imaginação. E, assim, descobriu parnasianismo, poesia concreta, romantismo, sonetos. E, apaixonou-se por Camões, Fernando Pessoa e Manoel de Barros.

Depois de horas de leitura, corria para o campo do colégio e treinava seu esporte paixão, que também é paixão nacional. Quando fazia o caminho "inverso", treinava e depois ia na biblioteca, ainda fardado, para perambular, de chuteiras, pelos corredores literários.

Com incentivo da bibliotecária, sempre levava uma obra ou duas para casa. Quase sempre livros de poesia. Nem ela estranhava mais o atleta na poesia. Nem seus companheiros de campo achavam estranho vê-lo, em viagens para campeonatos, lendo poemas. Todos passaram a aceitar que o mundo dele era um mundo possível, mesmo que as pessoas geralmente separem as coisas.       

E o menino, pelo que fiquei sabendo, cresceu assim. Misturando coisas, vendo possibilidades e conexões entre áreas e objetos. Pois nunca fez sentido para ele que as coisas não pudessem ser combinadas, recombinadas, remixadas.            

Ouvi que, anos mais tarde, ele ainda jogava futebol e cursava faculdade de Artes.

E, apesar de sua família ter tradição na vida esportiva, e de ele mesmo ter sido convocado para treinar em algumas categorias de base de times reconhecidos no Brasil, optou pelo mundo artístico.

Reencontrei esse menino na semana passada, aqui em Santa Maria, na Feira do Livro. Estava olhando atentamente um livro de poesia. Nos falamos rapidamente sobre algumas coisas da vida, sobre nossas misturebas, sobre como o tempo passa rápido, e como continuamos parecidos. Usávamos inclusive a mesma roupa.

Livros comprados em Feiras do Livro Foto: Leo Roat / Arquivo Pessoal

Não me contive, e perguntei o que ele responderia agora, já no "alto" de seus trinta e tantos anos, caso sua tia lhe perguntasse o que ele foi, ou está sendo na vida. Ele me respondeu que, tempos atrás, descobriu nas páginas de poesia, mais especificamente em Manoel de Barros, que sempre fora e seria "um menino que carrega água na peneira".           

Fiquei perplexo com sua resposta. Mas, me compreendi. Foi desse modo, que caminhando pela Feira do Livro, me lembrei das minhas histórias de infância. Me presenteei com outro livro de poesia (de Manoel de Barros), comi sorvete com salgadinho e mandei um WhatsApp.           

_  Tia, lembra quando você perguntava: o que você vai ser quando crescer?
Eu sou "um menino que carrega água na peneira".           

Hoje, sigo conectando e misturando coisas, não somente gastronômicas, mas teatro com tecnologia,  cálculos com arte, comunicação com neurociência, e por aí vai. Hoje, sigo sendo o menino das misturebas, e que com orgulho carrega água na peneira.  


O menino que carregava água na peneira


Tenho um livro sobre águas e meninos.
Gostei mais de um menino que
carregava água na peneira.

A mãe disse que carregar água na peneira
era o mesmo que roubar um vento e
sair correndo com ele para mostrar aos irmãos.

A mãe disse que era o mesmo que
catar espinhos na água.
O mesmo que criar peixes no bolso.

O menino era ligado em despropósitos.
Quis montar os alicerces
de uma casa sobre orvalhos.

A mãe reparou que o menino
gostava mais do vazio, do que do cheio.
Falava que vazios são maiores e até infinitos.

Com o tempo aquele menino
que era cismado e esquisito,
porque gostava de carregar água na peneira.

Com o tempo descobriu que
escrever seria o mesmo que carregar água na peneira.

No escrever o menino viu que
era capaz de ser noviça,
monge ou mendigo ao mesmo tempo.

O menino aprendeu a usar as palavras.
Viu que podia fazer peraltagens com as palavras.
E começou a fazer peraltagens.

Foi capaz de modificar a tarde botando uma chuva nela.
O menino fazia prodígios.
Até fez uma pedra dar flor.

A mãe reparava o menino com ternura.
A mãe falou: Meu filho você vai ser poeta!
Você vai carregar água na peneira a vida toda.

Você vai encher os vazios
com as suas peraltagens,
e algumas pessoas vão te amar por seus despropósitos!


(Manoel de Barros)

Leonardo Roat ainda menino Foto: Leo Roat / Arquivo Pessoal

P.S. 1- Obrigado, Feira do Livro, pela possibilidade do encontro com aquele menino!

P.S. 2 - Eventos, tais como a Feira do Livro, são essenciais em nossa cidade. Precisamos de mais, muito mais cultura e arte, para que meninos e meninas (de todas as idades) sigam enchendo a vida com suas peraltagens e seus despropósitos.

 
 

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