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Opinião11/03/2017 | 13h34Atualizada em 11/03/2017 | 13h34

Moda e (é) comunicação

Colunista Camila Marques aborda a Moda como instrumento de comunicação ideológica e cita vários exemplos ao longo do tempo

Todos já vimos ou ouvimos, ao menos uma vez, alguém ser "rotulado" apenas por sua aparência, certo? Já é senso comum que a moda - e seus elementos (roupas, calçados, acessórios, penteados) - classificam, mas também servem como forma de se comunicar pertencimento

Na coluna passada, eu ampliei um pouco o conceito para além de "roupas que são a tendência da última estação", né? Pois é, na moda, o simplismo não funciona: ela pode ser arte e comércio; pode estar presente na seleção cotidiana do que se veste todas as manhãs ou no mais cuidadoso e pensado look de uma blogueira influencer; pode ser espelho socioeconômico e também traço cultural.

Os estudos sobre o tema tiveram seu início apenas no final do século XIX e início do século XX, geralmente do ponto de vista do consumo conspícuo ou da distinção. Foi somente no início do século XXI, com abordagens mais filosóficas e sociológicas, que a visão diferenciadora socioeconômica da moda passou a dar lugar ao caráter social que acompanha suas manifestações.

Diversos autores passam a estudar o estilo, as subculturas, os movimentos anti-moda e as relações entre consumo e comunicação/constituição de identidades, disseminando assim reflexões sobre o grande paradoxo da moda: a vontade de um estilo único e diferenciado e a necessidade de pertencimento a determinado coletivo.

Pra quem tem interesse no assunto, vale a leitura do livro Moda e Comunicação, de Malcolm Barnard (2003) e Mídia Radical, de John Downing (2001), que concebe a roupa como uma mídia alternativa e forma legítima de expressão das culturas populares de oposição e/ou resistência.

Como exemplo, cita os trajes maias utilizados na Guatemala durante a repressão militar, as colchas confeccionadas durante a escravidão nos Estados Unidos, os bottons ou broches de lapela contendo mensagens de cunho político usados nos anos 1970 e o estilo de vestir e se pentear de jovens negros na década de 1960, como os desenhos e símbolos recortados em X no couro-cabeludo, em homenagem a Malcolm X.

Os ternos zoot, utilizados geralmente no meio urbano por jovens negros e mexicanos nas décadas de 1930 e 1940 nos Estados Unidos, também eram uma forma de autoafirmação, autoestima e potência para esses sujeitos. Em junho de 1943, com o intuito de reprimirem a expressão identitária de uma minoria, soldados brancos _ e uniformizados _ cometeram uma série de agressões físicas e morais contra esses jovens. Esses ataques racistas, justificados pelo antipatriotismo e extravagância dos ternos zoot em tempos de guerra, ficaram conhecidos como as "rixas de zoot suits".

Foto: Arquivo pessoal / Arquivo pessoal
Foto: Arquivo pessoal / Arquivo pessoal
Foto: Arquivo pessoal / Arquivo pessoal

Esses são apenas alguns exemplos que nos mostram que a moda comunica e possui potencial ideológico que desfila muito distante da ideia do vestir como um ato despido de intenções. 

Se percebermos que seu caráter comunicacional está em primeiro plano, ampliamos nossos horizontes acerca do assunto e passamos a enxergar seu papel como dispositivo de expressão de gostos, sentimentos, ideias e ideais.

 

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