Desconectar para conectar: o que buscamos? - Cultura e Lazer - Diário

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Opinião07/03/2017 | 13h35Atualizada em 08/03/2017 | 08h51

Desconectar para conectar: o que buscamos?

Colunista  Andrewes Koltermann faz questionamentos sobre a nossa relação com a tecnologia e como usá-la para construir um mundo mais humano

Não queremos ser eficientes. Queremos ser eficazes. Queremos mobilidade, funcionalidade. Não queremos perder tempo. Não temos tempo a perder! Nunca tivemos. A gente nasceu querendo mais. Nossos pais nos criaram incutindo na gente a ideia de que devíamos aproveitar as oportunidades que eles não tiveram para sermos melhores.

Convertendo velhos vídeos, de VHS para DVD, ao rever passagens da adolescência me vi junto aos amigos ouvindo e cantando: "A gente não quer só comida. A gente quer comida, diversão e arte. A gente quer saída para qualquer parte."  

(sem permissão do colunista, tá aí o vídeo do Titãs, para os que viveram os anos 80 matarem a saudade e, para os que não viveram, curtirem essa banda incrível)

E a tecnologia nos deu essa saída. Nos deu, em tese, a tal eficácia e tanto mais. Achamos que ganhamos tempo. Afinal, como bem nos relatou recentemente o Iuri Lammel, a história atrelada à tecnologia revolucionou a nossa forma de viver. E tem tanto mais por vir, está aí o (pre)anúncio do futuro (na verdade, presente) da realidade virtual, muito bem feito por Cristiano dos Santos pra provar isso, entre outras coisas.

Mas eu fico me perguntando: o que a gente quer com tudo isso. Fico me perguntando sobre o futuro não como analista de sistemas, empreendedor ou professor. Me pergunto como pai, como vocês já puderam perceber na minha última coluna. Me pergunto como marido, como cidadão. Como um cara de 30 e tantos anos que brincava na rua na infância e não pode oportunizar o mesmo para o filho por ter medo.

E, quando eu tenho medo, sinto por tudo que a gente faz pra ter muito mais que comida, diversão e arte. Sinto muito por acharmos que encurtamos distâncias e potencializamos o tempo. Somos, por vezes (incontáveis vezes), uma comunhão (com o perdão da palavra) de idiotas. E desejo, fortemente, que não cheguemos a viver em uma ¿idiocracia¿, como no do filme de mais de 10 anos atrás. 

O filme retrata o futuro onde a sociedade aparece insensível ao meio ambiente, desprovida de curiosidade intelectual, responsabilidade social, e noções coerentes de justiça e direitos humanos Foto: filme divulgação / Divulgação

Vou explicar: Vivemos numa democracia (também tecnológica), mas nos esquecemos do exercício de cidadão. Esquecemos que o desenvolvimento deve projetar futuro, mas mais do que isso, o bem-estar social. Precisamos fazer dela (da tecnologia) alicerce para transformar realidades (nas próximas colunas vou abordar essa temática).

Fato é que, direta ou indiretamente, e diariamente, deixamo-nos levar pelos encantos da grande mãe (antes natureza, hoje tecnologia), a usufruímos, mas não a cuidamos. Tal e qual a gente, quando sai de casa: quantas vezes, afinal, no meio da correria, ainda ligamos pra mãe da gente pra dizer que a amamos ou para aproveitar tudo que ela ainda pode nos dar?

Como consultor, deparei com realidades empresariais diversas. Entre elas, investimentos mirabolantes em sistemas de gerenciamento com incontáveis funcionalidades e possibilidades que hoje nada mais são do que um novo lugar para os dados da antiga caderneta do armazém. Verdadeiros elefantes brancos.

E isso acontece porque a nossa cidade universitária, a capital da cultura, a cidade do conhecimento, precisa dar um passo atrás pra perceber os milhares à frente capaz de dar. Todos queremos ser mentores, não mentorados. Todos queremos conexão, presença, relevância e postura digital. Queremos automatizar. Queremos tempo, lembram? Somos doutores na argumentação da importância disso e tanto, afinal.

Mas precisamos ser honestos e falar sobre resultados. Aceite. Não são quantos likes tem sua foto. É o que ela diz sobre você, sobre a sua empresa. Não são quantos views teve seu vídeo. São quantas pessoas ela trouxe até você e seu negócio. Não são quantos dispositivos você usa. Mas o que eles fazem por ti, pela tua empresa.

Ao empresário local, seja de qual segmento econômico for e que estiver me dando a honra de ser lido, eu alerto: se teus fornecedores na seara de TI não falam em resultados efetivos, a tecnologia não será o seu milagre.

Eu tive a oportunidade de conferir o mais recente Fórum de Interatividade e Comunicação, em 2016, e eu aprendi (ou, confesso, fiquei feliz em confirmar e ao menos me certificar não estar louco) que a construção de engajamento através de conteúdo está mudando o cenário de negócios e das pessoas, todos à procura de construir credibilidade, influência e confiança.

Quem tem isso é feliz. Engajar não é curtir. Engajar não é fazer dos consumidores aficionados pela tecnologia que nos move. Eu estou falando de amor. De experiência. Se grandes players como Google, Buzzfeed, Spotify e várias start-ups bem sucedidas estão falando e ditando isso, por qual motivo por aqui insistimos em instrumento, plataformas e todo mais e esquecemos de algo primário e vital: as pessoas.

Numa reunião, nessa semana, um cliente passou a meta organizacional de 2017 para sua empresa: empatia. Isso me marcou demais. Empatia! Faculdade de compreender sentimentos e emoções. Precisamos desconectar pra nos conectarmos. Quando pararmos um pouco, perceberemos que queremos desenvolvimento, sim. Mas queremos mesmo é sermos felizes.

Até a próxima!

 

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