11 atos de um "samba-enredo" para falar de Carnaval. E outras coisas  - Cultura e Lazer - Diário

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Opinião24/02/2017 | 13h35Atualizada em 24/02/2017 | 13h35

11 atos de um "samba-enredo" para falar de Carnaval. E outras coisas 

Colunista de Cultura, Leo Roat propõe o debate sobre a importância da festa do folclore e sua não realização em Santa Maria



Foto: Monica Volpin / Pixabay divulgação

Parte 1 - Concentração

Abrir este espaço de fala sobre cultura em uma sexta de Carnaval, por si só, torna impossível não misturar várias questões que vivemos neste momento com os sons dos tamborins.

Porém, antes de seguir por estes novos caminhos, gostaria de salientar que a tarefa que se inaugura com essa coluna é difícil e árdua, e as palavras que virão podem soar destoantes, mas são (antes de mais nada) um convite ao diálogo.

Afinal, lançar um texto a vocês é solicitar que se adicionem forças imaginárias sobre temas que penso que nos importam. E talvez seja uma forma de fazê-los ganhar mais espaços em nossas vidas.

Eu mesmo me perguntei enquanto escrevia o texto, se é possível que um espaço tão pequeno de bits (transformado em páginas em branco) guarde em si energia e ímpeto para debater temas importantes.

Acredito que sim, e, é por isso, que peço que vejam as pegadas que serão sempre deixadas aqui como uma humilde tentativa de caminhar ao lado de seus passos, em diálogos sempre diversos, e quiçá, potentes.

Sendo assim, peço sua gentileza, paciência e boa vontade para ler as linhas que seguem.

Então, vamos lá. Fôlego, que o texto e a "avenida" pra atravessar são grandes.

Parte 2 - Enredo

"Não deixe o samba morrer. Não deixe o samba acabar. O morro foi feito de samba. De samba pra gente sambar." (Edson Conceição e Aloísio Silva)

Parte 3 - Comissão de frente

Falar de uma questão tão clichê como esse trecho de samba, especialmente nesta época, pode soar redundante ou óbvio. Mas, existem tempos em que precisamos falar obviedades e sobre questões que nos saltam aos olhos.

Os tempos são difíceis. Muito "corre" pra pouco dia. E o dinheiro, então? Curto. Temos que estar atentos às finanças para que estas não saiam do controle. Mas também há que se estar atento para que as finanças (e todo os seus sistemas) não nos controlem. Eu sei, é difícil. Afinal, este que vos escreve também tem que pagar contas.

Contudo, a vida não pode ser só isso. Não estou de forma alguma dizendo que a preocupação com o "ganhar a vida" não é importante. Ela também é parte fundamental, mas viver não pode ser somente ganhar dinheiro ou pagar contas.

Não se pode jamais confundir sobreviver com viver.

Parte 4 - Abre alas

Falo isso porque acredito que estamos, talvez sem perceber, entrando em tempos que abrimos mão de coisas que nos constituem e, em breve, nos farão falta.

E espaços como o Carnaval estão aí para isso. Para nos lembrarem e apresentarem como a cultura e a arte podem construir redes afetivas e modelos de convivência distintos dos que geralmente vivemos no restante do ano. E não podemos abrir mão desses espaços.

Pois, o Carnaval é o momento em que uma série de encontros, símbolos, sons, corpos (com suas danças e vestimentas distintas, tradicionais, satíricas ou exóticas) se expressam sob forma de manifestações de alegrias, de críticas, e de homenagens à pessoas que tentaram transformar a realidade em algo melhor.

É o Carnaval que pode, talvez, unindo as mais distintas pessoas mostrar que a diversidade da multidão é o que gera a potência da vida, especialmente quando esta une-se com a arte.

Parte 5 - Carros alegóricos

Hoje gosto e tenho apreço pelo Carnaval, mas nem sempre foi assim. Tempos atrás, eu não era um apreciador dessa festa de cultura popular, apesar de ter ensaiado meus passos nos tempos de faculdade. Depois, passei alguns anos sem prestar atenção ao que acontecia nesta época do ano.

Atualmente, gosto dele por duas razões. Primeiro, pela diversidade cultural contida na festa que se expressa de maneira distinta em todo o país (não somente com samba, mas com frevo, maracatu, guitarrinha baiana e afins). Fato que amplifica a nossa identidade, e propõe ligações com coisas intrínsecas e profundas ao nosso redor nesse Brasil afora. E segundo, já no lado pessoal, acho que aprecio mais pelas lembranças que me proporciona, do que pela folia em si. Embora eu já tenha voltado a me divertir com os repiques e tantãs.

Assim, posso dizer sem medo que não fui e não sou apaixonado como alguns amigos meus são pelos dias de folguedos. Porém, isso não me faz indiferente à sua força e importância, independentemente se eu caio na folia ou não.

E mesmo que eu esteja falando uma obviedade, novamente (visto a punjança desta festa popular), são justamente esses dias de brincar que hoje me fazem perceber que cultura e arte não são contingências, são necessidades.

Perceber que não somente aqui em Santa Maria, mas em outras cidades do país, a maior festa popular que temos, não acontecerá de forma plena, ou não ocorrerá de forma alguma, me deixa, no mínimo, entristecido.

Contudo, é essa tristeza que traz o alerta, que propõe um olhar atento, e me faz perceber que algo está ficando diferente. E não acredito que seja pra melhor.

Pois, se uma manifestação cultural, que já é legitimada historicamente, está passando por tantas dificuldades simplesmente para existir, o que esperar para o restante das artes nos tempos futuros. Qual a importância dada à cultura ou à arte?

O que esperar de um futuro quase sem arte? Ou quase sem cultura?

Parte 6 - Mestre Sala e Porta Bandeira
Que temos muita coisa errada, que temos muita coisa para arrumar, não há dúvida. Mas não vejo muito sentido em pensar que iremos melhorar justamente diminuindo um dos espaços mais plurais e abertos da nossa cultura. Não consigo acreditar que diminuindo cultura e arte é que as coisas irão melhorar.

Eu acredito que um cidadão quem tem acesso e contato com a cultura e arte é mais cuidadoso e atento, desde sua saúde pessoal, até as benfeitorias que podem ser realizadas na sua cidade.

Acredito que não podemos aceitar simplificações equivocadas. Viver só de um jeito. Ser só isso ou só aquilo. Ter só isso ou só aquilo.

Sei que não é fácil nesses tempos austeros que tanto pregam por aí, pensar diferente ou agir diferente. Sei que não é fácil no meio das dificuldades diárias e financeiras, não se deixar levar por caminhos não tão óbvios ou retilíneos. Mas precisamos do alimento físico, e também do alimento da alma.

Parte 7 - Ala das Baianas
Eu sei que o que estou escrevendo deve estar soando clichê. Mas por um momento eu peço que pensem como seria a vida sem música, sem filmes, sem fotografias, sem poesia. (Ainda clichê, não é?)

Todos sabemos que a vida (mesmo na correria) acontece e pulsa pra além do óbvio. Ela acontece em todos os lugares. E são esses lugares que, quando habitados com arte, revelam outros sentidos pra gente.

Afinal, a vida pulsa no peito, no olho, no corpo que se percebe dançando na fila do supermercado, porque ali se pode e se deve viver também enquanto se espera.

Lembrem-se: viver e não é apenas sobreviver. (eu sei que ainda é clichê, mas isso é necessário saber, ou relembrar)

Parte 8 - Bateria
A vida não é somente um coisa, uma narrativa única ou sempre a mesma história. Quantas possibilidades cabem numa vida? Ela é múltipla, cheia de cadência. Ritmos e mais ritmos. Como o Carnaval.

Poetize a vida. Remixe seus possíveis sentidos. Abra espaço para outras questões essenciais que a constituem. Questões essas que nos pegam de surpresa e podem nos deixar com um sorriso no rosto, e isso não precisa ser em um show de música, pode ser na fila do banco. Acredite, isso acontece.

Temos a vontade e capacidade de superar os limites criativos e os desafios do dia a dia. Se já fazemos isso nas finanças, creio que possamos levar isso para outras esferas da vida. E é isso que o Carnaval nos ensina.

Parte 9 - Ala de Passistas
Voltemos agora à letra de samba do início. Vamos tentar um exercício. Troque a palavra samba por amor. E troque a palavra morro por vida.

"Não deixe o_____ morrer. Não deixe o_____ acabar. A_____ é feita de ______. De ______ pra gente_______."

Agora tente novamente. Escolha palavras que façam sentido pra você.

Não tenha medo, arrisque-se.

Caia no "samba".

Parte 10 - Velha Guarda

Sambar e batucar no fundo nada mais são que lentes de magnificação da realidade, ampliando as inquietações que dela se manifestam, abrindo espaço para transformações. Que o sambar do carnaval seja como o brincar das crianças. Sim, com brinquedos, aqueles pedaços de plástico, latão ou madeira que valem mais que diamantes aos olhos dos pequeninos.

Que possamos ver isso todos os dias, que isso possa acontecer inúmeras vezes, nas brincadeiras com filhos, sobrinhos ou netos, ou com outra pessoa qualquer.

Esse é o encontro do qual o Carnaval fala, um encontro poético que pode ser recriado no dia a dia. Uma intersubjetivação, uma união de subjetividades como uma necessidade telepática.

Sambar, brincar, é fazer arte. É para gerar empatia, para colocar um outro mundo dentro do mundo do outro.

Nós somos viajantes em busca de significação. É essa a nossa condição humana.

Parte 11 - Dispersão
A vida é uma intuição, onde alguém (nós mesmos?) nos diz que podemos viver nos espaços dos sonhos. Mas para isso é preciso atravessar a avenida, estar do outro lado do medo, do outro lado da vida bruta que já conhecemos. Tudo o que queremos está do outro lado do medo.

Então, vamos sambar. Atravessar a avenida juntos no dia a dia, entre todos os desafios que se apresentam. Não precisamos ficar no isso ou no aquilo. A vida é complexidade e simplicidade. É mais.

Saiamos do automático. Que a gente se poetize. A arte existe como lei da natureza. Acredite. Arte pra viver a vida onde querem que a gente só sobreviva.

Este é o nosso batuque. Que o samba traga encontros. Que os encontros tragam a tranquilidade de sermos e deixarmos ser do jeito que quiserem ser.

Que possamos desfilar na avenida do encontro diário, seja com o colega de trabalho ou com o amor da nossa vida, toda a gentileza que a cultura, a arte, podem nos trazer.

É só ficar atento a poesia da vida que a vida poetiza a gente. Que a gente desfile com a vida. E que ela seja menos ordinária e mais artística.

Bom carnaval para todos.

SAMBA-ENREDO
Este texto nunca teve a intenção de ser um samba-enredo. É, no máximo, uma tentativa de coisa qualquer, um remix malfeito (de textos, pensamentos e ideias) que são provavelmente mais acertadas que as minhas.


Até a próxima conversa.

E que o silencio não nos ensurdeça.


 

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