Cronistas do Diário: Troia conquistada, por Vitor Biasoli - Cultura e Lazer - Diário

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Opinião05/01/2017 | 06h58Atualizada em 05/01/2017 | 06h58

Cronistas do Diário: Troia conquistada, por Vitor Biasoli

Cronistas do Diário: Troia conquistada, por Vitor Biasoli Arte Rafael Guerra / Agência RBS/Agência RBS
Foto: Arte Rafael Guerra / Agência RBS / Agência RBS
Vitor Biasoli

vbiasoli@gmail.com

Quando criança, frequentava um clube de regatas na beira do canal São Gonçalo. Nos anos 60, o clube mantinha um tipo de construção de madeira que era típico das associações de remadores do início do século 20.  Havia um enorme galpão para guardar os barcos e os remos, e uma rampa em direção ao rio, sobre a qual os remadores carregavam os barcos nos ombros até os desvirarem e colocarem dentro da água.

Cena admirável a que esses remadores proporcionavam. Aos olhos do menino que eu era, cena de verdadeiros guerreiros, daqueles que assistia nas matinés, os guerreiros aqueus que iam combater na planície de Troia.

Meu pai contava que tinha remado também, quando jovem, e, especialmente, que tinha atravessado o canal a nado, de uma margem a outra. Eu olhava o rio – na verdade, um canal de forte correnteza, ligando as lagoas dos Patos e Mirim – e achava aquilo uma façanha e tanto, digna dos filmes de Ulisses e Aquiles.

Ainda hoje, quando me vejo numa situação difícil – dessas que exigem determinação e empenho –, recordo o pai e suas aventuras de remador e nadador. Ao seu modo, ele desafiava perigos. Mais tarde, ele me contou também que se meteu em enrascadas, que não tinha preparo técnico para nadar grandes distâncias, que fazia isso no ¿peito e na coragem¿ e se colocou em situações complicadas.

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Não sei que situações eram essas. Talvez, ele nem tenha explicado. Guardo apenas a lembrança do menino, no clube de regatas, junto ao pai, observando os remadores carregarem os barcos nos ombros e os colocarem dentro do rio. Eram rapazes fortes, determinados, e nós os assistíamos em silêncio.

Aos olhos do menino, aqueles remadores eram capazes de grandes façanhas. Seus barcos singravam as águas do canal São Gonçalo, no meio da tarde, e sumiam de nossas vistas. Mais tarde, ao entardecer, voltavam exauridos, e suas sombras ao sol poente, subindo a rampa com o barco nos ombros, eram a de guerreiros aqueus regressando de uma Troia que, mais dia menos dia, iria cair.

Uma Troia que sempre cai é vencida – me diz o menino que ainda habita em mim. Uma Troia que precisa continuamente ser enfrentada, pois abriga alguma Helena raptada, algum tesouro, alguma coisa desejada, que precisa ser conquistada.

 
 

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