Cronistas do Diário: Sonhos roubados, por Hugo Fontana - Cultura e Lazer - Diário

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Opinião09/01/2017 | 20h30Atualizada em 09/01/2017 | 20h30

Cronistas do Diário: Sonhos roubados, por Hugo Fontana

Cronistas do Diário: Sonhos roubados, por Hugo Fontana Arte Rafael Guerra / Agência RBS/Agência RBS
Foto: Arte Rafael Guerra / Agência RBS / Agência RBS
Hugo Antonio Fontana

hugofontanap@yahoo.com.br

Todos os dias, ao amanhecer, os índios Mapuches tinham o costume de se reunir nas suas aldeias. Sentavam em uma roda para contar dos sonhos que tiveram à noite. Com isso, muito além de espantar possíveis maus espíritos, preservavam, pela oralidade, suas memórias. Resistiram ao massacre espanhol e, até hoje, são 20 mil bravos sobreviventes espalhados na sua maioria pelo Chile e, em parte menor, pelo território argentino.

Dentro da minha geração, era comum, entre aqueles menos alienados, ouvirmos a expressão "sonhos roubados". Quem tinha roubado nossos sonhos? A ditadura? Os norte-americanos? O capitalismo? Nosso emburguesamento? Ou nossa frágil e egoísta memória?

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Entre perguntas, me sinto, muitas vezes, ainda hoje, como uma espécie de Mapuche exilado. Com quem dividir os sonhos que ainda restam? Meu pueblo desapareceu entre edifícios altos e ruas movimentadas. Trocaram a lentidão do amanhecer por carrões que fazem de zero a cem em cinco segundos. Já não lembram mais da última vez em que olharam nos olhos uns dos outros. Mensagens rápidas substituem apertos de mão ou longos abraços. Conversa fiada em bar é coisa de desocupado.

Sem que ninguém me veja, procuro velhos discos para ouvir. Pego um LP de Violeta Parra. Por coincidência, chilena e profunda conhecedora da cultura Mapuche. Gravou músicas nessa língua. Caso fosse viva, Violeta estaria completando 100 anos. Por essa razão, no Chile, este é o Ano Violeta Parra. Os chilenos homenageiam sua arte que "não é de adorno, nem de entretenimento, mas de reflexão e emoção. Acompanha as dores e os amores humanos", conforme a pesquisadora Paula Miranda, que está lançando um livro sobre a obra de Violeta.

É possível que ouvindo "Gracias a la Vida" outra vez, alguns da minha geração encontrem o elo perdido entre o viver e o sentir.

 
 

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