Cronistas do Diário: Segredos nos nossos ouvidos, por Vitor Biasoli - Cultura e Lazer - Diário

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Opinião12/01/2017 | 06h53Atualizada em 12/01/2017 | 06h53

Cronistas do Diário: Segredos nos nossos ouvidos, por Vitor Biasoli

Cronistas do Diário: Segredos nos nossos ouvidos, por Vitor Biasoli Arte Rafael Guerra / Agência RBS/Agência RBS
Foto: Arte Rafael Guerra / Agência RBS / Agência RBS
Vitor Biasoli

vbiasoli@gmail.com

Um amigo contou que não vai à praia há 15 anos. Disse que, às vezes, sente vontade de sentar na beira do mar e ouvir o barulho das ondas, mas o tumulto criado pelos veranistas o incomoda e deixou de ir. Nessa semana, leu na Zero Hora que virou costume os banhistas levarem caixas de som para a beira da praia e falou que desistiu. Nem vai mais sentir saudades. Passou. ¿Sou de outro tempo¿, concluiu.

No final de semana do Natal, encontrei na Praia do Imbé um pequeno grupo com uma caixa de som ao lado do isopor de cerveja, e achei estranho. ¿Tomara que não vire moda¿, pensei, e tratei de ficar longe da barulheira. Mas, agora, vejo que a coisa virou moda e também um bom negócio. Como meu amigo, sou de outro tempo. De um tempo que, hoje, chega a parecer radical: tempo de mochileiros, que acampavam em praias de Santa Catarina, da Lagoa dos Patos, e não encontravam viva alma.

Na Praia de Naufragados (no sul da Ilha de Santa Catarina) havia o João do Burro, que vivia com a mulher e os filhos enfiados no mato, os únicos moradores do local. Nós o chamávamos de João do Burro porque ele tinha um jumento que utilizávamos para carregar nossa tralha. Vinhamos a pé por uma trilha dentro do mato (único caminho até a praia), alguém fazia contato com o João do Burro, e ele vinha com o jumento nos ajudar.

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Depois, deitados na sombra das árvores que cresciam próximas à praia, ficávamos estirados horas a fio, ouvindo o barulho do mar, às vezes no mais completo silêncio. Um silêncio que se transformava num desafio, pois cavava melancolias no fundo do peito e nos obrigava a cantar e gritar. Às vezes, o jeito era sair correndo, dar um mergulho no mar, única maneira de espanejar os sentimentos ruins.

Um dia, nos demos conta que aquela paisagem se transformaria como vinha acontecendo com o restante da Ilha e perderíamos aquela experiência ¿selvagem¿. Um dia, abririam uma estrada até a pequena praia e chegariam carros com veranistas, gente com guarda-sol, crianças e cachorros, mais imobiliárias vendendo terrenos, construindo casas, e botando o João do Burro, a mulher e os filhos a correrem. Assim como chegariam mulheres de biquíni, alguém lembrou. Ao menos isso, outro arrematou.

Um dia, aquele silêncio seria povoado pelo ruído de todas as praias, e ninguém precisaria gritar ou cantar para vencer a melancolia. Talvez fosse bom. Talvez precisássemos aceitar isso: a civilização ou coisa parecida. Mas não imaginávamos, jamais, que um dia chegariam caixas de som na beira da praia – apenas gente, multidão, carros, casas e guarda-sóis.

Sou daquele tempo, digo agora ao meu amigo. Um tempo que hoje parece muito remoto. Tempo de fazer fogueira na beira da praia, ouvir a lenha crepitar e sentir as ondas do mar murmurarem segredos nos nossos ouvidos.

 
 

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