Cronistas do Diário: O dinossauro à beira da lagoa, por Jumaida Rosito - Cultura e Lazer - Diário

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Opinião06/01/2017 | 06h53Atualizada em 10/01/2017 | 20h27

Cronistas do Diário: O dinossauro à beira da lagoa, por Jumaida Rosito

Cronistas do Diário: O dinossauro à beira da lagoa, por Jumaida Rosito Arte Rafael Guerra / Agência RBS/Agência RBS
Foto: Arte Rafael Guerra / Agência RBS / Agência RBS

Tudo de lindo que vi e vivi no meu trabalho com plantas não me imunizou contra o assombro diante daquela figueira, ¿a maior do Estado¿, pelo que li em placas, panfletos, Wikipédia. Observei, interessada, as pessoas orbitando em torno dela – visitantes ocasionais, turistas em férias, curiosos; todas tiveram as mesmas reações iniciais. Primeiro, e intuitivamente, afastavam-se um pouco, para um enquadramento mais apropriado, depois, olhavam para o alto, como fariam se encontrassem um gigante. Seus olhos passeavam pelos galhos mais velhos (os braços abertos do dito gigante); espraiados, projetam-se sobre a praça, as casas do entorno, carros, outras plantas. Só então se percebe que, tão impressionante quanto sua altura, é a copa, um enorme guarda-chuva verde, com varetas de 50 metros.

Nesse reconhecimento, as pessoas ficam caladas, murmurando coisas para si mesmas, conscientes de sua pequenez. Pude ver que o impulso seguinte de todos (inclusive o meu) foi tocá-la, como fazem as crianças que enxergam com as mãos, seus sensores de acreditar. Aquela cortiça é comum ao toque, como a de todas as árvores, só que velha, muito, muito velha. Suas rugas profundas formam pregas, extrusões, torções curiosas e impressionantes. Passado o impacto inicial, o momento final daquelas pessoas foi o de fotografar para compartilhar. Foi aí que desviei os olhos e divergi da maioria, porque o meu momento foi de lamentar, por toda aquela excelsitude, tão vulnerável.

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Enquanto dava voltas pelo tronco, que, segundo dizem, só pode ser abraçado por 20 pessoas, tentei imaginar seu ambiente de origem, quando a Lagoa dos Patos nem se sabia laguna. Com o tempo, saíram de cena os índios pescadores, entraram os colonizadores, nossos antepassados, que ergueram, derrubaram, modificaram, mas conquistaram. A história veio, se foi e continua, e a figueira, também, testemunha de tudo há, pelo menos, 400 anos! Forte, estoica, como são todas as plantas, ela me desperta uma pena imensa; anciã impotente, não permitimos que definhe em paz. Rodeada de casas e ruas que cortam a cidade erguida em seu entorno, tornou-se símbolo do lugar e atração turística; por isso, submete-se às desajeitadas tentativas humanas para mantê-la em pé, como as escoras colocadas sob seus galhos mais velhos, ramos atorados ou plastas de cimento tapando buracos do tronco. Ela resiste, até mesmo, ao espetáculo da iluminação noturna, para ampliar-lhe o poder de sedução.

Mas uma coisa muito bacana me chamou a atenção: não vi corações com flechas rasgando a casca daquela árvore nem nomes próprios e datas esculpidos em seu corpo, mas vi admiração nos olhos das pessoas. Sei que tudo o que é soberbo ou expressivo nos sensibiliza, mas não detém nossa fúria destruidora. Então, pensei, apesar de tudo, aquela figueira tem sorte. A essência das pessoas do lugar, e o perfil de quem o visita, têm protegido o velho dinossauro do nosso discutível conceito de liberdade de expressão. Não suportaria vê-la pichada ou mais humilhada ainda. Meu pobre, magnífico e indefeso dinossauro, preso entre a lagoa e a civilização, espero não viver para ver algo assim.

 
 

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