Cronistas do Diário: Janeiro 27 na praça, por Marcelo Canellas - Cultura e Lazer - Diário

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Opinião22/01/2017 | 16h46Atualizada em 22/01/2017 | 16h46

Cronistas do Diário: Janeiro 27 na praça, por Marcelo Canellas

Cronistas do Diário: Janeiro 27 na praça, por Marcelo Canellas Arte Rafael Guerra / Agência RBS/Agência RBS
Foto: Arte Rafael Guerra / Agência RBS / Agência RBS

Eu entrei na Kiss. Foi na semana passada, por força de meu ofício de repórter. Respeito muito os místicos, os esotéricos, os que acreditam em espíritos e em forças sobrenaturais, mas não fui tocado por nenhum sentimento religioso durante a meia hora em que permaneci lá dentro. O que senti foi uma opressão interna, uma angústia ao ver que a fuligem e os destroços espalhados ainda escondem uma história mal contada. Vi uma câmara escura imensa, sem janelas ou portas laterais, repleta de vestígios de presença humana: ainda há etiquetas coladas sobre as mesas com os nomes dos jovens que fizeram reserva naquela noite terrível.

 Então me dei conta de que esse mal-estar só se tornará suportável quando, além da restauração do sentimento de justiça, o lapso narrativo da tragédia puder ser preenchido. Ou seja, quando a cidade produzir uma memória fiel sobre sua dor.

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Os gregos inventaram o teatro trágico para suportar as dores da vida. Por que eles não sucumbiram ao pessimismo? Porque recorreram à beleza narrativa. O belo não cura, mas alivia. Estamos nos devendo esse alívio. Para quem vive uma experiência trágica, o silêncio pode ser a mais brutal forma de violência. Por isso é que se fala da necessidade de lembrar. Por isso é que foi tão importante o compromisso assumido pelo novo prefeito, publicamente, aqui mesmo no Diário, de desapropriar o prédio da boate e de construir um memorial no lugar. Promessa é divida, e eu serei mais um a cobrá-la.

Eis que, passados quatro anos, este Janeiro 27 será especial. Santa Maria terá o privilégio de receber um dos maiores intelectuais do país em sua sala de estar. De que falo? Ora, a praça é a sala de estar de uma cidade, o lugar onde nos reunimos como família para purgarmos nossos conflitos, o espaço público do acontecer em comunidade, onde nos sentimos em casa para nossa catarse confessional. O professor Márcio Seligmann, do Instituto de Estudos da Linguagem da Universidade de Campinas atendeu ao convite da TV OVO e da Associação dos Familiares das Vítimas e Sobreviventes da Tragédia para uma conversa pública sobre memória, trauma e reconstrução, na Praça Saldanha Marinho, às 19h30min do dia 27, sexta-feira que vem.

Ao ocupar a praça, estamos dizendo que a discussão sobre uma memória coletiva da tragédia, de um testemunho purificador sobre o que houve, é um compromisso da cidade inteira. Durante todo o Janeiro 27, a Saldanha Marinho estará repleta de atividades. Saia de casa. Se você é santa-mariense de verdade, se você ama esta cidade de fato, esteja na praça. Se souber, fale. Se não souber, escute. A narrativa da memória é feita de muitas bocas e ouvidos.

 
 

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