Cronistas do Diário: Guerra, por Hugo Fontana - Cultura e Lazer - Diário

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Opinião02/01/2017 | 20h16Atualizada em 02/01/2017 | 20h16

Cronistas do Diário: Guerra, por Hugo Fontana

Cronistas do Diário: Guerra, por Hugo Fontana Arte Rafael Guerra / Agência RBS/Agência RBS
Foto: Arte Rafael Guerra / Agência RBS / Agência RBS
Hugo Antonio Fontana

hugofontanap@yahoo.com.br

Dizer que qualquer guerra em qualquer tempo e lugar é estúpida pode ser um lugar comum. Isso não diminui a responsabilidade de ninguém. Seja onde for, em Aleppo ou no bairro Nova Santa Marta, para além das notícias trágicas, existe gente. Mulheres, velhos, crianças, desempregados compõem um cenário, no mais das vezes, descrito com a fria linguagem de "lugar violento".

Aleppo já foi uma linda e cosmopolita cidade da Síria. Hoje, entre escombros, escondem-se vultos que não sabem mais a que espécie pertencem. São joguetes nas mãos e mentes de poderes sírios, russos, turcos, iranianos, Estado Islâmico e outros. "Reconquistar" Aleppo significa uma retórica vazia de quem não tem ideia do que possa ser a tal dignidade humana.

O bombardeio sobre o bairro Nova Santa Marta pode não fazer tanto barulho assim. Ele é até silencioso. As doses de violência são homeopáticas. Um belo lugar que já foi uma fazenda, há 25 anos vem sendo ocupado por gente que, em sua maioria, só quer um lugar onde morar.

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Lembro-me bem do tempo em que trabalhei "vizinhando" com a Santa Marta. Na Augusto Ruschi, escola em que dava aulas, a maioria dos alunos era daquela região. De vez em quando, sumia uma aluna da sala de aula. Ao perguntar sobre a fulana, suas colegas me respondiam sorrindo que ela ia se casar. Tinha 14, 15 anos e ia se casar. Já grávida, moraria com seus pais. O pai da criança, com seus 14, 15, 16 anos, precisaria fazer algum bico para sobreviver. Também precisaria "parar de estudar". Dali a algum tempo, encontrei uma dessas ex-alunas. Quase não a reconheci. Com três crianças a tiracolo, era uma figura muito distante da guria graciosa e cheia de viço que habitava a sala de aula. Contou-me que não estava mais com o fulano. Tinha cansado de apanhar. "Sabe, professor, ele bebe e é mau para os filhos".

Talvez, saibamos mais de Aleppo do que da Nova Santa Marta. Quais os (des)interesses para que se mantenha uma região da cidade tão marginalizada? Quem são os Putkin, os Bashar Al Assad, etc. daqui? Essa guerra é tão insignificante que merece apenas espaços exíguos nos noticiários policiais?

 
 

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