Cronistas do Diário: Gente boa, por Orlando Fonseca - Cultura e Lazer - Diário

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Opinião24/01/2017 | 06h36Atualizada em 24/01/2017 | 06h36

Cronistas do Diário: Gente boa, por Orlando Fonseca

Cronistas do Diário: Gente boa, por Orlando Fonseca Arte Rafael Guerra / Agência RBS/Agência RBS
Foto: Arte Rafael Guerra / Agência RBS / Agência RBS

Desde a orla do Atlântico, que o Atlântico me faz falta. Com os pés na areia úmida e os olhos fixos no mistério daquele horizonte único, entrego-me a elucubrações oceânicas. Pois, neste lugar, recebi a deferência definitiva, para além de todos os títulos que alcancei na minha vida acadêmica ou pelos cargos públicos que já exerci. Não ouso me despir dessas capas protocolares, embora sejam como uma segunda natureza sobrepostas ao que sou. No entanto, desta identificação que falo, posso dizer que me atingiu no âmago e resume tudo o que tenho feito para ser ao longo da existência.

Ao pedir para fechar a conta com os gastos que fizemos no Quiosque da beira-mar, o garçom me apresenta a comanda e pede desculpas, não pelas garatujas anotadas naquela papeleta, com manchas provocadas pelo manuseio, mas pelo fato de, por não saber o meu nome, haver me identificado como ¿Gente Boa¿. Por um breve momento, não consegui fazer a soma dos valores anotados, pensando no bem que me fez aquele rapaz, a tez morena, um chapéu esquisito que lhe acentuava mais a singeleza. Dentre as 50 mesas que ele e seus companheiros tinham para dar conta, identificou, em uma, alguém que poderia ser nomeado de tal modo. E o que eu fiz para merecer isso era muito pouco. Pensando bem, não me furtei ao que, de modo humano, deveria ser feito com naturalidade por qualquer um ali. Só que não.

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A verdade é que quem paga pensa que tem o poder de submeter o outro à humilhação, à indiferença ou ao desprezo. Quando o chamei pela primeira vez, perguntei-lhe o nome e o invoquei ao acionar o seu serviço. Agradeci toda vez que ele, depois de fazer o percurso pela areia escaldante, trouxe os nossos pedidos. Mesmo diante do que nos desagradou, tratamos de conversar sem rompantes. Nem sequer puxei conversa sobre a sua vida, suas preferências ou impressões sobre a conjuntura. 

Foi com esse espírito que li, ainda sob o guarda-sol, as matérias sobre os destinos da Lava-Jato. E me dei conta de que a impressão do garçom a meu respeito seria a mesma que eu teria em relação a Teori Zavascki. E não porque se foi. Mas, em toda esta barafunda jurídica em que nos metemos no país, se tem alguém que eu poderia nomear como Gente Boa é o Teori, porque simplesmente tirou os holofotes de sua figura para concentrar sua energia sobre a tarefa de conduzir a ação dentro dos parâmetros legais e da ritualística processual. Fazer de modo diligente o que deveria ser feito. Não será fácil encontrar outro com este perfil de ¿gente boa¿ para o substituir. E gente boa faz falta.

 
 

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