Cronistas do Diário: Gauguin e nossa matriz primitiva, por Vitor Biasoli  - Cultura e Lazer - Diário

Versão mobile

Opinião26/01/2017 | 18h21Atualizada em 26/01/2017 | 18h21

Cronistas do Diário: Gauguin e nossa matriz primitiva, por Vitor Biasoli 

Cronistas do Diário: Gauguin e nossa matriz primitiva, por Vitor Biasoli  Arte Rafael Guerra / Agência RBS/Agência RBS
Foto: Arte Rafael Guerra / Agência RBS / Agência RBS
Vitor Biasoli

vbiasoli@gmail.com


Paul Gauguin foi um artista que se tornou uma lenda na história da arte ocidental. Entre 1891 e 1893, ele passou uma temporada no Taiti, uma das ilhas da Polinésia, concretizando a primeira etapa de um projeto de se despojar dos venenos da Civilização Ocidental e renascer como selvagem. Ao embarcar para o Extremo Oriente, Guaguin tinha 43 anos de idade e havia abandonado tanto as suas atividades profissionais junto à Bolsa de Valores parisiense quanto o seu casamento e quatro filhos para se dedicar exclusivamente à arte.

Mais tarde, em 1895, ele voltaria à Polinésia e ali morreria, em 1903. Se concretizou ou não o seu projeto, se se tornou ou não um selvagem, isso é discutível. Inegável é que produziu uma arte fundamental para o século 20, devido a sua exaltação do primitivo e sua influência sobre Picasso, como se vê em ¿Les demoiselles d¿Avignon¿.

Leia mais textos dos cronistas do Diário

Dessa primeira temporada na Polinésia, Guaguin pintou ¿Mulheres do Taiti¿ (1892), e a tela atravessou o Atlântico no ano passado e foi apresentada em exposições no Rio e São Paulo. Quando a vi iluminada, na sala escura de uma das mostras, fiquei impactado. A luz dos trópicos estava ali, na sua essencialidade, a luz e a melancolia.

Nessa tela, duas figuras femininas estão sentadas na beira da praia, ambas vestidas, sendo que uma com o traje tradicional da ilha e a outra com um camisolão, a roupa que os missionários impuseram às nativas, na tentativa de combater a nudez a que a população estava habituada. Guaguin se espantou com as mudanças produzidas pelas missões religiosas, e o quadro possivelmente expressa isso: a sua atenção tanto em direção à cultura nativa quanto as suas transformações.

Guaguin era um homem dos tempos do colonialismo francês triunfante e teve a ilusão de encontrar as culturas nativas preservadas. Aos poucos, ele descobriu o potencial destruidor da expansão colonial, mas nem por isso deixou de procurar (e encontrar, felizmente) os vestígios do mundo primitivo para alimentar a sua arte. ¿Mulheres do Taiti¿ não é a sua obra mais significativa quanto a essa intenção de recuperação do primitivo, mas nem por isso é menos encantadora, sensual e não ocidental.

Aos olhos de um brasileiro, um latino-americano – essa raça melancólica produzida e marcada pela herança das colônias europeias no Extremo Ocidente –, Guaguin ainda indica o longo caminho que precisamos percorrer em direção a nós mesmos. O longo caminho em direção a nossa matriz primitiva.

 

Siga Diário SM no Twitter

  • diariosm

    diariosm

    DiárioSMVÍDEO: você sabe o que significa melena? pechada?... https://t.co/uWisyP5MIE https://t.co/yGQsjNnOlahá 7 horas Retweet
  • diariosm

    diariosm

    DiárioSMApós assaltar entidade rural, suspeito de matar policial rodoviário é preso https://t.co/AKn8Nz1qvY https://t.co/WVz3MMRPwkhá 11 horas Retweet

Veja também

Diário de Santa Maria
Busca
clicRBS
Nova busca - outros