Cronistas do Diário: De gatas e de mães, por Vitor Biasoli - Cultura e Lazer - Diário

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Opinião19/01/2017 | 06h53Atualizada em 19/01/2017 | 06h53

Cronistas do Diário: De gatas e de mães, por Vitor Biasoli

Cronistas do Diário: De gatas e de mães, por Vitor Biasoli Arte Rafael Guerra / Agência RBS/Agência RBS
Foto: Arte Rafael Guerra / Agência RBS / Agência RBS
Vitor Biasoli

vbiasoli@gmail.com

Dia desses, estava na casa de uma amiga e presenciei a seguinte cena: uma gata subiu lentamente numa árvore do quintal e parou com os olhos acesos em direção a um objeto. Meus olhos percorreram o caminho entre a gata e o objeto, e constatei: o felino mirava um pássaro limpando as suas asas. Um pássaro, um alvo, uma refeição. O corpo da gata era pura lentidão e energia, e súbito se estendeu num salto de caçador. O outro animal voou, a gata prendeu as unhas no galho para não cair e seus olhos pareceram acompanhar o rastro do pássaro no ar.

Derrotada, mas altiva, a gata desceu ao chão, e não vi em seu olhar sequer uma sombra da intenção assassina. Com passos de dança, a gata cruzou o pátio e pulou na almofada de uma poltrona de vime. Se eu não tivesse visto seus movimentos na árvore, não diria que se tratava de uma fêmea pronta para os gestos mais primitivos da caça e da morte.

Acompanhei o animal sobre a almofada, seus preparativos para se enrodilhar e dormir, e fui sentar ao seu lado.

 – Um doce animal doméstico – disse para minha amiga.

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Afundei a mão no seu pelo, acariciei o seu corpo miúdo e imaginei que, se gatas são capazes de sonhar, esta possivelmente estaria sonhando com a carne tenra de um passarinho, penas e sangue escorrendo da sua boca. Uma típica felina, delicada e de unhas afiadas.

Então, contei que, quando criança, também tive um gato, desses de raça indefinida, sem nenhuma exuberância de pelos como a gatinha debaixo da minha mão. Ele gostava de atacar o galinheiro do vizinho, e eu nem sequer desconfiava. Um dia, o vizinho o matou e colocou o seu corpo na porta da nossa casa. Meu pai deu sumiço no bicho, e minha mãe me livrou da notícia cruel contando que o gato havia ido embora, pois já estava crescido e precisava arranjar namorada e constituir família.

Acariciando o corpo da gatinha caçadora, contei que, durante anos, acreditei na história da minha mãe. Que minha mãe sempre foi assim – uma delicada e poderosa fêmea protetora –, capaz de qualquer coisa pelo bem-estar de suas crias. Mesmo ao custo da verdade.

– Comportamento típico de mãe – disse minha amiga.

– De mães extremadas, amorosas e acolhedoras – eu arrematei, sentindo que, sob minha mão, uma delicada gatinha ronronava e, talvez, sonhasse com a carne quentinha de sabiás ou canarinhos.

 
 

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