Última crônica do ano  - Cultura e Lazer - Diário

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Opinião29/12/2016 | 08h01Atualizada em 29/12/2016 | 08h01

 Última crônica do ano 

 Última crônica do ano  Arte Rafael Guerra / Agência RBS/Agência RBS
Foto: Arte Rafael Guerra / Agência RBS / Agência RBS
Vitor Biasoli

vbiasoli@gmail.com

A última crônica do ano talvez merecesse uma reflexão acurada a respeito dos acontecimentos políticos que convulsionaram 2016. Mas não me acho em condições de encarar essa empreitada e saio pela cidade para pensar no que escrever. Por puro hábito, entro nas livrarias e confiro as capas coloridas, os títulos impactantes, folheio uma e outra novidades, e não compro coisa alguma. Já tenho livro demais em casa e sigo em frente. Conheço os livreiros, eles me conhecem, e imagino que saibam que sou desses leitores que controlam a compulsão, mas não podem deixar de fazer a visita rotineira às prateleiras.

No momento, estou lendo Uma Breve História do Brasil, de Mary del Priore e Renato Venancio, e mais uma vez constato que não foi sem sangue e lágrimas que se escreveu a trajetória do povo brasileiro. Intercalo a leitura com os sonetos selecionados por Sérgio Faraco em 60 Poetas Trágicos e não deixo de compor, ao meu modo, uma síntese das minhas preocupações de leitor e cronista: uma visão geral da sociedade em que vivo, uma visão mais cuidadosa da nossa miserável humanidade.

Faraco, mais uma vez, garimpou poemas preciosos e escolheu como critério sonetistas cujas vidas foram marcadas por alguma tragicidade. Poetas que foram acometidos de forte depressão e se suicidaram, que tiveram doenças graves, que foram mortos por maridos traídos, presos em revoltas políticas, deportados, fuzilados, afogados ou que caíram do bonde (caso de Marcelo Gama). Poetas desgraçados que nos legaram boa poesia, como é o caso de Paulo Eiró, desgraçadamente apaixonado pela prima: ¿[...] Sim, adorei-a; / não tive horror, não tive sequer medo / de cobiçar uma mulher alheia¿.

A última crônica do ano não sai como pretendia – um texto leve, para abanar as mazelas do ano que termina – e constato que as turbulências políticas que chegam de Brasília, Curitiba e Porto Alegre embaralham meus pensamentos. Fica para outra oportunidade qualquer coisa otimista. Paro debaixo de uma marquise, assisto à chuva que súbito cai sobre a cidade e sinto que a água da chuva faz por mim o que minhas palavras não conseguem. Grossos pingos caem sobre a calçada, lavam a rua e minha alma.

Foi nessa cidade que viveu um dos poetas trágicos selecionado por Faraco: Ernani Chagas, morto por causa de uma mulher, em 1921, quando tinha 23 anos. Por uma mulher que talvez tenha apenas se divertido com ele, como indica um dos seus poemas: ¿Esquisita, nervosa, pequenina, / de olhos tristes e de fundas olheiras / [...] / ela que sabe do meu abandono / [...] / e ri de mim porque lhe quero bem!¿ A mulher era esposa de um amigo, houve bate-boca entre os dois, o marido sacou uma pistola e disparou três tiros no poeta.

Fim inglório de um jovem poeta, final melancólico para essa crônica, mas nem por isso menos significativa do ano de enganos que ora encerramos.

 
 

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