O dia em que troquei boas lembranças por aliche - Cultura e Lazer - Diário

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Opinião23/12/2016 | 10h20Atualizada em 23/12/2016 | 10h20

O dia em que troquei boas lembranças por aliche

O dia em que troquei boas lembranças por aliche Arte DSM/
Foto: Arte DSM

Primeiro fato — não consigo enfrentar eventos que reúnam multidões. Se penso nisso, como agora, o coração dispara, um elefante virtual toma assento no meu peito e me impede de respirar normalmente. A dor de cabeça vem depois. Segundo fato — Kleiton e Kledir Ramil são ídolos para mim, desde 1975, ano de lançamento do primeiro vinil do grupo gaúcho Os Almôndegas, do qual faziam parte. Graças à mistura certinha de rock, MPB e folclore, eles convenceram uma adolescente porto-alegrense de 17 anos, com balda de cidade grande, que "grosso" é quem se fecha às diferentes vertentes culturais. Terceiro fato — Kleiton e Kledir, com o irmão Vitor e a orquestra de Câmara da Ulbra, fariam uma apresentação na Praça Saldanha Marinho, com entrada livre para o público de Santa Maria.

Mas que belo presente de Natal, pensei; reencontraria a menina que fui um dia, cantando junto e em voz alta as letras que ainda sei de cor. Mas, antes, precisava driblar o elefante sentado no meu peito. Acreditando na paixão, apostei no enfrentamento. Para garantir um lugar privilegiado, levei cadeiras dobráveis e cheguei na praça uma hora antes do início do show. Foi um grande erro; tive tempo demais para pensar. Eu me tornava mais e mais hiperalerta à medida que as pessoas chegavam devagar, mas continuamente. O povaréu em pé, ao nosso redor, aumentava e nos empurrava aos poucos, milimetricamente, como um bolo crescendo no forno. A visão do palco, antes perfeita, foi sendo comprometida pelos estilosos de chapéu, pelos espertinhos com caras de sonsos e pelas turmas barulhentas e descompromissadas. Quanta gente chegaria ainda? Eu conseguiria ver, nem que fosse por uma frestinha, minhas figuras tão queridas? Ninguém iria pedir àquela criatura em pé, em frente à pobre senhorinha sentada, para que tirasse seu bumbum do horizonte dela?

As luzes do cenário foram acesas, e eu consegui ouvir dois pequenos pronunciamentos que indicavam o início do espetáculo, mas, quando meu coração se preparava para explodir de alegria, o céu despencou numa chuvarada. Nessa altura, com os nervos em frangalhos, e o elefante já acomodado no peito, tomei aquele evento climático como um aviso e, antes que os irmãos entrassem em cena, eu saí! O medo me vencia outra vez.

Encharcada e decepcionada comigo mesma, fui conduzida por mãos carinhosas a minha pizzaria favorita, como compensação. Mas, enquanto comia, envolvida pelo ambiente seguro e bem cuidado, pelo sabor fantástico daquela massa mágica, sentia um buraco, um vazio imenso, como se tivesse fome. Era minha alma, que não pedira o sabor marcante do aliche ou o vermelho do drinque de morango. Ela esperava beber na vertente da boa música e das recordações dos melhores anos da minha vida, misturadas às luzes de Natal da vida abençoada que tenho agora. Minha alma voltou para casa com fome. Desse dia em diante, sempre que peço pelo fim das tragédias que enfeiam o mundo, lembro de desejar alimento para as almas dos que lutam apenas para sobreviver.

 
 

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