Cronistas do Diário: "Queria ser Maria Bethânia", por Jumaida Rosito - Cultura e Lazer - Diário

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Opinião09/12/2016 | 07h12Atualizada em 09/12/2016 | 07h12

Cronistas do Diário: "Queria ser Maria Bethânia", por Jumaida Rosito

Cronistas do Diário: "Queria ser Maria Bethânia", por Jumaida Rosito Arte Rafael Guerra / Agência RBS/Agência RBS
Foto: Arte Rafael Guerra / Agência RBS / Agência RBS

Sabe aquela festa de arromba que a gente sonha em fazer para saudar os 40 ou 50 anos? Não fiz, e pelo andar da carruagem, meus 60 vão chegar sem alarde. Tempos bicudos. Os universitários aqui de casa são como filhotes de gambá agarrados as minhas costas, e na fração própria que é a relação ¿meu salário/custo de vida¿, o numerador fica cada vez menor. Acho prudente optar pelo pé-de-meia. Mas, daqui a seis meses, vou ser oficialmente idosa, e me sinto chamada a um balanço de vida.

Afinal, o que me trouxeram esses 60 anos? Prioridade nas filas e assentos de ônibus? Ora, tem que ser um pouco mais! Olhar para trás e ver a família legal que constituí? Um clichê muito gostoso, sem dúvida... mas me refiro a mim –  à criatura só. O que existe agora e teria feito diferença aos 20 ou 30? A menopausa não é, garanto! Enquanto perco noites de sono, ganho alguns centímetros de cintura por dia. Levanto todas as manhãs dando um tempo para que as articulações se azeitem, e sinto o cheiro das afumentações da minha avó. Mais um pouco, também vou jantar às cinco da tarde, porque depois disso dá azia! Quem sabe ganhei a liberdade para ser qualquer coisa? Adeus preconceitos e senso crítico exacerbado (meu feitor), bem-vinda indiferença pelo ti-ti-ti alheio. E se fosse para exorbitar, eu queria ser como Maria Bethânia, do jeito que a vi em entrevista recente: iluminada. Os cabelos de sempre, só que agora desavergonhadamente grisalhos, saias compridas, pés descalços, mística, e aquele poder que escorrega pelo vozeirão impondo respeito, naturalmente. A feia mais bonita que conheço. Hum! Não vai dar; detesto colocar os pés no chão, não tenho coragem de encarar os meus brancos e quando falo, faço o caminho contrário – perco a credibilidade. E, obviamente, não canto. Nem declamo Fernando Pessoa por aí, como quem toma um copo de água.

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Acho que de tudo que recebi ou burilei nesses anos, eu poderia escolher como presente uma certa ¿dessensibilização social¿, na falta de um termo melhor. Passei a vida tentando agradar todo mundo (já sei, já sei, desejo inconfesso por afeto). A cada antipatia captada, intensificava os cuidados até reverter o desconforto. Graças a isso, aprendi a ouvir, mais do que falar, a perceber o quase imperceptível, a transitar pelas tribos agarrada ao fio da harmonia, a provar o valor de uma segunda impressão. Precioso, mas tentar ser unanimidade dá um trabalho danado; é preciso engolir sapos e ignorar deselegâncias. Lidar com pessoas rudes. Finalmente, cansei!

Desafetos, aviso aos navegantes: se acharem que desisti de ser atenta, se me afastei ou me tornei menos simpática – é verdade! Não vou mais perder meu tempo com vocês. Quero usar mais saias esvoaçantes, acender minhas luzes internas, procurar meu tom. Vou brilhar no meu palco, mesmo que a plateia seja bem menor. Os cabelos brancos... vou deixar para os 70. Combinado assim?

 

 
 

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