Cronistas do Diário: O brasileiro do ano, por Marcelo Canellas - Cultura e Lazer - Diário

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Opinião31/12/2016 | 13h31Atualizada em 31/12/2016 | 13h31

Cronistas do Diário: O brasileiro do ano, por Marcelo Canellas

Por defender "Brasil" de uma agressão estúpida e irracional, Índio foi massacrado por socos e chutes

Cronistas do Diário: O brasileiro do ano, por Marcelo Canellas Arte Rafael Guerra / Agência RBS/Agência RBS
Foto: Arte Rafael Guerra / Agência RBS / Agência RBS

A revista Isto É deu o troféu de brasileiro do ano para Michel Temer. Não vou discutir critérios que desconheço. Em vez disso, ao fim deste turbulento 2016, vou instituir o meu próprio prêmio de brasileiro do ano. Não sou dono de revista nenhuma. Nem mesmo este espaço aqui é meu, tenho consciência de que pertence ao jornal e só estou aqui porque me pagam para escrever. Mesmo assim, tenho apreço por esse canto de página, que é pobre, mas é limpinho. Dito isso, outorgo o troféu de brasileiro do ano de minha coluna de crônicas a Luiz Carlos Ruas, o Índio.

Não se preocupe, leitor, se você não souber quem é esse tal de Índio. Eu também não sabia até o domingo passado, dia de Natal, quando ele foi espancado até a morte por dois brutamontes na estação Pedro 2°, do metrô de São Paulo. Pra falar a verdade, eu nem sei se ele fez algo de errado ou grave ao longo de seus 54 anos de vida. Não importa. A atitude dele, minutos antes de morrer, é a remissão absoluta de todos os pecados que pudesse ter. Índio representa a reserva moral que nos permite ainda ter fé na humanidade.

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Luiz Carlos Ruas vendia doces em frente à estação. O apelido Índio, por causa da pele morena e dos cabelos lisos, vem do tempo em que ainda morava em Guaraci, no interior do Paraná. Quando migrou para São Paulo, aos 16 anos, começou vendendo pipoca na porta de uma igreja. Há 20 anos, montou sua barraquinha no metrô. Ficou amigo das putas, dos mendigos, dos drogados, a quem amparava e vendia fiado sabendo que a dívida jamais seria paga. Oferecia café aos faxineiros do metrô. De graça. E vivia com a féria que obtinha dos passantes. Índio era um brasileiro comum, desses que nunca vão conseguir se aposentar. Nem trabalhando 49 anos sem parar, como quer o governo.

Na tarde do Natal passado, dois homofóbicos fascistóides, portando soco inglês nos punhos, atacaram duas travestis. Uma delas é conhecida como "Brasil". Quando "Brasil" foi atacada apenas por ser travesti, Índio interveio. Havia muitas pessoas no metrô. Nenhuma se interpôs, nenhuma protestou, nenhuma quis interceder. Não as culpo. Os dois agressores eram imensos, coléricos e estavam descontrolados. Luiz Carlos Ruas não ligou. O que há de mais nobre e íntegro na condição humana brotou dele: "Não faz isso, rapaz", ele gritou. Por essa razão, por defender "Brasil" de uma agressão estúpida e irracional, Índio foi massacrado por socos e chutes durante 1 minuto e 32 segundos.

O brasileiro do ano é um mártir da generosidade, da solidariedade e da bondade. Seu ato de heroísmo é, na verdade, um ato de resistência contra a intolerância, contra o obscurantismo, contra a violência que nos oprime e afronta. Luiz Carlos Ruas, um devoto de Nossa Senhora Aparecida, morreu por nós no dia de Natal.


 
 

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