Cronistas do Diário: "Mais que um calendário rabiscado", por Jumaida Rosito - Cultura e Lazer - Diário

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Crônica30/12/2016 | 14h48

Cronistas do Diário: "Mais que um calendário rabiscado", por Jumaida Rosito

Sempre que tenho tempo ou necessidade, revisito a vida, anotada em dias e horas cheias, e tento compreender minha trajetória.

Cronistas do Diário: "Mais que um calendário rabiscado", por Jumaida Rosito Arte Rafael Guerra / Agência RBS/Agência RBS
Foto: Arte Rafael Guerra / Agência RBS / Agência RBS

Alguns hábitos envelheceram comigo, e ser apegada a agendas é um deles. As minhas, carrego na bolsa, junto a duas ou três canetas que vou arrecadando por aí, enquanto perco outras tantas com igual facilidade. Algumas pessoas me dizem que guardar compromissos na memória é um poderoso exercício mental, outras, que existem maneiras mais contemporâneas de programá-los; pode ser, mas essas agendinhas convencionais me servem de diversas e insubstituíveis maneiras. Por exemplo, dentro delas, guardo pequenos papéis, recados, comprovantes, endereços desimportantes, receitas; minha agenda engorda, à medida em que os meses passam! É nela, também, que prendo certas ideias fugidias, que só se comprometem comigo depois de escrachadas no papel.

Anoto, ainda, títulos de livros interessantes, frases inspiradoras, ou indicações de filmes inesquecíveis, que alguém compartilha. Além dos compromissos de vida, é claro. Mas, mais do que tudo isso, agendas de bolso me valem como diários pessoais. Já que costumo guardá-las, ao fim de cada dezembro, posso fazer, sempre que quiser, minha retrospectiva do último ano, ou das últimas décadas!E 1988 foi um ano que mexeu com meu coração, como revela a agenda da época (coincidentemente, daquelas que vinham com retalhos de poesias de Mario Quintana, que enchi de pontos de exclamação e reticências...).

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Reencontro excertos da minha alma, lado a lado com listas de compras de mercado. Mais adiante, uma memória deliciosa: "primeira viagem de carro a Porto Alegre com o Maverick. Virou os 100.000 km no domingo, 30 de outubro, às 11h, na BR-509, Km 64, a 70 km de Santa Maria". Aquela banheira velha era o xodó do meu pai, falecido um ano antes. Acabou sendo meu primeiro carro, um charme, uma farra, cheio de histórias.Alguns anos mais tarde, as agendas deixam evidente uma vida de mãe em torno dos filhos. Mas, à medida em que minhas crianças crescem – 1996, 1999, 2000 –, acompanho o ressurgimento da mulher que esteve um pouco de lado, e que reassume, com letra animadinha, os compromissos com a vaidade e com os amigos. Lembrar dessas passagens e suas conexões me faz sorrir, e não me permito o luxo de desconsiderar sorrisos, pelo contrário! Reverencio todas as fontes dessa magia, capaz de transformar meu rosto em outro, que é, certamente, mais agradável e encorajador.

Sempre que tenho tempo ou necessidade, revisito a vida, anotada em dias e horas cheias, e tento compreender minha trajetória. Bobagem? Nem um pouco, levo essa experiência muito a sério. Quando a gente relembra o que fez e como sentia, tem a chance de considerar, ponderar e editar o que ainda precisa ser feito; ou refeito. Por isso, a cada dezembro, sou fiel ao meu ritual de comprar a agenda de bolso mais bacana que encontrar; é minha maneira de atrair boas energias para o ano que começa, novo em folha. Em folhas.


 
 

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