Cronistas do Diário: "Ferreira Gullar", por Vitor Biasoli - Cultura e Lazer - Diário

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Opinião08/12/2016 | 06h56Atualizada em 08/12/2016 | 06h56

Cronistas do Diário: "Ferreira Gullar", por Vitor Biasoli

Cronistas do Diário: "Ferreira Gullar", por Vitor Biasoli Arte Rafael Guerra / Agência RBS/Agência RBS
Foto: Arte Rafael Guerra / Agência RBS / Agência RBS
Vitor Biasoli

vbiasoli@gmail.com

Sobre o dia da morte de Clarice Lispector, Ferreira Gullar escreveu um poema que é uma síntese da sua arte: simples, direto, contundente, sem um pingo de sentimentalismo:

¿Enquanto te enterravam no cemitério judeu / [...] / o táxi corria comigo à borda da Lagoa / na direção de Botafogo / E as pedras e as nuvens e as árvores / no vento / mostravam alegremente / que não dependem de nós¿.

Ferreira Gullar era dono de um modo peculiar de celebrar a vida – mesmo que fosse a vida miúda e consentida pelos poderosos. No caso desse poema, o poeta festeja a paisagem de uma grande cidade brasileira – o Rio de Janeiro – que segue em frente em seu esplendor, alheia às pequenas dores individuais. Ora, a morte, diante da imensidão da vida!

Ferreira Gullar faleceu no último domingo, aos 86 anos, e deixou, no mínimo, uma obra-prima: Poema sujo (1976), escrito quando era membro do PCB e penava um exílio que o fez peregrinar pela União Soviética, Chile e Argentina. A obra é considerada um dos marcos da resistência ao Regime Militar e uma referência de arte engajada nas bandeiras da esquerda. Arte poética que se quer distante do panfleto, capaz de incorporar as grandes inovações da linguagem, sem desvincular-se das questões políticas.

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Desse engajamento, no entanto, o poeta foi se distanciando, anos depois, e se tornou um crítico ferino das esquerdas em geral. Nessa virada ideológica, felizmente, sua poesia não perdeu a vitalidade, a criatividade e a capacidade de emocionar. Em crônicas, livros e entrevistas, Gullar reviu seu envolvimento com o Partido Comunista, com o projeto socialista e mesmo com a social-democracia, como foi o caso do projeto petista quando esteve no poder.

Cronista da Folha de S.Paulo, Gullar disparou petardos para vários lados e criou polêmicas com os artistas de vanguarda, com os críticos que priorizavam a literatura das minorias ou marginal, com os intelectuais que defendiam o projeto antimanicominal, com a liberação das drogas e por aí afora. Muitas vezes utilizava argumentos pouco consistentes, mas sempre com contundência. A arte da polêmica levada às últimas consequências, com provocações, diversão ou irritação garantidos.

Numa entrevista sobre os seus debates com as esquerdas, saiu-se com uma frase que se tornou seu emblema: ¿Não quero ter razão, quero é ser feliz¿. Um sujeito de briga e também um grande poeta, que não quis ¿apodrecer no poema¿ nem que seus versos fossem ¿pássaro empalhado¿ ou ¿múmia de flor dentro do livro¿.

 

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