Cronistas do Diário: Estilos, por Orlando Fonseca - Cultura e Lazer - Diário

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Opinião13/12/2016 | 08h58Atualizada em 13/12/2016 | 08h58

Cronistas do Diário: Estilos, por Orlando Fonseca

Cronistas do Diário: Estilos, por Orlando Fonseca Arte Rafael Guerra / Agência RBS/Agência RBS
Foto: Arte Rafael Guerra / Agência RBS / Agência RBS

No início do século 20, o telégrafo e o cinematógrafo influenciaram, na literatura ou no jornalismo, a criação de um estilo que mudou a forma de construção da frase ou da sequência narrativa. Mutatis mutandis, o que me leva a considerar a respeito disso, no século 21, com duas décadas de trocas de mensagens por redes sociais é: que estilo – se é que teremos algum – pode surgir desse novo modo de comunicação escrita?

Voltando aos modernistas da Semana de 22, podem-se recolher muitos exemplos do uso popular da sintaxe telegráfica. Alguns, oriundos do jornalismo, estavam familiarizados com aquela produção escrita. Tal fenômeno acompanhou a fragmentação do sujeito nas grandes metrópoles. O texto enxuto, da frase curta, sem conetivos, imitava a velocidade das comunicações ou das ruas. A representação estética privilegiava a alegoria – o particular figurando o universal, e a metonímia – a parte pelo todo.

No pós-guerra, o novo jornalismo trouxe de volta os recursos literários da narrativa. Esta já havia incorporado, nas obras de ficção, a linguagem do roteiro cinematográfico, com seus planos, cortes e paralelismos para compor a cena. Foi a ascensão de nomes como Tom Wolfe, Truman Capote, Gay Talese e, no Brasil, Loyola Brandão. A seguir, mais uma vez, a pressa exigiu o manual da redação e o texto burocrático. A rede social e os seus 140 caracteres chegavam com tudo, em twittes e zap zaps.

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O que se vê hoje, nos textos de jovens e adolescentes, é uma escrita truncada em vez de telegráfica, cheia de abreviaturas e modismos gráficos. E laconismos em vez da insinuação ou da síntese; e o pressuposto no lugar do subtexto literário gerado pela polissemia ou pela metáfora. Com certeza, tais ferramentas não têm como criar os pontos de indeterminação, essência do texto literário. Sem contar que, com o corretor automático, não é preciso sequer guardar a forma adequada da palavra escrita.

Pergunta atualizada: quem é o sujeito enrolado nesta rede social que virou a vida urbana? Qual seu tamanho na sociedade conectada, ao alcance de todos, à vista de todos? Essa linguagem apressada parece mais o sintoma de uma carência: o sujeito reduzido em seu poder de palavra, rendido ao acervo da inteligência artificial. Tal estilo-sem-estilo, intraduzível fora dos aplicativos, não transborda para outras áreas da produção escrita. A não ser para prejudicar a eficácia da linguagem. Dificilmente, teremos na literatura um tal de estilo whatsáppico – que por si só tem cara de frankenstein cibernético.

 
 

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