Cronistas do Diário: "A última carta", por Hugo Fontana - Cultura e Lazer - Diário

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Opinião05/12/2016 | 06h58Atualizada em 05/12/2016 | 06h58

Cronistas do Diário: "A última carta", por Hugo Fontana

Cronistas do Diário: "A última carta", por Hugo Fontana Arte Rafael Guerra / Agência RBS/Agência RBS
Foto: Arte Rafael Guerra / Agência RBS / Agência RBS
Hugo Antonio Fontana

hugofontanap@yahoo.com.br

Pode alguém ser, ao mesmo tempo, a melhor amiga e a insubstituível amante? Pode. Tanto é que assim tinha sido com Augusto. Dez anos só é pouco tempo depois que se passa dos 60. Na sua juventude, foi quase como um sopro. Foi um pouco como a rainha de Cartago, abandonada por Eneias porque este tinha um grande projeto a sua espera. No seu caso, não foi para fundar um grande reino que o seu amado a deixou. No máximo, foi para manter um mundinho de aparências.

Agora, duas vezes avó, Sara ainda precisava se sentir viva. Tomou a decisão. Escreveria uma carta a Augusto. Não importava o que ele iria pensar sobre essa atitude extemporânea. Colocaria num envelope perfumado e levaria até o correio. Avenida José do Patrocínio, quatro, meia, dois. Lembrava do endereço, dos beijos, dos abraços, do hálito, do cheiro do Augusto.

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"Augusto. Podes estranhar, depois de quase 30, minha insistência em escrever no papel aquilo que sinto. Tristeza. É o que sinto. Foi aquilo que respondi ao médico que consultei sobre sua pergunta de qual o mal que ali me conduzia. Tristeza pelo nosso país. Pelos sonhos só sonhados, pela falta de sono, pelos cinco comprimidos diários que sou obrigada a ingerir. Por nunca ter gostado de gatos nem de cachorros. Pela dor da miséria e do desemprego. Pelas bugigangas que entopem minhas gavetas e armários. Por sempre arrumar uma desculpa para não ser solidária, pelas vezes que te odiei, por não saber cantar, por nunca ter tomado partido de causa e de coisa alguma. Pelas garrafas que não esvaziei, pelos bares que não frequento, pela teimosia de insistir em ter friozinho na barriga. Sei, Augusto. Sempre me achaste um pouco louca. Não faz mal, como dizia o Adoniran. Só não venhas me dizer, com teu senso comum, que tudo é uma questão de lógica e depende do ponto de vista. Isso, além de irritante, te faz medíocre, o que não és. Mesmo que hoje confesses teu remorso pelo nosso amor, isso pode ser apenas um bolero sem graça, desses que a guria dorme no ombro do namorado por puro tédio. Disfarças bem. Quando te vejo na rua, altivo e distraído, penso que ainda és um belo homem. Mas também és um homem triste. Sei que, no fundo, no fundo, gostarias que a iniciativa da escrita dessa carta tivesse sido tua. Faltou coragem. Assim como há quase 30 anos. Ficas tranquilo. Essa é minha última carta. Nem vou me matar. Morrerei homeopaticamente de tristeza. Tua (?) Sara".

 

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