Cronistas do Diário: "Política e religião", por Hugo Fontana - Cultura e Lazer - Diário

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Opinião07/11/2016 | 06h53Atualizada em 07/11/2016 | 06h53

Cronistas do Diário: "Política e religião", por Hugo Fontana

Cronistas do Diário: "Política e religião", por Hugo Fontana Arte Rafael Guerra / Agência RBS/Agência RBS
Foto: Arte Rafael Guerra / Agência RBS / Agência RBS
Hugo Antonio Fontana

hugofontanap@yahoo.com.br

As relações históricas entre política e religião nem sempre recomendam bem uma e outra. Aquilo que muitos políticos e religiosos fizeram e fazem passa longe da "religação de algum Deus com os homens" ou "tratar daquilo que diz respeito ao cidadão". Basta lembrar, por exemplo, quando, na Idade Média, Papas (ditos representantes de Deus sobre a terra) coroavam reis que, por extensão, podiam, sem problema moral algum, dispor da vida e dos corpos dos seus súditos. Com maior ou menor intensidade, as ligações promíscuas entre religião e política, ao longo da história dos homens, não escolheram lugares nem culturas específicos.

 Mesmo assim, não me alinho entre aqueles que colocam no "mesmo saco" políticos e religiosos. Conheci um político e um religioso que passam muito longe dos estereótipos assustadores aos quais ambos possam estar associados. Final dos anos 60, início dos 70, fui locutor e redator da então jovem Rádio Medianeira, considerada, na época, vanguarda nessa popular mídia. O ainda padre Érico Ferrari era o diretor da rádio, e João Gilberto Lucas Coelho, quase vereador, nosso chefe de redação. Sobre ambos, conto uma pequena, mas simbólica história.

Tomavam mate juntos, todos os dias. João foi vereador e, na metade dos anos 70, eleito deputado. Érico – que vivia apenas do modesto salário de padre – queria presentear o amigo. Um dia, após o mate, lavou bem a cuia e a bomba, as embrulhou e deu de presente ao João para que lembrasse da "terra" quando se instalasse no Planalto.

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Padre Érico, eu havia conhecido antes. Com sua amizade, me convenceu a fazer um Curso de Alfabetização de Adultos, em Porto Alegre.  Tempos depois, a "formatura" da primeira turma de alfabetizados (não mais do que quatro mulheres e dois homens) coincidiu com o retiro do já bispo Érico. Liguei para a Casa de Retiros, e atende uma voz masculina dizendo tratar-se de "um padre". Reconhecendo a voz de dom Érico, lembrei-lhe que, naquela noite, era a "formatura". As oito da noite em ponto, para surpresa das freiras do colégio do bairro Itararé, descia do seu fusca branco, o novo bispo da Diocese.

João, conheci na rádio. Com sua datilografia sui generis, de apenas dois dedos, criava sozinho mais do que todos nós nem sequer pensássemos em fazer. No cursinho, suas aulas de história ficaram famosas. Vereador. Deputado. Em Brasília, me acolhe para a cobertura jornalística da eleição indireta para Presidência da República. Lá, antes de alguma entrevista, quando me identificava como repórter de Santa Maria, todos os deputados, mesmo os apoiadores de Maluf, lembravam com admiração tratar-se da "terra do deputado João Gilberto".

Dom Érico foi-se "bem antes do combinado". João, faz tempo que não o vejo. Ambos são minha referência de quando religião e política podem ser construídas com aquilo que a espécie tem de melhor.

Espero apenas que, daqui há 50, 60 anos, alguém se refira a nossa terra como o lugar onde tivemos o privilégio de conviver com gente como esses dois.

 
 

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