Cronistas do Diário: "O macro e o micro", por Jumaida Rosito - Cultura e Lazer - Diário

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Opinião18/11/2016 | 06h58Atualizada em 18/11/2016 | 06h58

Cronistas do Diário: "O macro e o micro", por Jumaida Rosito

Cronistas do Diário: "O macro e o micro", por Jumaida Rosito Arte Rafael Guerra / Agência RBS/Agência RBS
Foto: Arte Rafael Guerra / Agência RBS / Agência RBS

Hoje em dia, se alguém te disser que "É" feliz, assim, na lata, vou levar o maior susto! E, possivelmente, vou desconfiar de um caso agudo de "miopia conjuntural seletiva", que poderia ser o nome de uma doença grave, que faz com que a pessoa enxergue quase nada, além de seu próprio umbigo. Faz tempo que não encontro um caso desses. Mas, se alguém me disser que "ESTÁ" feliz, aí, sim, faz mais sentido. 

A verdade é que, para ser feliz, é preciso vocação. Alguns têm uma capacidade nata de se concentrar apenas nos bons momentos. Indivíduos com esse perfil, mesmo conscientes das agruras do mundo, não se deixam ferir na alma, porque, quando isso acontece, a resistência à tristeza ou à melancolia cai a níveis perigosos. Sei disso porque minha alma é cheia de curativos. As pessoas como eu, sem o dom natural para a felicidade inerente, precisam repetir, todas as manhãs, o mantra dos adictos "um dia de cada vez!", e vigiar constantemente. A técnica de ativação do bom senso funciona muito bem; é mais ou menos assim: se temos casa, comida, filhos acolhidos e amor, então, podemos nos sentir felizes. Há que exercitar essa lógica, continuamente, para o fortalecimento das convicções.

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Só que eu (como muitas outras pessoas) tenho mais um elemento complicador nessa história _ vivo uma espécie de sintonia fina com tudo, o que me dá uma dimensão a mais de sobressaltos. Funciona assim: todos nós, desde que não destituídos de empatia, somos impactados pelo sofrimento em macro. Lamentamos pelos 2 milhões de pessoas que penam nas ruínas de Alepo, na Síria, por exemplo; também não conseguimos deixar de engasgar com a propaganda dos "Médicos sem Fronteiras"; até aí, é comum o entristecimento, não é verdade? 

Mas, e quando, além de tudo isso, a gente se aflige, verdadeiramente, com a formiga engolida pelo aspirador de pó? Para onde vai essa criaturinha, e o que se passa com ela naquela escuridão eterna? Também nunca sei o que fazer com as plantinhas minúsculas que nascem nas rachaduras do rejunte do pátio. Pelo pingo de solo onde vegetam, são raquíticas, mas perfeitinhas, com suas flores quase invisíveis. Como posso arrancá-las e ignorar tanto desejo de viver? Mesmo que quebrem minhas calçadas e me deixem com fama de desleixada.  
Sofro ainda pelo micro que capto nas pessoas, então, sofro junto com quem mal conheço. Gente como eu, com esse tipo de sensibilidade fina, tem um pouco mais de dificuldade no exercício diário de ser feliz. Por isso, disse que minha alma tem curativos. Felizmente, aprendi a valorizar também os micro momentos bons, em que me renovo. Como nesta semana, quando ativei o som do carro, distraída, e a voz de Mercedes Sosa me atingiu a alma em cheio. Eu diria que macro explodi de felicidade! 

 
 

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