Cronistas do Diário: "O elogio ao óbvio", por Marcelo Canellas - Cultura e Lazer - Diário

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Opinião27/11/2016 | 21h03Atualizada em 27/11/2016 | 21h16

Cronistas do Diário: "O elogio ao óbvio", por Marcelo Canellas

O ex-ministro da Cultura fez o que qualquer pessoa minimamente decente faria. Pediu demissão

Cronistas do Diário: "O elogio ao óbvio", por Marcelo Canellas Arte Rafael Guerra / Agência RBS/Agência RBS
Foto: Arte Rafael Guerra / Agência RBS / Agência RBS

Sempre achei sem sentido elogiar o óbvio. O óbvio é, obviamente, algo redundantemente claro e incontestável, que prescinde de explicação. O óbvio é banal e ordinário. O óbvio é óbvio, e pronto. Pois bem, chegamos ao cúmulo de ter de elogiar o óbvio. O ex-ministro da Cultura, Marcelo Calero, fez o que qualquer pessoa minimamente decente faria. Pediu demissão para não ter de fazer algo imoral, para não ser obrigado a sabotar o interesse público em nome de negócios privados. Calero fez, portanto, o óbvio: pediu exoneração do cargo e explicou com clareza por que o fez. Mesmo assim, terei de elogiá-lo. O que me obriga a isso é o rebaixamento das balizas éticas das ações dos políticos.

Todos sabem o que aconteceu: o então poderoso ministro da secretaria de governo, Geddel Vieira Lima, comprou, na planta, um apartamento de luxo em Salvador. O edifício de 31 andares seria construído na Ladeira da Barra, cravejada de tesouros coloniais arquitetônicos. O Iphan da Bahia liberou a obra, mas o Iphan nacional, órgão ligado ao Ministério da Cultura, embargou o empreendimento devido à desfiguração da paisagem histórica: um espigão modernoso na área onde ficam, por exemplo, o Cemitério dos Ingleses e a Igreja de Santo Antônio da Barra. O prédio pode ter, no máximo, 13 andares. Geddel não gostou. Telefonou para Calero, alegando que teria prejuízo em seu investimento.

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Se o telefonema tivesse ficado nisso, já seria gravíssimo. Não ficou. Geddel ligou outras vezes, pediu a cabeça de dirigentes do Iphan e, segundo Calero, ameaçou falar até com o presidente da República. Geddel é amigo pessoal de Michel Temer. Braço direito do presidente, era o responsável pela articulação política e pela interface do governo com o Congresso Nacional. Não é um cargo qualquer, pois simboliza a maneira como o gestor pensa o poder e a relação do Estado com princípios de governança. O homem que, até sexta passada, ocupava essa cadeira estratégica deu uma entrevista dizendo que não fez pressão, fez "ponderações" ao colega da Cultura.

Parece que Geddel Vieira Lima não conhece o óbvio. Expliquemos: o que ele fez, é óbvio, chama-se tráfico de influências. É mais do que óbvio que usar um cargo público para benefício pessoal fere a ética e a moral, por mais baixo que seja o parâmetro de moralidade. Também é óbvio que Geddel deveria ter sido imediatamente, e sumariamente, exonerado. A hesitação de Temer, que levou uma semana para exonerá-lo, sugere que o estranho no ninho de seu governo não era Geddel, era Calero. O compadrio, o patrimonialismo e apropriação da esfera pública para favorecer negócios privados são doenças seculares do Estado brasileiro, enfermidades que corroem até o entendimento sobre o óbvio. A ponto de termos de explicá-lo aos que o profanam e de elogiar os que o praticam.


 
 

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