Cronistas do Diário: "Cuidado para não ficar cego", por Vitor Biasoli - Cultura e Lazer - Diário

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Opinião17/11/2016 | 06h46Atualizada em 17/11/2016 | 06h46

Cronistas do Diário: "Cuidado para não ficar cego", por Vitor Biasoli

Cronistas do Diário: "Cuidado para não ficar cego", por Vitor Biasoli Arte Rafael Guerra / Agência RBS/Agência RBS
Foto: Arte Rafael Guerra / Agência RBS / Agência RBS
Vitor Biasoli

vbiasoli@gmail.com


O título desta crônica é um antigo aviso dos jornais publicados em 1966, avisando a população sobre as precauções a serem tomadas para observar o eclipse solar que ocorreria no dia 12 de novembro daquele ano. O fenômeno seria visto numa faixa do Rio Grande do Sul que passava por Rio Grande, Pelotas e Bagé, e as pessoas não deveriam observá-lo a olho nu, pois isso acarretaria danos para a visão. Quem quisesse ver o eclipse, que preparasse ¿óculos¿ com chapas de Raio X ou com vidro esfumaçado.

Eu era menino de 11 anos, morava em Pelotas, e fiquei assustado com a possibilidade de cegueira. Decidi não ver o eclipse, mas, na hora H, me protegi com uma radiografia e encarei o encobrimento do sol pela lua. O eclipse começou por volta das 11h30min, durou menos de meia hora e foi inesquecível. Quando começou a escurecer, os pássaros voaram em bando procurando seus ninhos, como se estivéssemos no horário do entardecer. Os ponteiros do mundo pareciam descontrolados.

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Na praia do Cassino, a Nasa instalara uma base com plataformas de foguetes e radares, uma parafernália de ¿corrida espacial¿ que fascinou o menino que eu era. Não esquecer que eram tempos em que EUA e URSS disputavam a supremacia no desbravamento do espaço, e a URSS estava na frente. Um astronauta russo já dera a volta na Terra, e os EUA se puxavam para superar o feito soviético.

Três meses antes do eclipse, os americanos desembarcaram toneladas de equipamentos no porto de Rio Grande e montaram a sua base de lançamento de foguetes no Cassino. O local se tornou um point de visita, passeio inesquecível para a gurizada que acompanhava a corrida espacial como se fosse um campeonato esportivo.

Do pátio de casa, em Pelotas, assisti ao eclipse e também aos rastros de fumaça dos foguetes norte-americanos subindo ao céu. Espetáculo da natureza, espetáculo de ciência e tecnologia também. Entender a complexidade disso tudo – e, para isso, vencer o medo da cegueira – foram meus desafios de menino. Uma mistura de fascinação e medo. Fascinação pelo sol sendo encoberto pela lua, medo do espetáculo comprometer minha visão.

Coisas de criança, digo agora, tentando enganar o menino que ainda vive dentro de mim e que, volta e meia, me renova temores antigos.

 
 

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