Cronistas do Diário: "Como não tem celular?", por Marcelo Canellas - Cultura e Lazer - Diário

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Opinião12/11/2016 | 15h52Atualizada em 12/11/2016 | 15h52

Cronistas do Diário: "Como não tem celular?", por Marcelo Canellas

O WhatsApp da minha mãe era um berro na janela... A vida era mais lenta. E, quem sabe, mais feliz.

Cronistas do Diário: "Como não tem celular?", por Marcelo Canellas Arte Rafael Guerra / Agência RBS/Agência RBS
Foto: Arte Rafael Guerra / Agência RBS / Agência RBS

Dia desses, no meio dessa bagunça braba em que a gente se mete, me deu ganas de procurar a simplicidade surrupiada pelas neuroses do mundo. É que encontrei um colega jornalista que eu não via há muito tempo. Abraçamo-nos, perguntamos um ao outro como anda a vida de cada um, a família, o trabalho. Rimos, lembramos de uma ou outra bobagem que fizemos juntos e, na hora da despedida, eu pedi o número do celular dele. E aí veio a resposta surpreendente:

– Eu não tenho telefone celular.
Como não tem celular? Fiquei olhando pra ele com cara de abobado, sem saber o que dizer e, principalmente, sem compreender como alguém pode estar tão fora do ar, ainda mais sendo jornalista. "E como eu te acho?", eu quis saber. "Te dou o da minha casa, ué." E puxou um papelzinho para anotar os oito números do telefone fixo. Meti aquilo no bolso e fui embora me perguntando quem é que está certo. Eu não lembro mais como era a vida antes do celular. Mas é certo que havia uma, e todos a vivíamos sem o vibracall do WhatsApp aporrinhando o dia inteiro.

Não estou aqui pregando a volta à idade da pedra. Reconheço as facilidades e a segurança que um celular dá em momentos de aperto, principalmente pra quem tem filho. Mas, olhando o bilhetinho onde meu amigo anotou o número da casa dele, fiquei me perguntando se a vida não pode ser mais simples, se precisamos mesmo passar o dia inteiro conectados, cultivando uma ansiedade contínua que nos faz checar se não tem mensagem, se não chegou e-mail, querendo saber se alguém curtiu as últimas postagens do Facebook e do Instagram.

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Eu tenho essas redes sociais todas porque me convenceram de que são plataformas onde circula a informação moderna e, ora bolas, eu sou jornalista e trabalho com notícia. Mas me pego sucumbindo a uma forma de escravidão, em que minha atenção é preada por um aparelho que, aliás, a empresa que o fabrica me obriga a trocá-lo por um novo. Não quando eu quero, mas quando ela quer. É a tal obsolescência programada, em que o fabricante já faz o produto de modo que ele se torne não funcional dentro de um ano ou dois, com tanta atualização pra baixar – e ainda assim cada vez mais lento – que o consumidor, domesticado pela sua própria ansiedade, acaba correndo para comprar outro aparelho de última geração.

Não sou contra o celular, mas reclamo dessa forma de capitalismo perverso que nos impõe a ansiedade. Lembro que o meu avô cortava garrafas de vidro para fazer copos de caipirinha, e transformava latas de cerveja em canecas. Minha avó fazia pão de forno e conservas de pêssego em casa. O WhatsApp da minha mãe era um berro pela janela para avisar a gurizada que o almoço estava na mesa. Comíamos em casa. A vida era muito mais lenta e atrasada. E, quem sabe, mais feliz. 


 
 

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